sexta-feira, 21 de maio de 2021

O Mundo Invisível e a Guerra ~


IV 
O Mês de Jeanne d’Arc  
(II de III) 

|Maio de 1915|

Assim como dominou o século XV, o vulto de Jeanne d’Arc dominará também o nosso tempo. Nela e por seu intermédio se há de consumar a união de nossa pátria. 

Ainda ontem, como no tempo de Carlos VII, a França estava desunida, esfacelada por grupos políticos nascidos da cobiça e de apetites inconfessáveis. Na hora do perigo tudo se desmanchou em fumaça e se calou para permitir que o país fizesse ouvir a sua voz e os seus apelos aos poderes do Alto. 

Os próprios adeptos do Radicalismo e do Socialismo, que ainda combatiam Jeanne d’Arc no Palais-Bourbon, para ela se voltam para honrá-la. 

Em 26 de Abril, o senador Fabre escrevia a Maurice Barrès: “Acabo de receber uma carta do Sr. Léon Bourgeois, onde ele me diz: Podeis contar com a minha cordial adesão à festa nacional de Jeanne d’Arc. E acrescentava: Estão, portanto, conquistados Hervé, Clemenceau e Bourgeois. Jeanne d’Arc nos protege. Todos estarão connosco.” 

Vários políticos já consideram próxima a hora em que o governo, apoiando-se em todos os partidos, glorificará em Jeanne essa sagrada união que possibilitou a obra libertadora. Em compensação, outros afirmam que nada se pode falar, nem fazer, em homenagem a ela, enquanto os ingleses permanecerem em solo francês. 

Para assim se manifestarem é necessário muito pouco conhecer o sentimento que os nossos actuais aliados dedicam a Jeanne d’Arc. Desde Shakespeare, eles lhe tributam uma admiração sempre crescente. 

Todos os anos, nas festas de Rouen, há uma delegação inglesa e agora, que eles estabeleceram uma de suas bases de operação nessa cidade, não deixam de manter na praça do Vieux-Marché, no mesmo lugar do suplício, braçadas de flores enlaçadas com uma faixa com as cores britânicas. 

Em 16 de Maio passado, o reverendo A. Blunt, capelão da embaixada inglesa, ao colocar uma coroa aos pés da estátua equestre da Place des Pyramides, dizia: 

“Comparecemos, como membros da colónia britânica de Paris, para depositar algumas flores aos pés da estátua de Jeanne d’Arc, a valorosa guerreira de França. Reconhecemos que o seu espírito de patriotismo, coragem e sublime abnegação anima o exército francês de hoje e estamos certos de que esse espírito o conduzirá à vitória.” 

Há alguns dias, o grande jornal londrino The Times dedicava à memória da Virgem de Orléans um importante artigo, resumindo todo o pensamento inglês sobre esse nobre assunto: 

“Em toda a Idade Média não há história mais singela e mais grandiosa, nem tragédia mais dolorosa do que a da pobre pastora que, pela fé ardorosa, soergueu a sua pátria das profundezas da humilhação e do desespero, para sofrer a mais cruel e a mais infamante das mortes pelas mãos de seus inimigos. 

A elevação e a beleza moral do carácter de Jeanne conquistaram o coração de todos os homens e os ingleses se lembram, com vergonha, do crime do qual ela foi vítima. 

Entretanto, não é pelo amor à pátria, nem pela coragem na luta, nem pelas visões místicas, que o mundo todo homenageia Jeanne d’Arc; isto lhe é devido porque, em época triste e dolorosa, ela provou, por palavras e actos, que o espírito da mulher cristã ainda estava vivo entre os humildes e os oprimidos e produzia, profusamente, incomparáveis frutos. Houve, algum dia, natureza mais recta, mais terna, mais pura e mais profundamente piedosa que a de Jeanne d’Arc? 

Antes mesmo que tivesse conseguido ir até ao rei e desfraldado a sua bandeira, o povo, em toda a parte, acreditava nela. A força de sua vontade, a elevação dos seus pensamentos e a intensidade do seu entusiasmo superaram todas as oposições. 

É delicada e complacente para com os prisioneiros e, até para os ingleses a sua alma se mostra plena de piedade. Convida-os para que se juntem a ela para uma grande cruzada contra os inimigos da cristandade. 

E quando, com auxílio de alguns traidores existentes entre os seus compatriotas, a fizeram cair numa cilada e a condenaram a uma morte horrível, as suas últimas palavras foram de perdão para os seus algozes.” 

Um patriota francês não se expressaria melhor. É certo que Jeanne não odiava os ingleses e queria simplesmente colocá-los fora do território da França. Como afirma o The Times, ela pensava até em associá-los aos franceses numa grandiosa empresa que ela tomaria a seu cargo e lhes escrevia: 

“Se derdes satisfação ao rei de França, ainda podereis ir na sua companhia, aonde quer que os franceses realizem o mais belo feito como jamais foi realizado pela cristandade." 

/… 


LÉON DENIS, O Mundo Invisível e a Guerra, IV – O Mês de Jeanne d’Arc, (II de III) 10º fragmento desta obra. 
(imagem de contextualização: Tanque de guerra britânico capturado pelos Alemães, durante a Primeira Guerra Mundial

terça-feira, 11 de maio de 2021

pensamento espírita argentino ~


CAPÍTULO I 

Fundamentos científicos da concepção neo-espírita da vida e da história ~ 

Que somos? 
(IX) 

Nos casos de desdobramento observa-se que; "enquanto o corpo do médium ou do hipnotizado" fica reduzido a uma vida puramente vegetativa ou orgânica e as funções de relação suspensas durante o transe, se exterioriza o corpo fluídico ou astral, tomando, este, aspectos e cores determinados que variam segundo as pessoas. Albert de Rochas, que o estudou na sua exteriorização, em especialidade, sustenta que é exactamente a reprodução do corpo físico. Esta é também a afirmação do engenheiro Gabriel Delanne, para quem não se limita à reprodução dos contornos exteriores do ser material, mas também na interioridade da estrutura perispiritual. Dito de outro modo: todos os órgãos do ser humano existem na reprodução fantasmal, em virtude de uma preformação etérea, a qual, se nos ativermos aos factos, pode variar e tomar formas, modalidades e até personalidade distintas. 

O mesmo acontece nos casos de bilocação, em que o espírito do sonâmbulo, ou do extático, se translada com o perispírito a um lugar distante, onde se encontra o seu corpo, com todas as suas faculdades psíquicas e, se faz visível em muitos casos. 

Mas onde o perispírito se manifesta em todo o seu poder e o facto tem um valor mais probatório e significativo é quando se exterioriza parcial ou totalmente fora do organismo, como nos fantasmas dos doentes e dos chamados mortos, muitas vezes vistos, observados e até fotografados, como se pode comprovar em fotografias transcendentais. 

“... A parte que há em nós de idealista e transcendental – diz o eminente físico Oliver Lodge – é associada permanentemente com o eterno, para a actividade e a intercomunicação igual à que mantemos agora com a matéria.” 

Nesta super-estrutura etérea ou perispiritual é que se radica o “mistério” das transformações psicofisiológicas e onde se deve ir procurar a explicação de todo o fenómeno psíquico normal e supranormal. Ela é o verdadeiro meio transformador das sensações em percepções. 

Sendo uma substância maleável e dúctil por sua natureza etérea e estando subordinada à vontade do espírito, é capaz de adaptar-se às várias condições do plano físico e, afinando-se a ele, servir-lhe de veículo. 

O facto notório de que os amputados continuam a sentir dores e impressões originadas por causas anteriores e que experimentem sensações térmicas no lugar do membro amputado, prova a existência do perispírito e que as supostas localizações cerebrais não são senão os verdadeiros centros perispirituais, onde o espírito regista e conserva (apesar da constante renovação da matéria e das células cerebrais) o conhecimento e a memória onde têm origem todos os fenómenos psicológicos. 

“... O sentido da integridade do membro amputado é a tal ponto real – diz o professor Bozzano – que se se conseguir distrair a atenção do mutilado, este percebe inclusive as sensações que o membro inexistente deveria perceber, se não lhe faltasse” (i) e considera esse facto como uma das modalidades do fenómeno de bilocação, que não pode ser logicamente explicado se não se admitir o corpo fluídico ou perispiritual. 

Não faltam psicólogos que consideram este fenómeno como o resultado de um hábito adquirido nas sensações reais e continuado nas pseudo-sensações depois da amputação. Mas esta hipótese perde todo o seu valor perante o conhecimento experimental que hoje se tem do perispírito e que oferece uma explicação que nos põe em condições de poder compreender e explicar este e outros fenómenos psíquicos e metapsíquicos não explicáveis pela primeira hipótese. 

Alguns metapsiquistas qualificaram a hipótese científica do perispírito hoje perfeitamente demonstrada pelos factos de “pura ilusão”, não obstante terem que fazer uso dela para explicar o fantasma fluídico dos bilocados. 

Respondendo a tal objecção, o professor Ernesto Bozzano ressalta as diferentes modalidades pelas quais se determina o fenómeno da exteriorização do corpo fluídico, demonstrando com factos a sua objectividade e eliminando as hipóteses onírica e alucinatória que, segundo ele, são as únicas que se podem opor a fenómenos desta classe. E a tal objecto, estabelece as diversas gradações em que se produzem os fenómenos de bilocação, começando pelos já mencionados da sensação de integridade dos mutilados e seguindo com os fenómenos de autoscopia ou de desdobramento apenas esboçado, em que o sujeito tem consciência de si mesmo e percebe o seu fantasma à distância. São, portanto, os casos em que o espírito percebe o seu corpo à distância; os fenómenos de desdobramento durante o sono natural; os do sonambulismo provocado; os de desdobramento por acção anestésica; o que se produz nos estados comatosos ou pré-agónicos; o do fantasma de um vivo, visto simultânea ou separadamente por várias pessoas; o do duplo, visto por sensitivos, e, por último, o percebido pelos assistentes de uma pessoa no momento da morte. 

O fenómeno da memória para ser explicado exige a existência de algo permanente. A identidade e permanência das lembranças exigem a identidade e permanência do eu. A lembrança não pode existir se faltar a unidade psicológica que perdure. Se o espírito pode recordar faltando-lhe (como nos casos de ablação mencionados) os centros cerebrais da memória, é lógico afirmar que esta não se radica no cérebro. 

É certo que para lembrar dos conhecimentos adquiridos – isto é, aqueles que impressionaram o nosso cérebro – se requer, em estado normal, determinadas condições psicofisiológicas, pois ainda que os conhecimentos estejam gravados no perispírito, estando este ligado ao cérebro, normalmente dele necessita para recordá-los, como no estado normal ou ordinário necessita dos órgãos e centros de percepção para ver, ouvir, etc. Mas, nem é o cérebro que possui os conhecimentos, nem os centros da memória que os recordam, assim como não são os olhos que vêem nem os ouvidos que ouvem. 

A conservação dos conhecimentos adquiridos pode existir (e existe de facto) sem a lembrança; esta pode desaparecer do campo da consciência e permanecer oculta durante a maior parte de nossa vida e reviver logo na mente, em virtude de circunstâncias favoráveis à memória ou por acidentes que afectem a normalidade do cérebro, ou ainda nas afluências mnemónicas dos doentes... 


“Quando a lesão cerebral é grave, quando a memória das palavras está atacada profundamente, sucede que uma excitação mais ou menos forte, uma emoção, por exemplo, devolve-nos a lembrança que parecia perdida para sempre. 

“Seria possível isso se a lembrança houvesse sido depositada na matéria cerebral alterada ou destruída? O fenómeno produz-se como se o cérebro servisse mais para rememorar a lembrança do que para conservá-la.” 

E acrescenta: 

“Se a lembrança não foi armazenada no cérebro, onde se conserva? A pergunta onde, acaso tem sentido, quando nos referimos a outra coisa que não um corpo? Os clichés se conservam numa caixa, os discos fonográficos em embalagens, mas por que as lembranças, que não são coisas visíveis nem tangíveis, terão necessidade de um continente e como seria possível tê-lo? Essas lembranças estão noutra parte que não no espírito?” (ii) 

Sem dúvida, tanto a nova como a velha Psicologia pretendem que a memória e, por consequência, as lembranças se prendem ao cérebro, mas nem todos os seus representantes estão de acordo (e a razão é obvia) sobre a natureza das impressões ou sinais cerebrais da memória. Desde Platão a Ribot, não há mais do que hipóteses que se desvanecem sob o peso dos factos que apontamos e outros que em continuação mencionaremos. Descartes acreditava nas circunvoluções do cérebro, onde as lembranças estariam arquivadas; Malebranche, em supostos sulcos comunicantes; Moleschott e os seus seguidores, nas vibrações fosforescentes da matéria cerebral; Ribot e os psicofisiologistas, nas marcas produzidas (não se sabe como, nem em que consistem) por certas modificações dos movimentos nos centros corticais, transformados uns em arquivo das palavras, outros dos movimentos, aquele da música, este da pintura e, enfim, cada um com encargo e aptidão especiais. A recordação é, pois, uma função privativa de certos centros: o Mozart músico está todo contido no centro musical; o Vernet pintor, no centro pictórico (iii) e assim todos os demais. 

A tudo isto acrescentaremos os fenómenos supranormais de subconsciência medianímica, em que o sujeito revela conhecimentos não fixados nem arquivados no cérebro material, por não os haver adquirido durante a vida terrena; o das crianças-prodígio, para quem, segundo a frase de Platão, aprender é recordar; os fenómenos assombrosos de regressão da memória obtidos pelo sonambulismo. Neste caso, o sujeito hipnotizado retrocede no tempo, passando por diversas fases de sua vida terrena até entrar no claustro materno e aparecer imediatamente numa existência anterior com uma nova personalidade, completamente diferente e alheia à primeira, a qual, por sua vez, seguindo um processo regressivo análogo, desaparece e, assim, umas sucedendo-se a outras, vão desaparecendo as diversas personalidades de um mesmo indivíduo, de um mesmo eu, ignorando uma à outra e todas deixando dados mais precisos de suas respectivas vidas. 

A memória subconsciente supranormal manifesta-se também em muitas pessoas, como no caso de Lamartine, do catedrático Damiani, dos escritores Ponson du TerrailDumas e Theóphile Gautier, do poeta Mery e mil outros, que têm afirmado (e em alguns casos demonstrado) possuir lembranças de existências passadas, ou que reviram esse passado à vista de paisagens ou diante de factos ou circunstâncias que lhes trouxeram à memória, ou, como no caso do doutor Gustave Geley, que conservava lembranças pré-natais dos momentos próximos à entrada na vida material. 

Ainda podemos juntar ao exposto os casos de loucura em que a Psicofisiologia (e a Psiquiatria, inclusive) pretende ver factos que negam o espírito como entidade substancial e distinta do organismo. 

Na loucura não há loucos, não há demência, senão diversos modos anormais de se mostrarem ajuizados em razão de uma desordem orgânica ou desarmónica nas relações do cérebro e o perispírito, ou por uma obsessão fixada no cérebro e da qual o espírito não pode subtrair-se enquanto não seja neutralizada por uma sugestão de si mesmo ou com a ajuda de outro poder sugestivo superior. O corpo não é louco, o perispírito tampouco (e ainda menos o espírito), mas um ou o outro ou ambos podem ser a causa da loucura e desde que aí suprimidas as causas, ficam suprimidos os efeitos. Há loucos que não apresentam qualquer lesão no cérebro e há ajuizados que têm o cérebro feito em pasta. 

Surya (iv) conheceu um demente que, na véspera de morrer, recobrou toda a lucidez do seu espírito e pôde conversar com os seus parentes e amigos com o juízo e a lógica mais seguros. 

/... 
(i) O autor deste livro pode corroborar este facto com a sua experiência pessoal: tendo perdido uma perna, conserva a sensação constante da sua existência e mais de uma vez, esquecendo a falta do dito membro, reagiu a uma sensação de prurido, de pressão ou de dor, levando a mão ou o pé da outra perna ao lugar onde havia a sensação. E é curioso que nunca tenha podido localizar no coto estas sensações que sentiu diferentemente nas diversas partes do membro amputado, até ter a certeza da distância e do lugar exactos onde as percebia. É significativo, por outra lado, que tendo sofrido uma ferida profunda no dedo grande da perna amputada, sinta no mesmo lugar a sensação característica da pressão e adormecimento dolorosos que sentiu durante 30 anos e que persiste ainda quatro anos depois da amputação. Também assinalo que não poucas vezes, distraído, busque com insistência a perna para vestir a calça ou calçar o sapato e mais de uma vez sucedeu firmar o coto pensando firmar o pé. 
(ii) O Materialismo Actual. Veja-se também Matéria e Memória. 
(iii) Ver J. Patrascoiu: Psicologia.
(iv) Ver a revista La Luz del Porveni (Barcelona) ou o número de La Idea mencionado. 


Manuel S. PorteiroEspiritismo Dialéctico, CAPÍTULO I Fundamentos científicos da concepção neo-espírita da vida e da história – Que somos? (IX), 9º fragmento da obra. 
(imagem de contextualização: Personajes, Pintura de Josefina Robirosa)

sexta-feira, 30 de abril de 2021

Corpo fluídico | agénere ou aparição tangível ~


Capítulo Terceiro 

ROUSTAING E OS SEUS ADMIRADORES ~ 

O roustainguismo tem pequena quantidade de adeptos no Brasil, não obstante ser a Federação Espírita Brasileira o principal núcleo de irradiação dessa doutrina. Eis o paradoxo, pois essa instituição é também o maior núcleo editorial das obras kardequianas e das subsidiárias do Espiritismo. Entretanto, por quê tanto interesse na divulgação das obras dessa doutrina? Em que se baseiam os seus adeptos para entendê-las como obras espíritas? Quais são os principais argumentos de que se utilizam para justificar essa atitude? Quais são os pontos em comum entre Allan Kardec e Jean-Baptiste Roustaing e como se dá a ligação dos dois, segundo o pensamento dos roustainguistas? Em que se apoiam para afirmar com tanta convicção que o roustainguismo é necessário ao Espiritismo? 

Somente um estudo mais ou menos amplo permite que se responda a essas indagações. Várias são as obras, editadas em sua grande maioria pela Federação Espírita Brasileira, que pretendem comprovar os possíveis laços entre as duas doutrinas, embora os seus autores soubessem da posição contrária de Kardec a Roustaing. Esse factor, porém, não os impediu de escrever e pensar pela cartilha roustainguista. Mas é a biobibliografia intitulada "Allan Kardec", por incrível que pareça, que mais permite obter uma ideia dos principais pontos em que se apoiam os roustainguistas para prosseguir na sua crença. Em três volumes, "Allan Kardec" foi editada pela Federação Espírita Brasileira e os seus autores são Zêus Wantuil e Francisco Thiesen, ambos ligados à direcção da Federação. A obra apareceu com a pretensão de ser o mais profundo trabalho de pesquisa sobre o codificador do Espiritismo. Entretanto, no ardor da pesquisa e das interpretações, os autores não puderam evitar que as suas convicções pessoais viessem a influir nas conclusões. Afirmaram, inclusive, que Roustaing é necessário ao Espiritismo. Assim, pois, "Allan Kardec" é, ao mesmo tempo, o melhor trabalho que já se fez sobre a vida e a obra do codificador e o mais duvidoso em matéria de interpretação do pensamento kardequiano. 

"Allan Kardec" tem duas partes distintas: a biobibliografia e os ensaios de interpretação. Para a primeira fora preciso apresentar documentos, caso contrário ficaria sem validade; a segunda navega nas ondas do pensamento dos autores. Entretanto, mesmo para ela, há momentos em que a gravidade do assunto pede provas. É o que acontece quando se pretende afirmar que uma doutrina integra a outra. Mas, no caso de Roustaing, os autores de "Allan Kardec" não se preocuparam com isso. Valeram-se, apenas, do selo editorial pelo qual a obra foi lançada e da posição que ocupavam na Federação, na esperança de que estes factores pudessem pesar decisivamente e – até! – definitivamente na mente dos leitores. E não deixaram de ter razão, pelo menos quanto à parcela daqueles que tudo lêem sem nada comparar, analisar ou criticar. 

A análise dessa obra, especificamente nos aspectos em que toca no roustainguismo, permitirá, pois, responder às indagações acima. 

ABRINDO CAMINHO 

Quando se pretende atingir um destino, tem-se dois caminhos: a estrada e o atalho. Pode ocorrer que o atalho seja até mais longo que a estrada. Isso, porém, não terá a menor importância se ficar provado que a estrada não leva ao destino que se "deseja"; vai-se pelo atalho. Fundamental é chegar ao destino. Pode ocorrer, também, que o atalho obrigue à tomada de iniciativas perigosas em determinados trechos, desvios aqui, saltos ali. Ainda assim, vai-se pelo atalho se o destino da estrada, comprovadamente, não for o do desejo. 

Eis o que ocorre com a obra "Allan Kardec", a partir do seu segundo volume. Ao primeiro volume reservam-se todos os elogios para o trabalho, pois ele se resume ao seu próprio subtítulo: meticulosa pesquisa biobibliográfica e é desenvolvido de maneira inteligente. Já o segundo e terceiro – pesquisa biobibliográfica e ensaios de interpretação – tomam rumos muito discutíveis. O primeiro é a estrada; os outros dois são o atalho. 

Já na introdução do segundo volume, os autores assumem certa posição que, à primeira vista, não teria maiores consequências se não se descobrissem mais tarde as suas intenções. É com relação à condição humana do codificador do Espiritismo. Posição, aliás, que é a de todos os espíritas estudiosos, mas que na obra "Allan Kardec" aparece com destino diferente: "Operando (…) no campo vasto da Codificação do Espiritismo, Allan Kardec sofria as compreensíveis limitações que a condição humana, segundo leis invioláveis, impõem àqueles que vestem a indumentária carnal". E mais: "Com serenidade reconhecemos que no Movimento Espírita hodierno, no País e além-fronteiras, não faltam os afeitos a afirmar que a obra kardequiana está ultrapassada, tanto quanto sobram os não menos temerários que pretendem conferir à figura do Codificador o dom da infalibilidade, nas questões em geral – não apenas nas que se vinculam à Fé, propriamente dita – levando os adeptos ao absurdo de admitir na pessoa de Allan Kardec uma dupla condição falsa de criatura imune ao erro e às imperfeições dos seres terrenos, relativos, condição que ele por várias vezes verberou, francamente, quando na vida física". 

Há dois pontos, aí, a serem destacados: primeiro, a afirmativa de que Kardec "sofria as compreensíveis limitações" do corpo físico. Numa palavra: poderia cometer erros. Sem dúvida, uma possibilidade real. Segundo, a informação de que há adeptos que, a despeito de tudo, consideram que Kardec fora infalível. Mas seria somente esta a intenção dos autores? Não é de se crer, porque mais adiante eles afirmam: "Foi a Roustaing, pois, que o Alto conferiu, na Equipe da Codificação, a organização do trabalho da fé". E o fazem sabedores de que Kardec condenou Roustaing e a sua obra: primeiro, demonstrando que o corpo fluídico de Jesus era a base em que assentava a obra "Os Quatro Evangelhos"; depois, afirmando que Jesus jamais tivera um corpo fluídico. 

É preciso observar que o codificador não considerou Roustaing como membro da "equipe da codificação". Sendo ele chefe no plano dos encarnados dessa equipe, precisaria estar muito enganado para não o reconhecer como colaborador. Não só não o considerou como condenou a sua obra! Surge, pois um impasse: ao mesmo tempo em que Kardec fecha as portas a Roustaing e, os seus biógrafos o consideram como membro da equipe da codificação. Um impasse que não apresenta outra saída senão a de que, no pensamento dos biógrafos, Kardec cometera um erro (que teria de ser considerado, pois, de imensas proporções) com relação a Roustaing e à sua obra. E, convenhamos, para convencer o leitor disto nada melhor do que dar ênfase à falibilidade humana de Kardec… 

Existe ainda, em favor desta tese, o facto de que, muito raramente, a falibilidade de Kardec aparece nas discussões. A sua posição (que ele mesmo assumiu) perante a Doutrina Espírita é tão nítida que até os adeptos iniciantes ou pouco estudiosos vêem eliminada qualquer dúvida relativa à condição humana (portanto, falível) dele. Em qualquer das obras da codificação essa posição aparece com realce (chega a ser com ênfase até), de tal modo que o estudante mais desinteressado não se pode furtar ao conhecimento do facto. Veja-se, por exemplo, este trecho recolhido de "O Livro dos Espíritos", introdução: "Pode-se ter muito espírito e até mesmo muita instrução e, não se ter bom senso; ora, o primeiro indício de falta de senso é a crença na própria infabilidade". Kardec assim fala referindo-se aos cépticos e quem diz dos outros (por consequência) diz de si mesmo. Ele separava a sua participação pessoal, pois, da dos Espíritos, sabedor de que esta participação deveria limitar-se a certos princípios. E dava maior destaque à opinião dos Espíritos quando estes concordavam entre si: "Apesar da parte que cabe à actividade humana na elaboração desta doutrina – diz em "A Génese" – a sua iniciativa pertence aos Espíritos... " Não é possível, portanto, confundir Kardec com alguém que pretendesse ser infalível, daí a raridade com que o assunto surge à discussão. 

Assim, não se compreende bem a finalidade com que os autores trazem a questão à baila com tanto ênfase, senão que isso favoreça interesses ali ainda não revelados. 

Veja-se, também, esta outra discussão em torno da liberdade de pensamento: "A liberdade de pensamento que o Espiritismo sempre reclamou para os seus adeptos… Kardec a entendia dentro do critério da reciprocidade. E, coisa estranha, às vezes se encontram espíritas que fazem restrições aos próprios companheiros de trabalho, enfatizam o seu direito à liberdade de pensar, sobre determinados pontos doutrinários, de forma diferente de outrem, mas não admitem, em contrapartida, o direito de outrem defender ideias diversas das deles, sobre os mesmos pontos". 

Assim como a questão da falibilidade se canaliza para um possível erro do codificador em relação a Roustaing, esse ponto da liberdade de pensamento leva aos opositores de Roustaing, uma vez que eles têm investido de forma segura contra os roustainguistas e as instituições que o divulgam, das quais se destaca a FEB. Apenas isto justificaria também o ênfase aí utilizado. Se assim for (e parece que é), a questão deveria ser analisada sob um outro ângulo, também: a quem atingem e de que forma o fazem os anti-roustainguistas e, se é verdade que eles não admitem "o direito de outrem defender ideias diversas das deles". Antes, porém, que estas respostas sejam dadas faz-se necessário arguir dos motivos reais que estimulam os anti-roustainguistas a porfiarem pela causa. 

Uma coisa muito clara é esta: a discussão em torno da velha tese do corpo fluídico de Jesus nos meios espíritas só teve início depois do lançamento de "Os Quatro Evangelhos", de Roustaing. E mesmo assim porque a obra apareceu como elemento integrante da Doutrina Espírita. Em vista disso, a primeira providência de Kardec foi colocar a questão de molho. Depois, condenou o Cristo agénere. Logo, a obra de Roustaing ficou sem base e perdeu a razão de ser. Esta é uma das principais causas que motivam os espíritas a discordarem dos seguidores de Roustaing. Mas não é a única. Outra causa está no facto de que "Os Quatro Evangelhos" foi levado a exame crítico e não resistiu. Uma coisa, pois, se alia à outra: a condenação de Kardec e a constatação de que a condenação era fundamentada. Isto significa que Roustaing não faz parte da codificação. 

A questão, porém, não pára aí. É curioso verificar que depois de praticamente desaparecido na França e outros países europeus, o roustainguismo apareceu no Brasil e tomou impulso. Muitos roustainguistas vêem neste facto algo semelhante com o Espiritismo, que aqui também tomou grande impulso. Há, porém, diferenças entre um e o outro. Por exemplo, quando o Espiritismo veio para o Brasil estava ainda bastante forte na França. Aqui teve continuidade no seu desenvolvimento e só mais tarde, já no presente século, foi que o Espiritismo perdeu terreno naquele país. Mas o roustainguismo não; quando chegou ao Brasil tinha sido já condenado e relegado ao esquecimento na França e em toda Europa por homens como Léon DenisGabriel DelanneCamile FlammarionErnesto Bozzano, sem citar Kardec, evidentemente. Flammarion, por exemplo, dissera (i) : "Se Kardec é no espaço um astro de infinito esplendor, que eu acompanho como satélite, ainda e sempre, onde resplende o autor da "Revelação das Revelações"? Bozzano: "O caso de J.-B. Roustaing, sob o título absoluto de "A Revelação das Revelações" é, portanto, um facto "dogmático" feliz e universalmente liquidado''. Já Denis afirmara: "Quanto às obras de Roustaing devo dizer-vos que elas não gozam de nenhum crédito no nosso país. Nelas a imaginação teve um papel bem mais preponderante que a mediunidade. Ninguém já pensa nelas, entre nós, há muito tempo". (ii) 

Para Herculano Pires (iii), "o roustainguismo chegou ao Brasil num momento crítico, quando a nossa cultura estava sendo abalada por várias infiltrações europeias. Entre elas, o Espiritismo, que chegara da França e empolgara alguns espíritos cultos na segunda metade do século passado. O roustainguismo se apresentava como integrado no Espiritismo e tocava de perto a sensibilidade mística de alguns ex-católicos. A França era então o centro da civilização e Paris o cérebro do mundo''. O roustainguismo foi adoptado por algumas instituições e, mais tarde, pela FEB, que o divulga até aos nossos dias. Esse facto, ou seja, uma instituição que adquiriu respeito e se arroga do título de "Casa Mater do Espiritismo no Brasil", fez e faz com que os espíritas se lancem contra ela, de várias partes, porque entendem que ela está contra Kardec, contrariando até a sua posição, para dar cobertura a uma doutrina que fere a própria razão. O que os espíritas não entendem é como pode a FEB agir de tal modo. "O prestígio da FEB – é ainda Herculano quem diz – e a sua insistência na divulgação e sustentação do roustainguismo dá certo vigor a este, particularmente no centro e no norte do país". Então, perguntam os espíritas: se Kardec condenou Roustaing, sob que argumento a FEB o defende? E continuam sem entender nada porque é que a FEB não abre mão do seu direito de divulgar Roustaing… 

Na sua gritaria, não nos parece que os espíritas contrariam o direito de livre pensar dos roustainguistas. Aliás, estes pensam livremente desde a elaboração e publicação de "Os Quatro Evangelhos". A coisa toda se prende mais ou menos a isto: Roustaing é, como disse Herculano Pires, "o cavalo de Tróia do Espiritismo"; é um cancro no movimento e dói, dói muito ver a principal instituição espírita do país defendendo uma tese que o Codificador condenou e a condenam grande e expressiva parcela do movimento espírita. Esta é, ademais, uma defesa anti-democrática, autoritária, promovida por uma Casa que reúne as opiniões do movimento espírita nacional mas não lhe dá ouvidos senão naquilo que lhe convém! 

/… 
(i) Conf. o livro "Simulador, o Cristo?", de Mariano Rango d'Atagona, 1.ª edião, 1942, reportando-se a uma comunicação mediúnica recebida do Espírito que, quando encarnado, se opusera a Roustaing. 
(ii) Citadas, respectivamente, em "Simulador, o Cristo?", de d'Aragona, e "Máscaras Abaixo!", de Ricardo Machado. 
(iii) "O Verbo e a Carne", 1.ª edição, 1972, página 56. 


Wilson GarciaO Corpo Fluídico, Capítulo Terceiro – ROUSTAING E OS SEUS ADMIRADORES, ABRINDO CAMINHO, 8º fragmento desta obra. 
(imagem de contextualização: Pintura de Josefina Robirosa)

domingo, 18 de abril de 2021

Inquietações Primaveris ~


A Heróica Pancada ~ 

Preparar para a vida é educar para a morte. Porque a vida é uma espera constante da morte. Todos sabemos que temos de morrer e que a morte pode sobrevir a qualquer instante. Essa certeza absoluta e irrevogável não pode ser colocada à margem da vida. Quem se atreve a dizer: “A morte não importa, o que importa é a vida”, não sabe o que diz, fala com insensatez. Mas também os que só pensam na morte e se descuidam da vida são insensatos. A nossa morte é o nosso resgate da matéria. Não somos materiais, mas espirituais. Estamos na matéria porque ela é o campo em que fomos plantados, como sementes devem germinar, crescer, florir e frutificar. Quando cumprirmos toda a tarefa, tenhamos a idade que tivermos, a morte vem nos buscar para nos reintegrar na condição espiritual. Basta esse facto, que é incontestável, para nos mostrar que a nossa vida depende da nossa morte. Cada pensamento, cada emoção, cada gesto e cada passo na vida nos aproximam da morte. E como não sabemos qual é a extensão de tempo que nos foi marcado ou concedido para nos prepararmos para a morte, convém que iniciemos o quanto antes a nossa preparação, através de uma educação segundo o conceito de existência. Quanto antes nos prepararmos para a vida em termos de educação para a morte, mais fácil e benigna se tornará a nossa morte, a menos que pesem sobre ela compromissos agravantes de um passado criminoso. 

A preparação para a vida começa na infância e os pais são responsáveis por ela. A criança é o ser que se projectou na existência, disparado como um projéctil que deve trespassá-la do princípio ao fim, furando a barreira da morte para atingir a transcendência. Vem ao mundo com a sua maleta invisível, carregada das suas aquisições anteriores em vidas sucessivas. Muitas vezes a maleta é tão pesada que os pais quase não suportam carregá-la e temem abri-la. Mas há sempre ajudantes invisíveis que tornam a tarefa mais fácil do que parece à primeira impressão. Seja como for, o hóspede chegou para ficar, pois pertence à família e é geralmente no seio dela que tem os maiores compromissos, sempre recíprocos e inadiáveis, intransferíveis. Na sua bagagem, incorporada ao seu organismo físico e psíquico, pode haver membros incompletos, estragados, desgastados, não se sabe onde nem quando, psiquismo descontrolado, mente destrambelhada e muitas coisas mais que a convivência irá revelando. A carga mais pesada é quase sempre o ódio, aversão ou antipatia a elementos da família, que se tornam às vezes intoleráveis. Cabe à família lutar para corrigir todos esses desarranjos, sem nunca desamparar "o orfãozinho" que, como ensinou Allan Kardec, vem ao mundo vestido com a roupagem da inocência

A criança revela toda a sua bagagem enquanto não atingir a fase de amadurecimento necessário para se comunicar com facilidade. No período de amadurecimento exerce as suas funções básicas de adaptação, de integração na vida e no meio, que propiciam aos familiares, particularmente aos pais ou aos que os substituem, a introjecção de estímulos renovadores no seu inconsciente, por meio de atitudes e exemplos. O instinto de imitação da criança favorece e facilita o trabalho dos pais e dos familiares e, eles muito poderão fazer em seu benefício, desde que mantenham no lar um ambiente de amor e compreensão. A criança é a árvore – dizia Tagore –, alimenta-se do meio em que se desenvolve, absorvendo os seus elementos e produzindo a fotossíntese espiritual que beneficiará a todos os que a cercam de cuidados e atenção. O exemplo é, assim, o meio mais eficiente de renová-la, desligando a sua mente do passado, para que ela inicie uma vida nova. A hereditariedade genética funciona paralelamente à lei de afinidade espiritual. Disso resulta a confusão dos materialistas, que atribuem todos os factores da herança exclusivamente ao gene, acrescido das influências ambientais e educacionais. O caso de gémeos idênticos, que levou o Prof. Ian Stevenson à pesquisa da reencarnação, deviam ser suficientes para mostrar que a pangenética materialista é muitas vezes uma vítima do preconceito e da precipitação, levando os cientistas à confusão de corpo e espírito, contra a qual Descartes já os advertiu no início da era científica. 

Embora a influência genética seja dominante na formação das características de famílias e das raças ou sub-raças, a verdade é que o problema das padronizações orgânicas, embora genialmente intuído por Claude Bernard, nos primórdios da Medicina Moderna, só agora está a ser revelado nos seus aspectos surpreendentes pelas pesquisas científicas nesse campo específico. As experiências com transplantes de membros em embriões de ratos mostraram que uma perna traseira do embrião, transplantada para o lugar de um braço, desenvolve-se, sob a influência do centro padronizador local, como braço. A formação total do organismo é dirigida pelo corpo bioplásmico, provado e pesquisado pelos cientistas soviéticos da Universidade de Kirov, mas os centros energéticos desse corpo distribuem-se em sub-centros locais que operam no processo genésico de acordo com as funções específicas dos órgãos. Por outro lado, as pesquisas parapsicológicas revelaram a poderosa influência da mente – já há muito aceite pelo povo e suspeita por diversos especialistas – na formação e desenvolvimento dos organismos humanos. 

A misteriosa emanação de ectoplasma do corpo dos médiuns, nas experiências metapsíquicas de Richet e outros e, a sua posterior retracção, na reabsorção pelo corpo, provada experimentalmente nas pesquisas de Von Notzing e da Madame Bisson, na Alemanha, confirmaram a existência do modelo energético do corpo suspeitado por Claude Bernard. Nas pesquisas recentes de Kirov e de outras universidades americanas e europeias ficou demonstrado que o ectoplasma se constitui das energias do plasma físico de que, por sua vez, é formado o referido corpo. Essas e outras pesquisas e experiências universitárias oferecem base científica à intuição de Ubaldi, que viu nos fenómenos de materialização de espíritos em sessões experimentais mediúnicas o desenvolvimento de uma nova genética humana para o futuro, na qual as mulheres serão libertas do pesado encargo da gestação e do parto da herança animal. Gustave Geley e Eugène Osty, continuadores de Richet nas pesquisas metapsíquicas, verificaram que a ocorrência de emanações bioplásmicas dos médiuns é mais constante do que se supunha no século passado, verificando-se em reuniões comuns de manifestações espíritas. O mistério das formações de agéneres, que Kardec chamou de aparições tangíveis, em que pessoas mortas se apresentam a amigos e parentes como ainda vivas no corpo, capazes de todos os actos de uma pessoa comum, desfazem o mistério do ectoplasma de Richet e derrubam o dogma da ressurreição carnal de Jesus, dando razão ao Apóstolo Paulo, que ensina na I Epístola aos Coríntios: “O corpo espiritual é o corpo da ressurreição.” É significativo que tenha cabido aos cientistas soviéticos, na Universidade de Kirov, provar através de pesquisas tecnológicas a realidade dessas ocorrências. A reacção ideológica do poder soviético não pode cientificamente anular os resultados dessas pesquisas nem escamotear a qualificação científica dos pesquisadores. 

Diante desses dados, uma pessoa normal compreende que o problema da sobrevivência do homem após a morte e o da sua volta à existência através da reencarnação não são resquícios de um passado supersticioso ou de religiosismo ilógico, portanto fanático, mas são, pelo contrário, problemas científicos do nosso tempo. Não se trata de crer nisto ou naquilo, de se pertencer a esta ou àquela religião, mas de se equacionar a questão espiritual em termos racionais para se poder chegar a uma conclusão verdadeira. Já não vivemos no tempo das religiões de tradição e nem mesmo podemos aceitar, actualmente, o misticismo irracional, ignorante, alienante e piegas salvacionista. Essas religiões que nos prometem a salvação em termos de dependência aos seus princípios contraditórios e absurdos, só subsistem neste século graças à ignorância da maioria, das massas incultas e do prestígio social, político e económico que conseguiram num passado bárbaro da Terra. Por isso mesmo elas agora se esfarinham aos nossos olhos em milhares de seitas ingénuas pastoradas por criaturas audaciosas e broncas. Uma pessoa medianamente instruída não pode aceitar as verdades absurdas, por mais piedosas que sejam, dessas religiões de salvação. Mas a verdade demonstrada pelas investigações da Ciência, no plano mundial, nos maiores centros universitários da Terra, torna-se indispensável à nossa orientação na vida, em busca de uma transcendência racional, que não ressalta de velhas escrituras sagradas das civilizações agrárias e pastoris, mas da evidência das conquistas do conhecimento na actualidade. 

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Herculano Pires, José – Educação para a Morte, A Heróica Pancada (1 de 2), 10º fragmento desta obra 
(imagem de contextualização: O caranguejo, pintura de William-Adolphe Bouguereau)

sexta-feira, 2 de abril de 2021

o céu estrelado ~


Alma humana… 

Um livro grandioso, dissemos, está aberto aos nossos olhos e, todo o observador paciente pode ler nele a palavra do enigma, o segredo da vida eterna. 

Aí se vê que uma Vontade dispôs a ordem majestosa em que se agitam todos os destinos, se movem todas as existências, palpitam todos os corações. 

A Alma! Aprende primeiro a suprema lição que desce dos espaços sobre as frontes apreensivas. O Sol está escondido no horizonte; os seus alvores de púrpura tingem ainda o céu; a luz serena indica que, mais além, um astro se encobriu aos nossos olhos. A noite estende acima das nossas cabeças o seu zimbório constelado de estrelas. 

O nosso pensamento se recolhe e procura o segredo das coisas. Voltemo-nos para o Oriente. A Via-Láctea expande qual imensa fita, as suas miríades de estrelas, tão aconchegadas, tão longínquas, que parecem formar uma contínua massa. Por toda a parte, à medida que a noite se torna mais densa, outras estrelas aparecem, outros planetas se acendem, qual se fossem lâmpadas suspensas no santuário divino. Através das profundezas insondáveis, esses mundos permutam os seus raios de prata; impressionam-nos, à distância e, nos falam uma linguagem muda.

Eles não brilham todos com o mesmo fulgor: a potente Sírius não se pode comparar à longínqua Capela. As suas vibrações gastaram séculos a chegar até ao nosso olhar e, cada um dos seus raios vale por um cântico, uma verdadeira melodia de luz, uma voz penetrante. Esses cânticos se resumem assim: “Nós também somos focos de vida, de sofrimento, de evolução. Almas, aos milhares, cumprem, em nós, destinos semelhantes aos vossos.” 

Entretanto, não têm todos a mesma linguagem, porque uns são moradas de paz e de felicidade e, os outros, mundos de luta, de expiação, de reparação pela dor. Uns parecem dizer: Eu te conheci, Alma humana, Alma terrestre; eu te conheci e hei de te tornar a ver! Eu te aconcheguei no meu colo outrora e, tu voltarás a mim. Eu te espero, para, por tua vez, guiares os seres que se agitam na minha superfície! 

E depois, mais longe ainda, essa estrela que parece perdida no fundo dos abismos do céu e cuja luz trémula é apenas perceptível, essa estrela nos dirá: Eu sei que tu passarás pelas terras que formam o meu cortejo e, que eu inundo com os meus raios; eu sei que tu aí sofrerás e te tornarás melhor. Apressa a tua ascensão. Eu serei e sou já para contigo uma verdadeira amiga, porque até mim chegou o teu apelo, a tua interrogação, a tua prece a Deus. 

Assim, todas as estrelas nos cantam o seu poema de vida e amor, todas nos fazem ouvir uma evocação poderosa do passado ou do futuro. Elas são as “moradas” do nosso Pai, os estádios, os marcos soberbos das estrelas do Infinito e, nós aí passaremos, aí viveremos todos para entrar um dia na luz eterna e divina. 

Espaços e mundos! Que maravilhas nos reservais? Imensidades siderais, profundezas sem limites, dais a impressão da majestade divina. Em vós, por toda a parte e sempre, está a harmonia, o esplendor, a beleza! Diante de vós, todos os orgulhos caem, todas as vanglórias se desvanecem. Aqui, percorrendo as suas órbitas imensas, estão astros de fogo perto dos quais o nosso Sol não é mais que um simples facho. Cada um deles arrasta no seu séquito um imponente cortejo de esferas que são outros tantos teatros da evolução. Ali e, assim na Terra, os seres sensíveis vivem, amam, choram. As suas provações e as suas lutas comuns criam entre si laços de afecto que crescerão pouco a pouco. E é assim que as Almas começam a sentir os primeiros eflúvios desse amor que Deus quer dar a conhecer a todos. Mais longe, no insondável abismo, movem-se mundos maravilhosos, habitados por Almas puras, que conheceram o sofrimento, o sacrifício e, chegaram aos cimos da perfeição; Almas que contemplam Deus na sua glória e, vão, sem nunca se cansar, de astro em astro, de sistema em sistema, levar os apelos divinos. 

Todas essas estrelas parecem sorrir, qual se fossem amigas esquecidas. Os seus mistérios nos atraem. Sentimos que é a herança que Deus nos reserva. Mais tarde, nos séculos futuros, conheceremos essas maravilhas que o nosso pensamento apenas toca. Percorreremos esse Infinito que a palavra não pode descrever numa linguagem limitada. 

Há, sem dúvida, nessa ascensão, degraus que não podemos contar tão numerosos são; mas os nossos guias nos ajudarão a subi-los, ensinando-nos a soletrar as letras de ouro e de fogo, a divina linguagem da luz e do amor. Então o tempo já não terá medida para nós. As distâncias já não existirão. Já não pensaremos nos caminhos obscuros, tortuosos, escarpados, que seguimos no passado e, aspiraremos às alegrias serenas dos seres que nos tiverem precedido e que traçam, por meio de jorros de luz, o nosso caminho sem fim. Os mundos em que houvermos vivido terão passado; já não serão mais que poeira e detritos; mas nós guardaremos a deliciosa impressão das venturas colhidas nas suas superfícies, das efusões do coração que começaram a unir-nos a outras almas irmãs. Conservaremos a muito cara e dolorosa lembrança dos males partilhados e, já não seremos mais separados daqueles que tivermos amado, porque os laços são entre as Almas os mesmos que entre as estrelas. Através dos séculos e dos lugares celestes, subiremos juntos para Deus, o grande foco de amor que atrai todas as criaturas! 

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LÉON DENIS, O Grande Enigma, Segunda parte, O Livro da Natureza (1º fragmento) X – O céu estrelado. 
(imagem de contextualização: Head of Divine Vengeance, pintura de Pierre-Paul Prud' hon

segunda-feira, 22 de março de 2021

Deus na Natureza ~


A Força e a Matéria ~ 
I Posição do Problema ~ 
(VI de VI) 

A exposição precedente já deixou adivinhar, sem dúvida, a táctica do ateísmo contemporâneo. 

Ele não é fruto directo do estudo científico, mas procura insinuar-se com essa aparência. É evidente a ilusão, nesses filósofos, pois sabemos que há entre eles uns tantos conceitos verdadeiros. É, à força de quererem conjugar à Ciência as suas teorias, que acabaram por embutir no cérebro essa união clandestina. Essas teorias não podem invocar a seu favor qualquer das grandes provas científicas da nossa época e, não obstante, dão-se como resultantes de todo o moderno trabalho científico. 

Isso repetem e, é com essa hermenêutica que abusam dos ignorantes e da juventude desprecavida e entusiasta, tendendo a lhes fazer crer que as ciências, à força de progredirem, acabaram por descobrir e demonstrar que não há Deus nem alma. São eles que fazem a Ciência. 

Dir-se-ia, depois de os ouvir, não haver nada para além deles. Os grandes homens da antiguidade e da Idade Média, tanto como os modernos, são fantasmas e, toda a Filosofia deve desaparecer diante do ateísmo pretensamente científico. 

Torna-se necessário que a imaginação popular não se deixe iludir por simples jogo de palavras, que valem mais, às vezes, por verdadeira comédia. Importa que as criaturas pensem por si mesmas, julguem com conhecimento de causa e adquiram a certeza de que os factos científicos, perquiridos sem prevenção, não comportam as conclusões dogmáticas que lhes querem impor. 

Vista de perto, a pedra angular a grande custo lançada pelo materialismo contemporâneo, deixa entrever, não passar de velho e carcomido tronco de madeira podre que no fundo, os partidários do sistema já não estão seguros do seu cepticismo do que o estariam os calvos discípulos de Heráclito ou de Epicuro

Ainda que queiram convencer-nos do contrário, todo o seu sistema não passa de hipótese, mais vazia e menos fundamentada que muitos romances científicos. 

E uma vez que são eles próprios a declarar que toda a hipótese deve ser banida da Ciência, não há como deixarmos de começar por esse banimento. 

Realmente, com que direito fazem da força atributo da matéria? 

Com que direito afirmam que a força está submetida à matéria, que lhe obedece passivamente aos caprichos, escrava absoluta de elementos inertes, mortos, indiferentes, cegos? Maior e mais fundado é o nosso direito de inverter-lhes a proposição, derrubando-lhes o edifício pela base. 

Terminemos assim esta exposição do problema, decidindo que o discrime se coloca nestes termos fundamentais: é a matéria que domina a força, ou antes esta que domina aquela? 

Trata-se de discutir e escolher uma ou a outra, ou, para falar com mais exactidão – trata-se de observar a Natureza e optar depois. 

E, uma vez que os honrados campeões da matéria afirmam, com tanta segurança, o primeiro enunciado, começamos por revoga-lo em dúvida e propondo a alegação contrária. 

No rosto desta obra inscrevemos, por conseguinte, esta pergunta: 

A força rege ou é regida pela matéria? É este o dilema que os factos por si mesmos devem resolver. 

O panorama geral do Universo vai oferecer-nos uma primeira demonstração de soberania da força e da ilusão dos materialistas. 

Da matéria, nos elevamos às forças que a dirigem; destas, às leis que as governam e, destas, ainda, ao seu misterioso autor. 

A harmonia repleta o mundo dos seus acordes e os ouvidos de alguns ínfimos seres humanos se recusam a escutá-los. A mecânica celeste lança, ousadamente, no espaço, o arco das órbitas e o olho de um parasita desses orbes desdenha a grandeza da sua arquitectura. 

A luz, o calor, a electricidade, pontos invisíveis projectados de uma a outra esfera, fazem circular nos espaços infinitos o movimento, a actividade, a vida, a radiação do esplendor e da beleza e, as imbeles criaturas, apenas desabrochadas à superfície de um parasita desses orbes desdenha a grandeza a confessar a fulgurância celeste! É loucura ou é tolice? É orgulho, ou ignorância? Qual a origem e a finalidade de tão estranha aberração? Porque a força vital, álacre e fecunda, palpita no Sol como na borboleta que morre com a manhã; no carvalho anoso das florestas como na primaveril violeta? – porque a vida magnificante doura as messes de Julho e os cabelos encaracolados da juventude petulante e freme no seio virginal das noivas? – porque negar a beleza, mascarar a verdade e desprezar a inteligência? Porque envenenar as virtudes eternas que sustentam a estrutura do mundo e eclipsar, tristemente, a luz imaculada que desce dos céus? 

Antes de penetrar os mistérios do reino tão rico e interessante da vida, devemos considerar o esboço material do Universo, começando por demonstrar a soberania da força no desenhar desse mesmo esboço. Dividiremos esta primeira em duas partes: o Céu e a Terra, para estabelecer em primeiro lugar, por leis astronómicas e depois pelas terrestres, que, onde quer que exista a matéria, esta nunca deixou de ser escrava servil, universalmente dominada pela energia que a rege. Esta divisão não deve sugerir, de modo algum, a velha comparação do céu com a Terra, que bem sabemos serem termos incomparáveis. Considerado como valor absoluto, o céu é tudo e a Terra não é nada. A Terra é um átomo imperceptível, perdido no seio do infinito; o céu a envolve no ilimitado e a integra na população astral, sem excepção nem privilégio particular. 

Reunir os dois vocábulos, é como dizer: que os Alpes são uma pedrinha e, o Oceano uma gota d’água e o Saará um grão de areia. É comparar o todo a um mínimo do mesmo todo. 

Importa, portanto, não interpretar literalmente a nossa divisão, que só se justifica por dar maior clareza ao assunto. Para nós, terráqueos, este globo é alguma coisa, assim como para a minúscula lagarta, que aflora numa folha, esta folha algo vale, mau grado à sua insignificância no conjunto da pradaria. 

A nossa esfera de observação divide-se também, naturalmente, em duas partes: o que pertence e o que não pertence ao nosso mundo. 

Ora, vamos estabelecer que, fora do nosso mundo, assim como nele, a matéria está em tudo e por toda a parte e não passa de coisa inerte, cega, morta, composta de elementos incapazes de se dirigirem por si sós; que não agem nem pensam por impulsos próprios e que, nas sendas invisíveis do espaço, tanto como nos canais da seiva ou do sangue, o que aglutina em átomos, dirige as moléculas e conduz os mundos, é uma Força na qual transparece o plano, a vontade, a inteligência, a sabedoria e o poder do seu amor. 

/… 

(Referências: – Papel da Ciência na sociedade moderna. – Sua potência e grandeza. – Seus limites e tendências a ultrapassá-los. – As ciências não podem dar nenhuma definição de Deus. – Processo geral do ateísmo contemporâneo. – Objecções à existência divina, inferidas da imutabilidade das leis e da íntima união entre a força e a matéria. – Ilusão dos que afirmam ou negam. – Erros de raciocínio. – A questão geral resume-se em estabelecer as relações recíprocas da força e da substância.) 


Camille Flammarion, Deus na Natureza – Primeira Parte, A Força e a Matéria / I - Posição do Problema (VI de VI), 10º fragmento desta obra. 
(imagem de contextualização: Jungle Tales (Contos da Selva)_1895, pintura de James Jebusa Shannon

domingo, 7 de março de 2021

Diálogos de Kardec ~


CARÁCTER E CONSEQUÊNCIAS RELIGIOSAS DAS MANIFESTAÇÕES DOS ESPÍRITOS ~ 

1. As almas ou Espíritos dos que aqui viveram constituem o mundo invisível que povoa o espaço e no meio do qual vivemos. Daí resulta que, desde que há homens, há Espíritos e que, se estes últimos têm o poder de se manifestar, devem tê-lo tido em todas as épocas. É o que comprovam a história e as religiões de todos os povos. Entretanto, nestes últimos tempos, as manifestações dos Espíritos assumiram grande desenvolvimento e tomaram um carácter mais acentuado de autenticidade, porque estava nos desígnios da Providência pôr termo à praga da incredulidade e do materialismo, por meio de provas evidentes, permitindo que os que deixaram a Terra viessem atestar a sua existência e revelar-nos a situação ditosa ou infeliz em que se encontravam. 

2. Vivendo o mundo visível no meio do mundo invisível, com o qual se encontra em contacto perpétuo, segue-se que eles reagem incessantemente uns sobre os outros, reacção que constitui a origem de uma imensidade de fenómenos, que foram considerados sobrenaturais, por não se lhes conhecer a causa. 

A acção do mundo invisível sobre o mundo visível e reciprocamente é uma das leis, uma das forças da Natureza, tão necessária à harmonia universal, quanto a lei de atracção. Se ela cessasse, a harmonia estaria perturbada, conforme sucede num maquinismo, donde se suprima uma peça. Derivando de uma lei da natureza, semelhante acção, nada têm, evidentemente, de sobrenaturais os fenómenos que ela opera. Pareciam tais, porque desconhecida era a causa que os produzia. O mesmo se deu com alguns efeitos da electricidade, da luz, etc. 

3. Todas as religiões têm por base a existência de Deus e por fim o futuro do homem depois da morte. Esse futuro, que é de interesse capital para a criatura, se encontra necessariamente ligado à existência do mundo invisível, pelo que o conhecimento desse mundo há constituído, desde todos os tempos, objecto das suas pesquisas e preocupações. A atenção do homem foi naturalmente atraída pelos fenómenos que tendem a provar a existência daquele mundo e nenhum houve jamais tão concludente, como os das manifestações dos Espíritos por meio das quais os próprios habitantes de tal mundo revelaram as suas existências. Por isso foi que estes fenómenos se tornaram básicos para a maior parte dos dogmas de todas as religiões. 

4. Tendo instintivamente a intuição de uma potência superior, o homem foi sempre levado, em todos os tempos, a atribuir à acção directa dessa potência os fenómenos cuja causa lhe era desconhecida e que passavam, a seus olhos, por prodígios e efeitos sobrenaturais. Os incrédulos consideram esta tendência uma consequência da predilecção que tem o homem pelo maravilhoso; não procuram, porém, a origem deste amor do maravilhoso. Ela, no entanto, reside muito simplesmente na intuição mal definida de uma ordem de coisas extracorpóreas. Com o progresso da Ciência e o conhecimento das leis da Natureza, estes fenómenos passaram pouco a pouco do domínio do maravilhoso para o dos efeitos naturais, de sorte que o que outrora parecia sobrenatural já não o é hoje e o que ainda o é hoje já não o será amanhã. 

Os fenómenos decorrentes da manifestação dos Espíritos forneceram, pela sua natureza, larga contribuição aos factos reputados maravilhosos. Tempo, contudo, viria em que, conhecida a lei que os rege, eles entrariam, como os outros, na ordem dos factos naturais. Esse tempo chegou e o Espiritismo, dando a conhecer essa lei, apresentou a chave para a interpretação da maior parte das passagens incompreendidas das Escrituras sagradas que a isso aludem e dos factos tidos por miraculosos. 

5. O carácter do facto miraculoso é ser insólito e excepcional; é uma derrogação das leis da Natureza. Desde, pois, que um fenómeno se reproduz em condições idênticas, segue-se que está submetido a uma lei e, então, já não é miraculoso. Pode essa lei ser desconhecida, mas, por isso, não é menos verdadeira a sua existência. O tempo se encarregará de revelá-la. 

O movimento do Sol, ou, melhor, da Terra, sustado por Josué, seria um verdadeiro milagre, porquanto implicaria a derrogação manifesta da lei que rege o movimento dos astros. Mas, se o facto pudesse reproduzir-se em dadas condições é, por que estaria sujeito a uma lei e deixaria, consequentemente, de ser milagre. 

6. É erróneo assustar-se a Igreja com o facto de restringir-se o círculo dos factos miraculosos, porquanto Deus prova melhor o seu poder e a sua grandeza por meio do admirável conjunto das suas leis, do que por algumas infracções dessas mesmas leis. E tanto mais erróneo é o seu medo, quanto ela atribui ao demónio o poder de operar prodígios, donde resultaria que, podendo interromper o curso das leis divinas, o demónio seria tão poderoso quanto Deus. Ousar dizer que o Espírito do mal pode suspender o curso das leis de Deus é blasfémia e sacrilégio. 

Longe de perder qualquer coisa da sua autoridade por passarem os factos qualificados de milagrosos à ordem dos factos naturais, a religião somente pode ganhar com isso; primeiramente, porque, se um facto é tido falsamente por miraculoso, há aí um erro e a religião somente pode perder, se se apoiar num erro, sobretudo se se obstinasse em considerar milagre o que não o seja; em segundo lugar, porque, não admitindo a possibilidade dos milagres, muitas pessoas negam os factos qualificados de milagrosos, negando, consequentemente, a religião que em tais factos se estriba. Se, ao contrário, a possibilidade dos mesmos factos for demonstrada como efeitos das leis naturais, já não haverá cabimento para que alguém os repila, nem repila a religião que os proclame. 

7. Nenhuma crença religiosa, por lhes ser contrária, pode infirmar os factos que a Ciência comprova de modo peremptório. Não pode a religião deixar de ganhar em autoridade acompanhando o progresso dos conhecimentos científicos, como não pode deixar de perder, se se conservar retardatária, ou a protestar contra esses mesmos conhecimentos em nome dos seus dogmas, visto que nenhum dogma poderá prevalecer contra as leis da Natureza, ou anulá-las. Um dogma que se funde na negação de uma lei da Natureza não pode exprimir a verdade. 

O Espiritismo, que se funda no conhecimento de leis até agora incompreendidas, não vem destruir os factos religiosos, porém sancioná-los, dando-lhes uma explicação racional. Vem destruir apenas as falsas consequências que deles foram deduzidas, em virtude da ignorância daquelas leis, ou de as terem interpretado erradamente. 

8. A ignorância das leis da Natureza, com o levar o homem a procurar causas fantásticas para fenómenos que ele não compreende, é a origem das ideias supersticiosas, algumas das quais são devidas aos fenómenos espíritas mal compreendidos. O conhecimento das leis que regem os fenómenos destrói essas ideias supersticiosas, encaminhando as coisas para a realidade e demonstrando, com relação a elas, o limite do possível e do impossível. 

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ALLAN KARDEC, Obras Póstumas, Primeira Parte, Manifestações dos Espíritos — CARÁCTER E CONSEQUÊNCIAS RELIGIOSAS DAS MANIFESTAÇÕES DOS ESPÍRITOS, 9º fragmento solto desta obra. 
(imagem de contextualização: Dança rebelde, 1965 – Óleo sobre tela, de Noêmia Guerra)