quarta-feira, 8 de julho de 2015

teremos que modificar o nosso conceito da morte?

Estudos Científicos das Experiências de Quase Morte

A PERCEPÇÃO AMPLIFICADA DURANTE AS EQM

A paradoxal ocorrência de uma percepção muito intensamente lúcida e os processos de pensamento lógico disponíveis durante um período de circulação cerebral danificada coloca questões de especial perplexidade à compreensão actual da consciência e das suas relações com o funcionamento do cérebro.

Um elevado nível cognitivo, quer físico quer intelectual, e a complexidade de processos perceptivos durante o período de aparente morte clínica desafiam o conceito de que a consciência esteja localizada apenas no cérebro.

Parnia e outros (2001) e Parnia e Fenwick (2002) escreveram que os dados de vários estudos de EQM’s sugerem que essas experiências ocorrem com perda da consciência, o que é uma conclusão surpreendente, porque o cérebro está em estado de disfuncionalidade dado que o doente se encontra em coma profundo, as estruturas cerebrais, que sustentam a experiência subjectiva e a memória, devem encontrar-se severamente danificadas.

Experiências complexas tais como as que são descritas nas EQM não deveriam ter lugar, nem poderiam ser retidas na memória.

É de esperar que, tais doentes, não tivessem a capacidade de registar experiências subjectivas, como era o caso da grande maioria de sobreviventes a paragens cardíacas ou, na melhor das hipóteses, a estados de confusão no caso de falha de funções cerebrais.

O facto de que nas paragens cardíacas a perda de funções corticais precede a perda rápida da actividade do tronco encefálico constitui mais um reforço deste ponto de vista. Uma explicação alternativa seria de que as experiências em apreço tivessem aparecido durante a perda ou a recuperação da consciência.

A transição do estado consciente para o estado de inconsciência é rápida e afecta o sujeito de imediato. As experiências que acontecem durante a recuperação da consciência são confusas, o que não aconteceu nos casos em estudo. De facto, a memória é um indicador muito sensível de lesão cerebral e a extensão da amnésia anterior ou posterior à perda de consciência é uma indicação exacta quanto à severidade da lesão. Portanto não seria de esperar que acontecimentos sucedidos imediatamente antes ou depois da perda de consciência fossem nitidamente recordados.

A CONSCIÊNCIA NÍTIDA DURANTE A PARALISIA CEREBRAL?

Sem o aparecimento de outras teorias sobre as EQM’s, a noção assumida até aqui mas nunca provada cientificamente, de que a consciência e as memórias são produzidas por grande número de neurónios e se encontram localizadas no cérebro, deve ser colocada em discussão.

Como é possível que a consciência nítida relativa a factos ocorridos fora do corpo possa ser experimentada no momento em que o cérebro já não se encontra em funcionamento em período de morte clínica, mesmo com registo nulo de encefalograma (Sabom, 1998)?

Além disso, mesmo os doentes cegos descreveram percepções visuais durante as experiências fora do corpo durante EQM (Ring e Cooper, 1999).

O estudo científico das EQM leva ao limite as ideias médicas e neurofisiológicas acerca do alcance da consciência humana e das relações mente-cérebro.

ALGUNS ELEMENTOS DAS EQM

Antes de discutir com maior detalhe alguns aspectos neurofisiológicos do funcionamento do cérebro durante a paragem cardíaca, gostaria de reconsiderar certos elementos da EQM.

EXPERIÊNCIA FORA-DO-CORPO E MANUTENÇÃO DA IDENTIDADE

Nesta experiência as pessoas têm percepções reais de uma posição fora e por cima do seu corpo inerte.

Os protagonistas de EQM têm a sensação de terem largado o seu corpo como um casaco velho e, surpreendidos, verificam que mantém a sua própria identidade e a possibilidade preceptiva, as emoções e uma consciência nítida.

Esta experiência fora-do-corpo é cientificamente importante porque os médicos, enfermeiras e os parentes do doente podem conferir as declarações que ele relata, corroborando o preciso momento em que a EQM ou a experiência fora-do-corpo ocorreram – durante o período de ressuscitação cardiopulmonar (RCP).

Isto provará que uma tal experiência não pode ser uma alucinação, porque não ocorre com base na “realidade”, nem pode ser uma ilusão, por esta ser um juízo incorrecto de uma percepção correcta.

Teria a EQM de ser considerada uma espécie de percepção extrassensorial?

Este é o relato de uma enfermeira de uma Unidade de Cuidados Coronários (Van Lommel e outros, 2001):

“Durante um serviço nocturno chegou à Unidade de Cuidados Intensivos Coronários uma ambulância com um doente em coma, com cianose. Tinha sido encontrado num prado, há meia hora, em coma. Quando começámos a entubar o paciente reparámos que usava dentadura. Tirei-lha, tendo-a colocado no carrinho de apoio médico. Uma hora e meia depois o doente tinha recuperado o ritmo cardíaco e a pressão sanguínea, mas continuava entubado, ventilado e em estado de coma. Foi transferido para a unidade de cuidados intensivos para prosseguir em respiração artificial. Só mais de uma semana depois me encontrei novamente com o doente, agora já na enfermaria da cardiologia. No momento em que me viu disse: “Oh, aquela enfermeira sabe onde estão os meus dentes”. Fiquei surpreendidíssima e ele explicou: “Você estava lá quando eu fui trazido para o hospital, tirou-me a dentadura da boca e pô-la no carrinho com todos aqueles frascos em cima e arrumou depois os meus dentes na gaveta abaixo”.

Fiquei especialmente admirada porque me lembro de isso ter sucedido durante a altura em que ele estava em coma profundo e a ser sujeito à ressuscitação cardiorrespiratória (RCP). Parece que o doente se viu a si próprio deitado na cama e, olhando de cima, pôde observar as enfermeiras e os médicos atarefados com o processo da RCP. Também foi capaz de descrever com exactidão e pormenor a pequena sala onde fora ressuscitado e a aparência dos que ali estavam, incluindo eu mesma. Está profundamente impressionado pela experiência pela qual passou e já não tem medo da morte.”

A REVISÃO DA VIDA A TRÊS DIMENSÕES

Durante o episódio assim designado o sujeito sente presencialmente e revive, não apenas todos os actos como também todos os pensamentos da sua vida passada, analisando a interinfluência que estes operaram relativamente a si mesmo e a terceiras pessoas. Todas as acções tidas e pensamentos havidos parecem ter significado e estão devidamente memorizados.

Porque cada um dos protagonistas de EQM está ligado às memórias, emoções e dados da consciência de terceiras pessoas, por isso toma consciência dos próprios pensamentos, palavras e acções tidos para com elas no momento exacto em que ocorreram. Daqui a existência, durante a revisão de vida, de uma ligação com os campos da consciência de outras pessoas bem como com os seus próprios campos de consciência (interligação).

Os doentes analisam toda a sua vida rapidamente; o tempo e o espaço parecem não existir durante uma tal experiência. Instantaneamente encontram-se no local onde estiverem a pensar (“não localidade” – “non-locality”), e podem falar durante horas acerca do conteúdo da revisão de vida muito embora a ressuscitação possa ter durado apenas minutos. (Van Lommel, 2004).

Toda a minha vida até ao presente se me deparou numa revisão como que panorâmica, a três dimensões, e cada evento foi acompanhado pela consciência do bem e do mal ou com uma análise de causa e efeito. Não somente me foi dado entender o meu ponto de vista, mas também o sentir de todas as outras pessoas envolvidas, como se tivesse dentro de mim todos os seus pensamentos. Isto significa que entendi não apenas o que tinha feito e pensado, mas também de que modo tinha influenciado outros, como se me fosse dada visão em todas as direcções. Deste modo nem os vossos pensamentos são apagados. E sempre, durante toda a revisão, foi acentuada a importância do amor. Recapitulando, não sei qual foi a duração dessa revisão e da análise de vida, que pode ter sido longa dado que tudo foi mostrado, mas ao mesmo tempo parece ter durado apenas uma fracção de segundo, dado que vivenciei tudo no mesmo momento. O tempo e o espaço parece não terem existido. Tudo se passava em todos os lugares e ao mesmo tempo, e por vezes a minha atenção era chamada para qualquer coisa, e lá estava eu presente.

ENCONTROS COM PARENTES FALECIDOS; TRANSMISSÃO DE PENSAMENTO; PREVISÕES; INTERLIGAÇÃO

Se houver encontros numa dimensão de outro mundo com parentes falecidos, eles são reconhecíveis pela sua aparência, sendo a comunicação feita por transmissões de pensamento. Também pode ser experimentada uma previsão, na qual tanto futuras imagens da vida pessoal como imagens mais gerais do futuro podem ocorrer.

De novo é como se o tempo e o espaço não existissem durante a previsão. Assim, durante as EQM também é possível efectuar contactos com os campos de consciência de parentes falecidos (interligação).

Por vezes são encontradas pessoas cuja morte era impossível ter-se conhecido; Algumas vezes pessoas desconhecidas são encontradas durante a EQM.

REGRESSO AO CORPO

Alguns doentes conseguem descrever como regressaram ao seu corpo, a maior parte pelo topo da cabeça, depois de terem sido informados “que não era ainda a sua altura” ou que “tinham ainda tarefas por cumprir”. O regresso consciente ao corpo é sentido como algo muito opressivo. Recuperam os sentidos dentro do seu corpo e é como se se sentissem “aprisionados” no seu corpo danificado, significando isso toda a dor e as restrições da sua enfermidade.

TRANSFORMAÇÕES DA PERSONALIDADE CAUSADAS PELA EQM

Praticamente a totalidade das pessoas que tiveram uma EQM perderam o medo da morte. Isso deve-se à convicção de que há uma continuidade para a consciência, que retém todos os pensamentos e factos vividos, mesmo quando se é considerado morto por quem está a ver ou mesmo por médicos. Você está separado do corpo sem vida, mantendo a sua identidade e a clara consciência com dotes perceptivos. Parece mesmo que somos mais do que apenas um corpo.

Todos estes elementos da EQM foram apercebidos durante o período de paragem cardíaca, durante o período de inconsciência aparente, durante o período de morte clínica!

Como é que será possível explicar todas estas vivências durante o período de perda temporária de todas as funções do cérebro devido a isquémia pancerebral?

Sabemos que as vítimas de paragem cardíaca perdem a consciência ao fim de segundos. Como é que sabemos se o seu eletrencefalograma é plano, e como poderemos estudar tal coisa?

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Dr. Pim van LommelAs Experiências de Quase-Morte, A Consciência e o Cérebro Estudos Científicos das Experiências de Quase Morte; A Percepção Amplificada durante As EQM, A Consciência Nítida durante a Parelisia Cerebral? Alguns Elementos das EQM; Experiência Fora do-Corpo e Manutenção da Identidade, A Revisão da Vida a Três Dimensões, Encontros com Parentes Falecidos; Transmissão de Pensamento; Previsões; Interligações, Regresso ao Corpo, Transformações da Personalidade Causadas Pela EQM (3º fragmento) tradução para a língua portuguesa de palavra luz depois de autorizada pelo autor.
(imagem de contextualização: O Hospital Rijnstate, em Arnhem – Holanda)

sábado, 27 de junho de 2015

o sentido da vida ~

Cérebro | e Espírito

Não está totalmente errada a ciência moderna, ao considerar o homem sob o aspecto monista definido por Espinosa, O Espiritismo, na sua função de síntese dos conhecimentos humanos, abre largas perspectivas novas ao pensamento do século, permitindo sobretudo o esclarecimento de velhas questões e velhas rixas, que pareciam para sempre insolúveis. Assim, enquanto os defensores da biologia moderna acham intransponível o abismo que separa o dualismo de Descartes do monismo de Espinosa, o Espiritismo entende que tudo não passa de simples jogo de palavras, facilmente desfeito à luz dos seus princípios. De facto, se o biólogo afirma que o corpo e espírito são um todo único, e o teólogo responde que, pelo contrário, o espírito é independente do corpo, Espiritismo não tem dificuldades em conciliar essas aparentes contradições, lembrando que, segundo um princípio de fisiologia, cada coisa pode mostrar-nos, de um ângulo diverso, uma diversa aparência. Nem por isso, entretanto, a realidade deixa de ser uma só.

O biólogo diz que o corpo e o espírito formam uma unidade indissolúvel e que não pode entender outra coisa. Do seu ponto de vista, ele está certo. Entramos aí no terreno da relatividade e precisamos compreender que a verdade do biólogo é relativa. Ele só estudou e conhece os processos vitais de natureza orgânica. Para ele, o espírito é o cérebro ou um simples complexo de funções vitais do córtex cerebral. As crianças prodígio romperam há muito a velha teoria do paralelismo psicofisiológico, mas o biólogo encontrou uma porta de escape nas curvas surpreendentes da hereditariedade. Ele é um homem que joga com dados materiais e que está firmemente disposto a negar qualquer possibilidade de fuga à realidade, para a explicação dos problemas que tem diante dos olhos. Para ele, a independência do espírito seria a negação de todo o seu aprendizado, tão laboriosamente efectuado até agora. A sua reacção é quase orgânica, instintiva, contra a ameaça dessa nova teoria.

Para o teólogo, o problema se apresenta da mesma maneira, mas de ângulo oposto. Enquanto o biólogo olha o indivíduo humano de baixo para cima, o teólogo o vê de cima para baixo. Ele não pode dizer a mesma coisa que diz aquele, nem pode concordar com a descrição que aquele lhe faz, de um fenómeno que ele “sabe” ser de outra maneira. A conciliação entre os dois é absolutamente impossível, enquanto não se conseguir arredar o biólogo e o teólogo dos seus respectivos lugares, para juntá-los num outro, que poderíamos considerar o interior do fenómeno. Só então eles poderiam verificar, directamente, que muitos dos seus dados estavam errados, sofrendo de um desvio de visão, embora muitos outros continuassem certos.

Espiritismo realiza precisamente esse milagre. Não endossando o ponto de vista do biólogo, nem aceitando a posição do teólogo, ele se coloca em outro ângulo e consegue chegar à equação que parecia impossível. Pois, de facto, o corpo e o espírito são uma e a mesma coisa, desde o momento em que se verificou o fenómeno da encarnação, desde o instante em que eles se fundiram, para a experiência da vida terrena. Quando, porém, um novo processo se verifica – o da morte –, eles deixam de constituir a unidade transitória do indivíduo biológico, voltando cada qual à sua independência natural.

O apego dos biologistas à tese monista faz-nos lembrar o perigo de certas ilusões científicas que chegaram a durar séculos. Poderíamos citar, a propósito, a velha teoria geocêntrica ou a da invisibilidade atómica. Temos, assim, uma ilusão antiga e outra moderna. Mas comentemos um pouco mais a primeira, que serve admiravelmente aos nossos desígnios. Durante séculos, os homens de apegaram à ideia de que a Terra era o centro do Universo. Ainda hoje, são inúmeros os que defendem a tese da habitabilidade exclusiva do nosso pequeno planeta, negando a possibilidade da existência humana em outros corpos celestes. Mas o progresso dos conhecimentos levou a ciência a não mais admitir o geocentrismo, que é hoje uma teoria de museu.

No tocante ao problema do corpo e espírito, acontece coisa semelhante. Os homens continuam esposando uma teoria que poderíamos chamar, por analogia, de organocêntrica. Para eles, só há vida em organismos materiais, a possibilidade vital está centralizada nas chamadas formas vivas. Fora dessas formas, a vida é absolutamente impossível. Entretanto há factos que atestam o contrário. E não está longe o dia em que esses factos se imporão ao raciocínio científico, descentralizando-o dos chamados organismos vivos, a manifestação do fenómeno vital. As mesas giram, dizia Kardec. E as mesas aí estão, juntamente com a causa que as faz girar...

No livro A nossa vida mental, da série A ciência da vida, de H. G. WellsJulian Huxley e G. P. Wells, encontramos um interessante capítulo sobre a questão espírita. Os autores colocam-se no ponto de vista materialista e, condenando aimaginosa explicação espírita dos fenómenos, que não negam, chegam por sua vez a imaginar explicações, negativas as mais curiosas, e a fazer afirmações nitidamente anticientíficas. Uma delas é a de que as materializações dos primeiros tempos do Espiritismo eram românticas, como a focalizada num célebre quadro de Tissot, e as de hoje são informes e rígidas. A fotografia informe que o livro estampa é uma das mais belas conquistas da fotografia psíquica, pertencente ao acervo dos trabalhos de Schrenck Notzing e Madame Bisson. Mostra uma cabeça materializada em processo de elaboração, o que é altamente significativo. Isso demonstra, sobretudo, que o fenómeno pode ser observado nas suas diferentes fases. Mas os materialistas não entenderam assim e inventaram que agora só obtemos figuras hediondas e abomináveis. Foi, sem dúvida, uma conclusão apressada. Mesmo porque, a fotografia pertence aos primórdios do Espiritismo científico, não é de hoje. E todos nós, que lidamos com os fenómenos espíritas, sabemos de materializações tão “românticas” quanto as de Tissot, assistidas no presente.

Outras conclusões interessantes desse livro referem-se às comunicações psicográficas. Segundo os autores, tais comunicações são desinteressantes e fúteis. Citam mesmo o caso de Raymond, de sir Oliver Lodge, frisando a diferença existente entre as cartas de jovem soldado e as suas comunicações. Não parece evidente que a avaliação de interesse pode variar de pessoa para pessoa, e que as diferenças notadas devem corresponder à diferença de vida neste plano e no outro? Mas os autores fazem questão de manter o seu ponto de vista materialista, e para isso chegam a dizer que as descrições do outro lado, feitas pelos espíritos, variam ao infinito, sendo incompatíveis umas com as outras, a tal ponto, que reciprocamente se destroem. Ora, todos os que já estudaram o assunto sabem que as coisas se passam de maneira exactamente contrária.

As descrições de Raymond, por exemplo, coincidem com as obtidas por Ochorowicz, as anotadas por Denis Bradley, as espontaneamente dadas por numerosos espíritos ao doutor Carl A.Wikland, em Los Angeles, ao doutor Oscar Parkes, em Londres, com as descrições feitas, aos milhares, nas sessões espíritas de vários países, os relatos publicados pela Revue Spirite, de Kardec, ao registado pela Society for Psychical Research, de Londres, e por último com as comunicações recebidas no Brasil pelo médium Chico Xavier. Poderíamos esgotar várias páginas de citações. Justamente o que mais impressiona, em tais casos, é a identidade, a confirmação de aspectos de um relato por outro, em lugares, épocas e através de médiuns diversos.

Só mesmo o desejo de negar a evidência, ou de pelo menos confundi-la, pode levar os nossos homens de ciência e de letras a tais atitudes. Mas quem quiser, por cima dos informantes suspeitos, verificar o que de real se passa no terreno das informações espíritas sobre o outro lado da vida, por certo há de ver que elas coincidem tão bem como as impressões de vários viajantes sobre um mesmo país estrangeiro.

É pena que os defensores extremados do “milagre” do córtex cerebral não tenham compreendido que as suas teorias sobre a imortalidade da espécie e sobre um outro aspecto perceptivo da matéria são muito mais complicadas e altamente improváveis do que a tantas vezes comprovada imortalidade pessoal.

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José Herculano Pires, O Sentido da Vida, Cérebro e Espírito, 6º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Platão e Aristóteles, pormenor d'A escola de Atenas de Rafael Sanzio, 1509)

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Giovanna ~

IV
Maurice, nas suas caminhadas vagabundas, havia reencontrado várias vezes Luísa, a velha ama de leite. Tendo sabido conquistar a sua amizade, adquiriu a certeza de que seria bem acolhido na vila Esperança, e ali se apresentou um dia. Quem tivesse encontrado o advogado misantropo teria podido perceber, com surpresa, a emoção que ele sentia. O que planeava iria destruir ou realizar as suas esperanças? Ele foi muito bem recebido pela tia de Giovanna que, enfraquecida pela idade e pela doença, sentia chegado o momento de dar um suporte natural, um esposo, a sua sobrinha. Ela, autorizou Maurice a renovar as suas visitas, o que ele fez com frequência. Começaram então, para os jovens, as prolongadas conversas, as conversas familiares, sobre o terraço dominando o lago, durante as quais as suas almas se expandiam em mútuas confidências. Maurice contava a sua vida, a sua triste vida de criança privada de mãe, depois as decepções, os receios de sua juventude. Abria, como se o rasgasse, o seu coração a Giovanna. Ela consolava-o, confiava-lhe os seus sonhos, sonhos ainda cândidos, ainda puros como os de um anjo. E esses dois seres, aproximando-se mais e mais, aprendiam a se amar, mil laços secretos se formavam, os enlaçavam, os uniam em estreitas e poderosas malhas.

O dia em que, segundo os costumes da alta Itália, o noivado devia ser celebrado, foi logo fixado, e tudo foi preparado para esta festa íntima, na qual dois ou três velhos amigos deviam tomar parte. Na véspera desse dia, Maurice sobe ainda cedo à vila. Após a refeição da noite, os dois se dirigem para o terraço, de onde os seus olhares podiam estender-se sobre um mágico horizonte. Sentam-se em silêncio debaixo de um pomar de laranjeiras. Luísa se mantinha um pouco afastada.

A noite avança lentamente; estende sobre o lago o seu véu azulado, derramando um colorido uniforme sobre os campos de oliveiras, as vinhas, os bosques de castanheiros, as vilas e as aldeias. Enquanto que a sombra se adensava nos vales, os cumes das colinas, avermelhados pela púrpura do poente, pareciam-se bastante ao fogo de um incêndio. A noite subia aos poucos; as suas sombras arrastadas estendiam-se sobre as colinas; as luzes inumeráveis resplendiam nas janelas das vilas e das cabanas. As trevas envolviam inteiramente o lago e o seu conjunto de montanhas, mas, para Norte, as luzes do dia morrendo coloriam ainda de cores fantásticas o colosso dos Alpes. Como uma armada de gigantes dispostos em batalha, a Bernina, a Sella, o Monte-d'Oro, a Disgrazia, e vinte outros picos, apontavam para o céu os seus cimos orgulhosos, coroados de neve, sobre os quais o sol, antes de desaparecer no ocidente, lançava os seus raios fraccionados.

Em vão, a noite procurava apagá-los, eles lutavam com ela. Mas o seu véu passa enfim sobre essas frontes soberbas. As últimas luminosidades se extinguiram. A noite triunfava; só, iria reinar até à aurora.

Nesse momento, um concerto argentino se eleva nos ares. Em todas as aldeias, os sinos tilintavam. Era o Ângelus, a prece do entardecer, o sinal que evoca entre todos, os pescadores do lago, os lenhadores da floresta, os pastores da montanha, o pensamento de Deus. Giovanna e Maurice, sonhadores, recolhidos, observavam esse majestoso espectáculo; escutavam o som melancólico dos sinos, seguiam com o olhar as belas estrelas de ouro emergindo das profundezas do céu para subir lentamente, em legiões cerradas, para zénite. A poesia dessa noite preenchia as suas almas; as suas bocas estavam mudas, mas os seus corações se confundiam num enlevo profundo. Maurice rompeu o silêncio primeiro.

- Giovanna, disse ele, você pensa, às vezes, nessas esferas luminosas que se movem no espaço? Já se perguntou se são, como a nossa terra, mundos de sofrimento, habitados por seres materiais e atrasados, ou se almas mais perfeitas aí vivem no amor, na felicidade?

- Bem às vezes, respondeu ela, tenho visitado esses mundos. Protectores, amigos invisíveis, me levam quase todas as noites para essas regiões celestes. Com dificuldade tenho visto, que um grupo de espíritos, de longas vestes flutuantes, de fronte brilhante, me cercam, me chamam. Vejo a minha própria alma que, semelhante à deles, se liberta de meu corpo e os segue. Rápido como o pensamento, atravessamos os espaços imensos, povoados de uma multidão de espíritos; por toda a parte oceanos de vida desdobram as suas perspectivas sem limites. Por toda a parte retinem os cantos harmoniosos, de uma suavidade desconhecida na Terra. Percorremos esses arquipélagos estelares, essas esferas longínquas, bem diferentes de nosso globo. Em lugar de uma matéria compacta e pesada, muitos dentre eles são formados de fluidos leves, de brilhantes cores. Enquanto que os hóspedes da terra se arrastam penosamente na superfície do planeta, os habitantes desses mundos, de corpos subtis, aéreos, elevam-se facilmente, planam no espaço ambiente. Eles agem sobre esses fluidos leves e coloridos que compõem o centro de suas esferas; lhes dão mil formas, mil aspectos diversos.

Assim são os palácios admiráveis, colónias deslumbrantes, com inumeráveis pórticos, templos com abóbadas gigantescas, ornados de estátuas, de pilastras de gás, e cujas muralhas transparentes permitem entrever o seu interior. De todas as partes se erguem construções prodigiosas, abrigos da ciência e das artes, bibliotecas, museus, escolas, exposições, sempre invadidas pelas multidões. O ensinamento aí é dado sob a forma de quadros luminosos e cambiantes. A linguagem é uma espécie de música.

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Léon Denis, Giovanna_1880, IV (I de II) 5º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Retrato, pequena pintura que especialistas de arte italiana atribuem a Rafael Sanzio)

quinta-feira, 4 de junho de 2015

o grande enigma ~

Deus | e o Universo (III)

Um mal-entendido secular divide as escolas filosóficas quanto a estas questões. O materialismo via no Universo somente a substância e a força. Parecia ignorar os estados quintessenciados, as transformações infinitas da matéria. O espiritualismo vê em Deus só o princípio espiritual e não considera imaterial tudo o que não cai sob os nossos sentidos. Ambos se enganam. O mal-entendido que os separa cessará quando os materialistas virem no seu princípio e os espiritualistas no seu Deus a fonte dos três elementos: substância, força, inteligência, cuja união constitui a vida universal.

Por isso, basta compreender duas coisas: se se admite que a substância esteja fora de Deus, Deus não é infinito, e, pois que a consciência existe no mundo actual, é preciso evidentemente que ela se encontre naquilo que tem sido o Princípio do mundo.

Mas a Ciência, depois de se haver retardado durante meio século nos desertos do materialismo e do positivismo, depois de ter reconhecido a esterilidade deles, a ciência actual modificou a sua orientação. Em todos os domínios: física, química, biologia, psicologia, ela se encaminha hoje, a passo decidido, para essa grande unidade que se entrevê no fundo de tudo. Por toda a parte ela reconhece a unidade de forças, a unidade de leis. Atrás de toda a substância em movimento encontra-se a força, e a força não é senão a projecção do pensamento, da vontade na substância. A eterna criação, a eterna renovação dos seres e das coisas é tão-somente a projecção constante do pensamento divino no Universo.

Pouco a pouco, o véu se levanta; o homem começa a entrever a evolução grandiosa da vida na superfície dos mundos. Ele vê a correlação das forças e a adaptação das formas e dos órgãos em todos os meios; sabe que a vida se desenvolve, se transforma e se apura à medida que percorre a sua espiral imensa; compreende que tudo está regulado visando a um fim, que é o aperfeiçoamento contínuo do ser e o crescimento nele da soma do bem e do belo. Mesmo neste mundo, ele pode seguir essa lei majestosa do progresso, através de todo o lento trabalho da Natureza, desde as formas ínfimas do ser, desde a célula verde flutuando no seio das águas, até ao homem consciente no qual a unidade da vida se afirma, e acima dele, de grau em grau, até ao infinito. E essa ascensão só se compreende, só se explica pela existência de um princípio universal, de uma energia incessante, eterna, que penetra toda a Natureza; é ela quem regula e estimula essa evolução colossal dos seres e dos mundos para o melhor, para o bem.

Deus, tal qual o concebemos, não é, pois, o Deus do panteísmo oriental, que se confunde com o Universo, nem o Deus antropomorfo, monarca do céu, exterior ao mundo, de que nos falam as religiões do Ocidente. Deus é manifestado pelo Universo – do qual é a representação sensível –, mas não se confunde com este. De igual maneira que em nós a unidade consciente, a Alma, o eu, persiste no meio das modificações incessantes da matéria corporal, assim, no meio das transformações do Universo e da incessante renovação de suas partes, subsiste o Ser que é a Alma, a consciência, o eu que o anima e lhe comunica o movimento e a vida.

E esse grande Ser, absoluto, eterno, que conhece as nossas necessidades, ouve o nosso apelo, nossas preces, que é sensível às nossas dores, é qual o imenso foco em que todos os seres, pela comunhão do pensamento e do sentimento, vêm haurir forças, o socorro, as inspirações necessárias para guiá-los na senda do destino, sustê-los nas suas lutas, consolá-los nas suas misérias, levantá-los nos seus desfalecimentos e nas suas quedas.

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Léon Denis, O Grande Enigma, Primeira parte Deus e o Universo, I O grande Enigma 3 de 5, 6º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: La Madonna de Port Lligat, detalhe | 1950, Salvador Dali)

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Saberes e o tempo ~

O tempo, o espaço, a matéria primordial (II)

O tempo

Aos mesmos resultados chegamos, quando queremos avaliar o tempo. Os períodos cósmicos nos esmagam com um formidável amontoado de séculos. Ouçamos mais uma vez o nosso instrutor espiritual.

O tempo, como o espaço, é uma palavra que se define a si mesma. Mais exacta ideia dele se faz, estabelecendo-se a relação que guarda com o todo infinito.

O tempo é a sucessão das coisas. Está ligado à eternidade, do mesmo modo pelo qual essas coisas se acham ligadas ao infinito. Suponhamo-nos na origem do nosso mundo, naquela época primitiva em que a Terra ainda não se baloiçava sob a impulsão divina.

Numa palavra: no começo da génese.

Aí, o tempo ainda não saiu do misterioso berço da Natureza e ninguém pode dizer em que época de séculos está, pois que o balancim dos séculos ainda não foi posto em movimento.

Mas, silêncio! a primeira hora de uma Terra isolada soa no relógio eterno, o planeta move-se no espaço e, desde então,  tarde e há manhãFora da Terra, a eternidade permanece impassível e imóvel, se bem o tempo avance para muitos outros mundos. Na Terra, o tempo a substitui e, durante uma série determinada de gerações, contar-se-ão os anos e os séculos.

Transportemo-nos agora ao último dia deste mundo, à hora em que, curvado sob o peso da vetustez, a Terra se apagará do livro da vida, para aí não mais reaparecer. Nesse ponto, a sucessão dos eventos se detém, interrompem-se os movimentos terrestres que mediam o tempo e este finda com eles.

Quantos mundos na vasta amplidão, tantos tempos diversos e incompatíveis. Fora dos mundos, só a eternidade substitui essas efémeras sucessões e enche, serenamente, da sua luz imóvel, a imensidade dos céus. Imensidade sem limites e eternidade sem limites, tais as duas grandes propriedades da natureza universal.

Agem concordes, cada uma na sua senda, para adquirirem esta dupla noção do infinito: extensão e duração, assim o olhar do observador, quando atravessa, sem nunca ter de parar, as incomensuráveis distâncias do espaço, como o do geólogo, que remonta até muito além dos limites das idades, ou que desce às profundezas da eternidade onde eles um dia se perderão.

Também estes ensinamentos a Ciência os confirma. Malgrado a dificuldade do problema, os físicos, os geólogos hão tentado avaliar os inumeráveis períodos de séculos decorridos desde a formação da nossa Terra e as mais fracas avaliações mostram quão infantis eram os seis mil anos da Bíblia.

Segundo Sir Charles Lyell, que empregou os métodos usados em Geologia – métodos que consistem em avaliar-se a idade de um terreno pela espessura da câmara sedimentada e a rapidez provável da sua erosão –, ao cabo de numerosas observações feitas em todos os pontos do globo, mais de trezentos milhões de anos transcorreram depois da solidificação das camadas superficiais do nosso esferóide.

As experiências do professor Bischoff sobre o resfriamento do basalto, diz Tyndall(I) parecem provar que, para se resfriar de 2.000 graus a 200 graus centígrados, precisou o nosso globo de 350 milhões de anos. Quanto à extensão do tempo que levou a condensação por que teve de passar a nebulosa primitiva para chegar a constituir o nosso sistema planetário, essa escapa inteiramente à nossa imaginação e às nossas conjecturas. (II) A história do homem não passa de imperceptível ondulação na superfície do imenso oceano do tempo.

Entremos agora no estudo do nosso planeta e vejamos quais os ensinos dos Espíritos sobre a matéria e a força.

A unidade da matéria

À primeira vista, nada parece tão profundamente variado, tão essencialmente distinto, quanto as diversas substâncias que compõem o mundo. Entre os objectos que a arte ou a natureza diariamente nos fazem passar sob as vistas, não há dois que acusem perfeita identidade, ou, sequer, simples paridade de composição. Que dessemelhanças, do ponto de vista da solidez, da compressibilidade, do peso e das propriedades múltiplas dos corpos, entre os gases atmosféricos e um fio de ouro; entre a molécula aquosa da nuvem e a do mineral que forma a carcaça óssea do globo! Que diversidade entre o tecido químico das variadas plantas que adornam o reino vegetal e o dos representantes, não menos numerosos, da animalidade na Terra!

Entretanto, podemos pôr por princípio absoluto que todas as substâncias, conhecidas ou desconhecidas, por mais dessemelhantes que pareçam, quer do ponto de vista da constituição íntima, quer no que concerne à acção que reciprocamente exercem, não são, de facto, senão modos diversos sob os quais a matéria se apresenta, senão variedades em que ela se transformou, sob a direcção das inúmeras forças que a governam.

Decompondo todos os corpos conhecidos, a Química chegou a um certo número de elementos irredutíveis a outros princípios; deu-lhes o nome de corpos simples e os considera primitivos, porque nenhuma operação até hoje pôde reduzi-los a partes relativamente mais simples do que eles próprios.

Mas, mesmo onde param as apreciações do homem, auxiliado pelos seus mais impressionáveis sentidos artificiais, a obra da Natureza continua; mesmo onde o vulgo toma como realidade a aparência, o olhar daquele que pôde apreender o modo de agir da Natureza, apenas vê, sob os materiais constitutivos do mundo, a matéria cósmica primitiva, simples e una, diversificada em certas regiões, na época do nascimento deles, distribuída em corpos solidários durante a vida e que, por decomposição, se desmembram um dia no receptáculo da extensão.

Tal diversidade se observa na matéria, porque, sendo em número ilimitado as forças que lhe presidiram às transformações e as condições em que estas se produziram, ilimitadas não podiam também deixar de ser as próprias combinações várias da matéria.

Logo, quer a substância que se considere pertença aos fluidos propriamente ditos, isto é, aos corpos imponderáveis, quer se ache revestida dos caracteres e das propriedades ordinárias da matéria, não há, em todo o Universo, mais do que uma única substância primitiva: o cosmos, ou matéria cósmica dos uranógrafos.

O ensino é claro, formal: existe uma matéria primitiva, da qual decorrem todos os modos que conhecemos. Terá a ciência confirmado esta maneira de ver? Tomando-se as coisas ao pé da letra, não há negar que essa substância ainda não é conhecida; mas, pesando-se maduramente todos os factos que vamos expor, torna-se fácil verificar que, se a demonstração directa ainda não foi dada, a tese da unidade da matéria é muito provável e encontra cabimento nas mais fundamentadas opiniões filosóficas dos físicos.

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(I) Tyndall, O Calor, pág. 423.
(II) Sabe-se que o diâmetro do Sol era, primitivamente, o da própria nebulosa. Para se fazer uma ideia do calor gerado pelo fenómeno colossal da condensação, basta lembrar que se calculou que, se o diâmetro do Sol se encurtasse da décima milésima parte do seu valor, o calor gerado por essa condensação chegaria para manter durante 21 séculos a irradiação actual, que é igual, por ano, ao calor que resultaria da combustão de uma camada de hulha de 27 quilómetros de espessura, cobrindo completamente o Sol. Se a diminuição de 1/10000 do disco solar corresponde a 21 séculos de irradiação, vê-se que números formidáveis, gigantescos, de séculos empregou a nebulosa solar para se reduzir ao volume actual do nosso astro central.




Gabriel Delanne, A Alma é Imortal, Terceira parte – O Espiritismo e a ciência Capítulo II O tempo, o espaço, a matéria primordial, O tempo, A unidade da matéria, 5º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Pitágoras, pormenor d'A escola de Atenas de Rafael Sanzio (1509)

terça-feira, 12 de maio de 2015

Da sombra do dogma à luz da razão ~

Natureza da Revelação ~ Espírita (III)

   O Espiritismo, tendo-nos dado a conhecer o mundo invisível que nos rodeia e no meio do qual vivíamos sem o sabermos, as leis que o regem, as suas relações com o mundo visível, a natureza e o estado dos entes que o habitam e, por consequência, o destino do homem depois da morte, é uma verdadeira revelação na acepção científica do termo.

Pela sua natureza, a revelação espírita possui um carácter duplo: respeita simultaneamente à revelação divina e à revelação científica. Está ligada à primeira no que o seu advento tem de providencial, não sendo resultado da iniciativa e de um intento premeditado do homem; por os pontos fundamentais da doutrina serem resultantes do ensinamento dado pelos Espíritos encarregados por Deus de esclarecerem os homens sobre coisas que ignoravam, que não podiam aprender sozinhos e que é importante conhecerem, hoje que estão preparados para as compreenderem. Liga-se à segunda por este ensinamento não ser privilégio de nenhum indivíduo e ser dado a toda a gente através da mesma via; por os que o transmitem e os recebem não serem de forma nenhuma seres passivos, dispensados do trabalho de observação e de pesquisa; que não abdicam da sua opinião nem do seu livre-arbítrio; que o controlo não lhes é interdito, sendo antes, pelo contrário, recomendado; enfim, porque a doutrina não foi ditada em todas as suas partes nem imposta à crença cega; que é deduzida, pelo trabalho do homem, da observação dos factos que os Espíritos lhes colocaram debaixo dos olhos e das instruções que lhe dão, instruções que estuda, comenta, compara e de que retira ele mesmo as consequências e as aplicações. Numa palavra, o que caracteriza a revelação espírita é o facto de a fonte ser divina, a iniciativa pertencer aos Espíritos e a sua elaboração ser consequência do trabalho do homem.

Como meio de elaboração, o Espiritismo procede exactamente da mesma maneira que as ciências positivas, quer dizer, aplicando o método experimental. Apresentam-se factos de uma nova ordem que não podem ser explicados pelos meios conhecidos; observa-os, compara-os, analisa-os e, remontando os efeitos às causas, chega à lei que os rege; depois, deduz daí as consequências e procura-lhes as aplicações úteis. Não estabelece nenhuma teoria preconcebida; assim, não colocou como hipóteses nem a existência e a intervenção dos Espíritos, nem o perespírito, nem a reencarnação, nem nenhum dos princípios da doutrina; concluiu que existem Espíritos quando esta existência ressaltou como evidência da observação dos factos; e também o mesmo sucedeu com os outros princípios. Não foram os factos que vieram mais tarde confirmar a teoria, mas a teoria que veio subsequentemente explicar e resumir os factos. É portanto rigorosamente exacto dizer-se que o Espiritismo é uma ciência de observação e não produto da imaginação. As ciências só registaram progressos sérios depois de o seu estudo se ter baseado no método experimental; mas, até esse dia, sempre se acreditou que este método só era aplicável à matéria, enquanto o é igualmente às coisas metafísicas.

Citemos um exemplo. Passa-se, no mundo dos Espíritos, um caso muito singular e de que certamente ninguém teria suspeitado; é o dos Espíritos que não acreditam estar mortos. Pois bem! Os Espíritos superiores, que o sabem perfeitamente, não vieram dizer antecipadamente: «Há Espíritos que julgam estar ainda a viver a vida terrestre; que conservaram os seus gostos, os seus hábitos e os seus instintos»; mas provocaram a manifestação de Espíritos desta categoria para que os observássemos. Tendo então visto Espíritos sem terem a certeza do seu estado ou afirmando que ainda faziam parte deste mundo e julgando ocuparem-se das suas tarefas habituais, do exemplo concluiu-se a regra. A multiplicidade de factos análogos provou que não se tratava de uma excepção, mas de uma fase da vida espírita; permitiu estudar todas as variedades e as causas desta singular ilusão; reconhecer que esta situação é sobretudo distintiva dos Espíritos pouco evoluídos moralmente e que é característica de certos géneros de morte; que é só temporária, mas que pode durar dias, meses, anos. Foi assim que a teoria nasceu da observação. Passa-se o mesmo com todos os outros princípios da doutrina.

Assim como a ciência propriamente dita tem como finalidade o estudo das leis do princípio material, a principal finalidade do Espiritismo é o conhecimento das leis do princípio espiritual; ora, como este princípio é uma das forças da natureza, reagindo constantemente sobre o princípio material e reciprocamente, resulta daí que o conhecimento de um não pode estar completo sem o outro. O espiritismo e a ciência completam-se um ao outro: a ciência sem o Espiritismo fica impotente para explicar certos fenómenos unicamente através das leis da matéria; o Espiritismo sem a ciência não teria apoio nem controlo. O estudo das leis da matéria deveria preceder o da espiritualidade, por ser matéria e ferir primeiro os sentidos. Se o Espiritismo tivesse surgido antes das descobertas científicas teria sido uma obra abortada, como tudo o que surge antes de tempo.

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ALLAN KARDEC, A GÉNESE – Os Milagres e as Profecias Segundo o Espiritismo, Capítulo I NATUREZA DA REVELAÇÃO ESPÍRITA números de 12 a 16 (III), 5º fragmento da obra. Tradução portuguesa de Maria Manuel Tinoco, Editores Livros de Vida.
(imagem de contextualização: Diógenes e os pássaros de pedra, pintura em acrílico de Costa Brites)

domingo, 3 de maio de 2015

As vidas sucessivas | os elementos ~

Apresentação ~ por Hermínio C. Miranda ~

Este livro é um clássico, uma referência, na longa busca de melhor entendimento do ser humano e das leis que regem a sua interacção com as pessoas, os fenómenos e eventos que se desdobram à sua volta, mas principalmente “dentro” daquilo que nos acostumamos a chamar de mente. Em suma, a sua interacção com a vida, nisso incluído, obviamente, o universo em que vive.

Foi a partir dele, ainda na década de 60 do século passado, que encetei os estudos que me levariam à elaboração de A Memória e o Tempo, na segunda metade da década de 70 e publicado no início dos anos 80.

Garimpei o original francês que deu origem a esta tradução, num sebo, como de tantas outras vezes, em momento feliz, por se tratar de edição raríssima de 1911.

Logo na primeira leitura, senti considerável impacto. Quanto mais o lia, relia e aprofundava a meditação sobre o seu conteúdo, mais impressionado ficava. Agradava-me a abordagem sensata e inteligente do autor, emoldurada por inesperada humildade intelectual de um cientista daquele porte.

De Rochas se punha como atento e curioso pesquisador, disposto a aprender com os factos, em vez de tentar enquadrá-los em rígido contexto de modelos preconcebidos, atitude comum àquele tempo, como ainda hoje, de parte dos que não se sentem encorajados e nem preparados para mudar e, por conseguinte, a progredir galgando patamares mais elevados de conhecimento.

A sua postura era, pois, despreconceituosa e atenta, mas aberta.

Outra coisa: o ilustrado coronel, engenheiro e conde não pretendeu considerar as suas reflexões como última palavra a ser religiosamente acatada pelos que o lessem. Ao contrário, atribuiu ao seu trabalho a modesta condição de um conjunto de documentos preliminares para estudo da questão, ao indicar a necessidade de pesquisas mais amplas e profundas que dessem continuidade à sua tarefa.

O seu livro, contudo, é muito mais que uma dissertação primária.

De Rochas relata as suas experiências, oferece conclusões sobre o que testemunhou e levanta aspectos inusitados da mente para os quais ainda não dispunha de explicações que satisfizessem os seus critérios pessoais, ainda que apontando em determinada direcção. Em outras palavras, não dogmatiza.

Ademais, ao empreender os seus estudos entre o final do século 19 e o início do século 20, não partiu de premissas propostas pelo espiritismo, cuja doutrina se achava, àquela época, bastante difundida ali mesmo, na França.

De início, estranhei esse procedimento. Hoje entendo-o como opção válida e medida de prudência destinada a preservar a isenção necessária ao trabalho em que se empenhava. Se ele partisse de conceitos doutrinários espíritas, caracterizando-se como militante do movimento que se expandia, os seus estudos ficariam certamente expostos à rejeição liminar por parte das correntes intelectuais da época, dominadas por pensadores de formação nitidamente materialista ou positivista – como ocorreu e ocorreria a tantos outros mais tarde.

Em nota de rodapé, ele explica que não cuidava especificamente de espiritismo, por entender que disso se ocupavam outros estudiosos. Sem ignorar ou negar os postulados espíritas – alude com respeito e admiração à obra de Léon Denis, por exemplo –, limitava-se a aspectos científicos que, directa ou indirectamente acabaram resultando em valioso suporte à inteligente doutrina dos espíritos.

Realmente, ao estampar na reencarnação a marca autenticadora da ciência, o seu estudo, mesmo preliminar, como ele o entendia, legitimava a realidade espiritual, tal como figura nos livros básicos de Allan Kardec.

Tenho insistido reiteradamente nos meus escritos em que essa realidade, fundamental ao entendimento da vida, é insusceptível de esquartejamento. Estamos aqui diante de um bloco inteiriço de conceitos solidamente colados uns nos outros.

No meu entender, a reencarnação é o cimento que mantém inseparáveis tais componentes. E que, demonstrada – como está há muito – a legitimidade da reencarnação, os demais aspectos exigem automática integração no modelo em que não se admite ignorar, no mínimo, a preexistência e a sobrevivência do ser à morte corporal.

Por outro lado, de Rochas pôs em evidência relevantes aspectos colaterais, como a lei de causa e efeito e, portanto, o mecanismo da evolução do ser rumo à perfeição e, ligado a esse conceito, sublinhando-o de modo subtil, mas dramático, a verdade subjacente de um claro componente ético necessário ao funcionamento daquele mecanismo. Deixou, ainda, informações do mesmo nível de importância acerca das faculdades mediúnicas e, portanto, do intercâmbio entre “vivos” e “mortos”. Nota-se, no desenrolar das suas experiências, a presença de entidades desencarnadas, bem como a evidência de um “espaço” cósmico invisível aos nossos sentidos habituais, “onde” vivem, sofrem, amam, odeiam, aprendem e se reciclam os seres espirituais entre uma vida e outra na Terra.

Disto se conclui que, a despeito de não se caracterizar como texto doutrinário espírita, o seu valioso trabalho oferece firme suporte aos ensinamentos e conteúdos dos livros básicos da Codificação.

Além disso, de Rochas deixou significativa contribuição ao estudo da própria memória, na sua interacção com o tempo. Conceitos como o de inconsciente – que começavam a emergir na época –, encontram nos seus trabalhos, tanto quanto na doutrina dos espíritos, encaixes precisos e espaço próprios, como procurei demonstrar em Alquimia da Mente.

Que eu saiba, foi ele quem primeiro colocou de maneira transparente a possibilidade de explorações no futuro, tanto quanto no passado do ser humano. Aparentemente inconclusivas, as suas “progressões” (mergulho na memória futura) deixaram vestígios importantes de uma realidade que somente cerca de um século mais tarde seria retomada para mais profundas explorações, como se pode conferir nos escritos da doutora Helen Wambach e de outros estudiosos como Chet Snow.

Por tudo isso, os textos de de Rochas – e este livro não é o único a solicitar a nossa atenção – merecem atenção, respeito e admiração.

Parabéns à Lachâtre por resgatar mais este importante depoimento científico de um injusto e demorado esquecimento.

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Albert de RochasAs Vidas Sucessivas  Apresentação, por Hermínio C. Miranda | Outubro de 2002, 4º fragmento solto da obra.
(imagem de contextualização: A aurora dos transatlan, pintura em acrílico de Costa Brites)