sexta-feira, 20 de março de 2020

Da sombra do dogma à luz da razão ~

Natureza da Revelação Espírita 
(VII)

Pelas relações que o homem pode agora estabelecer com os que deixaram a Terra, tem não só a prova material da existência e da individualidade da alma, como compreende a solidariedade que liga os vivos e os mortos deste mundo e os deste mundo com os dos outros mundos. Conhece a situação deles no mundo dos Espíritos; segue-os nas suas migrações; é testemunha das suas alegrias e dos seus desgostos; sabe porque estão felizes ou infelizes e a sorte que o espera a ele consoante o bem ou o mal que faça. Estas ligações iniciam-no na vida futura que pode observar em todas as fases, em todas as suas peripécias; o futuro já não é uma esperança vaga: é um facto positivo, uma certeza matemática. Então, a morte já nada tem de assustador, pois é para ele a libertação, a porta da verdadeira vida.

Através do estudo da situação dos Espíritos, o homem sabe que a felicidade e a infelicidade na vida espiritual são inerentes ao grau de perfeição e de imperfeição; que cada qual sofre as consequências directas e naturais dos seus erros: dito de outro modo, que é castigado por aquilo em que pecou; que as suas consequências duram tanto tempo como a causa que os produziu; que, assim, o culpado sofreria eternamente se persistisse eternamente no mal, mas que o sofrimento termina com o arrependimento e a reparação; ora, como depende de cada um melhorar, cada um pode, graças ao seu livre-arbítrio, prolongar ou abreviar os seus sofrimentos, tal como o doente sofre durante o tempo que levar até pôr um fim aos seus excessos.

Se a razão afasta, como incompatível com a bondade de Deus, a ideia dos castigos irremissíveis, perpétuos e absolutos, muitas vezes infligidos devido a um só erro, suplícios do Inferno que não podem suavizar o arrependimento mais ardente e mais sincero, ela inclina-se perante esta justiça distributiva e imparcial, que toma tudo em consideração, que nunca fecha a porta ao regresso e que estende constantemente a mão ao náufrago, em vez de o empurrar para o abismo.

A pluralidade das existências, de que Cristo enunciou o princípio no Evangelho mas sem o definir mais que muitos outros, é uma das leis mais importantes reveladas pelo Espiritismo, no sentido em que demonstra a realidade e a sua necessidade para a evolução. Por esta lei, o homem explica todas as anomalias aparentes que a vida humana apresenta; as diferenças de posição social, os mortos prematuros que, sem a reencarnação, tornariam inúteis para as almas as vidas abreviadas; a desigualdade das aptidões intelectuais e morais, pela antiguidade do espírito que aprendeu mais ou menos e progrediu e que traz ao renascer o saber adquirido nas suas existências anteriores. (Ver o ponto 5 deste capítulo).

Com a doutrina da criação da alma, a cada nascimento, voltamos a cair na teoria das criações privilegiadas; os homens são estranhos uns aos outros, nada os une, os laços de família são puramente carnais: não são de maneira nenhuma solidários com um passado onde não existiam; com a ideia do nada depois da morte, toda a relação cessa com a vida; não são solidários com o futuro. Com a reencarnação, são solidários com o passado e com o futuro; perpetuando-se as suas relações no mundo espiritual e no mundo corporal, a fraternidade tem por base as próprias bases da natureza; o bem tem uma finalidade e o mal as suas consequências inevitáveis.

Com a reencarnação caem todos os preconceitos de raças e de castas, uma vez que o mesmo Espírito pode renascer rico ou pobre, fidalgo ou proletário, patrão ou subordinado, livre ou escravo, homem ou mulher. De todos os argumentos invocados contra a injustiça da servidão e da escravatura, contra a sujeição da mulher à lei do mais forte, não existe nenhum que supere em lógica o facto material da reencarnação. Portanto, se a reencarnação funda sobre uma lei da natureza o princípio da fraternidade universal, funda sobre a mesma lei o da igualdade de direitos sociais e, por consequência, o da liberdade.

/…


ALLAN KARDEC, A GÉNESE, – Os Milagres e as Profecias Segundo o Espiritismo, Capítulo I NATUREZA DA REVELAÇÃO ESPÍRITA, de 31 a 36 (VII), 9º fragmento desta obra. Tradução portuguesa de Maria Manuel Tinoco, Editores Livros de Vida.
(imagem de contextualização: Diógenes e os pássaros de pedra, pintura em acrílico de Costa Brites)

terça-feira, 3 de março de 2020

as vidas sucessivas | os elementos ~

~ Experiências magnéticas 
Regressão da memória e previsão 
~ Caso nº 1 / Laurent (IV)

"27 de Outubro de 1893|

Sessão bastante longa; mas, tendo o Sr. de Rochas se esquecido de sugerir-me a lembrança do que se passaria, não me recordo de nada. Parece que se pode, pressionando-se fortemente a fronte, evocar as sensações experimentadas, todavia, ao menos no que me concerne, a imaginação parece-me então alterar a memória. Não apresentando a lembrança certeza absoluta, como a que se tem sob a influência da sugestão, é mais sensato não lhe dar crédito. (i)

8 de Novembro de 1893

É necessário que eu fale sobre um fenómeno que frequentemente tenho observado nestes dias.

Tão logo na presença do Sr. de R., sinto-me sob a sua influência, mesmo que na nossa conversa não se trate de hipnotismo e, sem que ele me aplique passes ou me fixe para levar-me ao sonambulismo.

No jardim do Luxemburgo, anteontem, enquanto eu passeava com ele, o Sr. de R. deu-me esta ordem: “Você já não pode andar.” Imediatamente permaneci no mesmo lugar, as pernas rígidas, um pouco apavorado, mas sem razão, pois, tão logo me apercebo de que estou sob a influência de uma sugestão, por si só os meus músculos se relaxam e continuo o passeio sem a mínima dificuldade.

Advertido assim de que o Sr. de R. procura nesse momento tentar o seu poder sobre um sujet desperto, permaneço atento, acreditando que a minha vontade será capaz de lutar contra as ordens recebidas. E, efectivamente, reagindo de alguma forma com antecedência logo que o Sr. de R. abre a boca, chego a impedir que a sugestão se realize, sem todavia poder reter um gesto levemente esboçado, que é o começo da realização.

– Deixemos isso – diz-me o Sr. de R. – e falemos de outra coisa.

Já não penso numa possível sugestão quando o Sr. de R. bruscamente exclama:

– Abra a sua mão direita.

Apanhado de surpresa, obedeço imediatamente e a minha bengala cai no chão.

Esta manhã, a simples presença do magnetizador foi suficiente para fazer-me cair na primeira letargia. Sem dúvida eu tinha vindo ao seu gabinete para ser adormecido, eu já estava até sentado diante dele, eu não tinha a ideia de resistir à sua influência magnética (e estas são condições essenciais do fenómeno que se produziu) e, ainda mais, foi a primeira vez que observei isso e adormeci sem o concurso directo do magnetizador.

O Sr. de R. leva-me ao terceiro estado, o estado de rapport. A mesma obliteração da memória de tudo o que se refere ao período de minha vida transcorrido desde a idade dos nove anos. Na verdade, admiro-me por voltar de repente a essa idade sem passar por etapas progressivas. (ii) O facto não é menos verdadeiro; raciocino claramente, entretanto exprimo-me com um vocabulário restrito. Estou nas quatro operações em matemática e cometo erros de ortografia, ao escrever. A minha letra é infantil; lamento não poder compará-la com a que eu rabiscava os meus cadernos escolares perdidos. Não me recordo de ter tido, hoje, esse súbito lampejo de consciência que me fez perceber, em um segundo, durante a sessão precedente, que eu estava adormecido.

É necessário observar que a sugestão possui menos força nesse terceiro estado do que nos estados precedentes. De acordo com o Sr. de R., sou um dos mais sensíveis a isso; não obstante, cedo menos facilmente do que no segundo estado (sonambulismo).

Se, por exemplo, nesse segundo estado o Sr. de R. me ordena, quando está atrás de mim, que o veja em carne e osso na poltrona que está diante de mim, a alucinação é completa: vejo e toco efectivamente uma pessoa viva e, a sensação não se torna mais nítida quando o Sr. de R. se senta ele próprio na poltrona.

Ao contrário, no terceiro estado, sob a ordem do Sr. de R., vejo-o bem e sinto-o lá onde ele não está; mas se ele se dirige realmente ao local onde creio vê-lo, apercebo-me do meu erro, enquanto, no segundo estado, entre a sua imagem e ele, eu não encontrava diferença.

12 de Novembro de 1893

Experiências feitas novamente no terceiro estado.

exteriorização da sensibilidade segue as mesmas leis observadas no segundo estado. Há zonas sensíveis distribuídas em torno do meu corpo e separadas por intervalos constantes onde a excitação é vã. Essas zonas sensíveis são, aliás, invisíveis para mim; não vejo vestígios de eflúvios. Além do mais, observo sempre que a reacção à excitação é mais viva e a sensação mais nítida quando sou advertido e vejo o ponto da zona sobre a qual é dirigida a excitação.

Apagam-se as luzes e deixa-se o cómodo numa obscuridade completa. O Sr. de R. apresenta-me então um diamante, inesperadamente. Passado um momento distingo duas frouxas luminosidades em alguma parte no espaço. É precisamente aí que encontro o diamante. Aliás, essas luminosidades são tão vagas para os meus olhos que não posso definir exactamente a sua cor.

O Sr. de R. estende-me em seguida os seus dedos, que não me parecem mais luminosos do que como os vejo habitualmente. De qualquer forma, não vejo nenhum eflúvio saindo deles.

Enfim, o Sr. de R., colocando a sua mão sobre o peito, pergunta-me se não vejo dentro dele. – Absolutamente não. E não vejo também nada em mim mesmo. (iii)

Acho prudente encerrar aqui estas anotações. À medida que o sujet chega a um estado mais profundo, a sugestão adquire cada vez menos poder sobre ele. Por conseguinte, apesar de o Sr. de R. me sugerir a recordação do que se passa comigo durante o meu sono, desperto, eu não me recordo de nenhuma de minhas acções, de nenhuma das minhas palavras. Eu disse que, pressionando-se fortemente a fronte e, por um esforço persistente, se podiam evocar palavras e acções que se crê terem sido ditas e realizadas; porém também acrescentei que isso parecia como que uma ilusão.

A partir do momento em que entrei nos estados mais profundos do que o terceiro, tive de resignar-me a já não me observar e, por conseguinte saber o que se passou comigo, fixar-me nas observações do Sr. de Rochas, o que faço sem esforço.

                                                                                                                        Laurent
/...
(i) Constatei nesta sessão, com o auxílio de perguntas versando sucessivamente sobre acontecimentos desde os mais recentes até ao nome do seu professor da 3ª série, que as suas recordações se concentravam sobre aqueles cada vez mais distantes à medida que a hipnose se aprofundava. (A. de Rochas)
(ii) As etapas progressivas existem realmente, mas eu não interrogava o sujet durante a sua duração, porque na sessão de 27 de Outubro eu já havia estudado o que podia interessar-me. (A. de Rochas)
(iii) Essas tentativas tinham por finalidade constatar se Laurent gozava da propriedade descrita nos estados profundos da hipnose. (A. de Rochas)


Albert de RochasAs Vidas Sucessivas, Segunda Parte Experiências magnéticas, Capítulo II – Regressão da memória e previsão, Caso nº 1 – Laurent, 1893 (por ele próprio) 4 de 4, 8º fragmento desta obra.
(imagem de contextualização: A aurora dos transatlan, pintura em acrílico de Costa Brites)

domingo, 2 de fevereiro de 2020

~~~Párias em Redenção~~~

O TESTAMENTO
(III)

Ante a efervescência dos convidados do Solar di Bicci e a leitura do testamento, o Espírito atribulado do Senhor duque, que se encontrava entorpecido no vágado demorado, de que fora vítima desde a hora em que Girólamo cometera os crimes sórdidos, despertou e, dominado por inenarrável fúria, acompanhou a leitura e os conchavos maléficos realizados no grande refeitório do solar, explodindo em cólera de louco. Identificando no sobrinho o autor de tantas desgraças, atirou-se sobre ele, punhos cerrados e dentes rilhados, sem, no entanto, conseguir atingi-lo.

À semelhança de um animal ferido, o Espírito do duque ululava, entre sombras espessas, de cujo bojo se destacavam o vulto odiento do sobrinho e o das personagens presentes, indiferentes ao seu próprio estado. Compreendeu, ante a leitura ouvida, que se encontrava definitivamente morto e que o ser sofria e se esganava em superlativa aflição e desconforto era ele mesmo, sim, em espírito vivo e indestrutível…

Embora a dor que o dilacerava, recordou-se dos filhos trucidados, de Lúcia, da esposa, enquanto as lágrimas, como aço derretido, lhe escorriam ardentes, lenhando-o externa e interiormente.

Sem o conforto de uma fé religiosa legítima, acostumado apenas ao culto externo e vazio da tradição, foi dominado pelo furor do ódio, deixando à margem toda a ternura e misericórdia de que ouvira falar e, de que se fizera portador aquele Nazareno Crucificado, em nome do Pai e, que dera a Sua pelas vidas dos homens de todos os tempos, ensinando mansidão e amor, até ao sacrifício supremo.

Em esgares, transformando-se lentamente, porque vencido pela própria desdita, o antigo Senhor di Bicci di M., desde aquele momento, se converteu em obsessor de Girólamo, seguindo-o implacável, tentando uma comunhão psíquica que hoje ou depois se faria, irreversivelmente, pois o ódio – o amor desvairado – vibra, poderoso e, encontra sintonia naquele a quem se dirige por um processo natural de harmonia vibratória, em considerando as baixas faixas mentais e morais em que se demoram os homens. Poderoso, o ódio atrai à sua força imantadora aqueles que se comprazem na invigilância e na irresponsabilidade, pois que somente a abnegação, a humildade, o amor, a caridade – as virtudes clássicas! – são antídoto específico capaz de dissolvê-lo.

sombra de que se supunha seguido, conforme relatara Girólamo, eram os primeiros fios invisíveis do remorso que o atariam à sua vítima central, por cujos liames se apertariam as teias da trama da vingança cega e louca do desafecto nascido pela traição e pelo homicídio múltiplo. Utilizando-se do remorso que teceria as malhas de imantação entre um e o outro, Dom Giovanni penetraria no recesso da consciência anestesiada do jovem e exerceria o seu predomínio em curso longo de obsessão vingadora, a se demorar pela esteira imensa do tempo. Não agora, porém, começariam os primeiros tormentos do criminoso. A Misericórdia Divina concede a bênção do tempo, em mil oportunidades, para o celerado reabilitar-se, mediante o arrependimento honesto em termos de acção pelo trabalho e pelo socorro ao próximo, através da construção do bem, dentro e fora do ergástulo em que se demora na carne. Todavia, soezes e frívolos, os facínoras se esquecem da justiça, e, quando esta não os alcança de imediato, supõem-se livres, prosseguindo na desenfreada cupidez, alucinação e prepotência, adicionando aos antigos novos débitos, acumpliciados com as mais vis manifestações do instinto, não totalmente domado ainda e, que lhes são portas da loucura inominável, em cujo corredor se atiram, sem possibilidade de próxima salvação. Era o que ocorria com Girólamo.

Limitado pelas comportas carnais, podia ver as cenas de primitivismo a que se atirava o pai adoptivo, tentando feri-lo, destruí-lo, exacerbado no próprio desespero. Deambulando pelo imenso solar, agora sem visitas, com os poucos servidores já recolhidos, repassava, o moço, as cenas ali vividas e se sentia o senhor absoluto da herdade, antegozando a hora em que, triunfante, com os documentos de posse, viesse a residir no palácio, demoradamente ambicionado. A realidade daquela hora parecia tirar-lhe a razão: sorria em alegria quase louca e bebia eufórico, seguido pela sombra do perseguidor.

A Senhora Ângela, em espírito, que também estivera presente à leitura do testamento, permanecera orando, tentando penetrar os crepes pesados que envolviam o esposo, de modo a acenar-lhe com as bênçãos do perdão ao infractor, que não jornadearia impune para sempre, libertando-o dos miasmas do ódio, em que se consumia lentamente. Fechado a qualquer comunicação exterior, o lampejo da lembrança dos seres queridos foi logo abafado pelo fervor da paixão odienta e nefasta que o venceu terrivelmente. Assim, a nobre Entidade, que socorria, a seu turno, os filhinhos recém-chegados e a antiga serva, abandonou o recinto, buscando a esfera da paz em que amparava os amores, confiando no Pai de Misericórdia e na Mãe Santíssima, a Eles entregando o esposo perdido nas trevas da ignorância e da vingança…

/…


VICTOR HUGO, ESPÍRITO “PÁRIAS EM REDENÇÃO” – LIVRO PRIMEIRO, 3. O TESTAMENTO (3 de 3), 10º fragmento desta obra. Texto mediúnico ditado a DIVALDO PEREIRA FRANCO.
(imagem de contextualização: L’âme de la forêt | 1898, tempera e folha de ouro sobre painel de Edgard Maxence)

sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

o Homem e a Sociedade numa nova Civilização ~ do Materialismo histórico a uma Dialéctica do espírito ~


Capítulo V

O SIGNIFICADO ESPÍRITA do Materialismo Dialéctico (i)


Nos tempos actuais, o materialismo dialéctico encontra-se no auge, devido a se considerar o seu método de conhecimento como o novo instrumento filosófico com o qual se pode interpretar a realidade histórica, e porque pode determinar uma transformação social que redunde num tipo de sociedade nova.

Segundo os seus princípios, o homem deixa de ser uma entidade que conduz a marcha dos fenómenos sociais, para converter-se numa máquina manejada pelas forças exteriores. Deste modo, a matéria é que tem preeminência sobre o espírito, convertendo-se o Ser numa representação fisioquímica. Esquecemos assim que o indivíduo possui uma realidade metapsíquica, que supera em todos os sentidos o seu mundo corporal.

Na dialéctica de Hegel, os fenómenos materiais são apenas objectivações da Ideia, e o mundo subjectivo desenvolve-se por uma lei de contradições que se opera através de uma tese, uma antítese e uma síntese. Penetrando na filosofia dialéctica de Hegel, compreenderemos, com assombro, que ela está baseada no mesmo processo da filosofia palingenésica do espiritismoGustave Geley, referindo-se a Hegel, disse:

“Na filosofia de Hegel encontram-se nitidamente as ideias de evolução e involução. O absoluto, que não é mais do que um ideal puro, sem realidade alguma, desenvolve-se para chegar à plena consciência de si mesmo. Isto origina a evolução, que Hegel chama o porvir. O desenvolvimento opera-se em três fases ou tempos: primeiro, estado de pura virtualidade, chamado por Hegel: tese; segundo, delimitação e divisão, isto é: a antítese; terceiro, desaparecimento das delimitações e a identificação dos contrários, numa síntese superior.

“Esta síntese, às vezes, converte-se logo no ponto de partida de um movimento análogo, que se repete até ao infinito. Tese, antítese e síntese reaparecem constantemente, em todos os momentos do desenvolvimento do Ser. Na sua evolução, o Ser realiza todos os progressos e chega, deste modo, à plena consciência de si mesmo. (*)

A exacta interpretação que Geley faz de Hegel leva-nos a supor um grande porvir para a função ideológica que desenvolverá a palingenesia dialéctica.

Hegel escreveu a sua Fenomenologia do Espírito afastando-se de todo o dogma. Geley, em plena actualidade, fez outro tanto com o seu extraordinário livro Do Inconsciente ao Consciente. Assim, para Geley, o Absoluto de Hegel se chama Dinamopsiquismo, e evolui do inconsciente ao consciente; de maneira que Espírito Absoluto do filósofo alemão e o Dinamopsiquismo do metapsiquista francês se nos apresentam como uma mesma entidade metafísica, cujas três fases de tese, antítese síntese da dialéctica concordam com a trilogia espírita de nascer, morrer renascer. Como poderemos ver, o nascimento corresponderia à tese, a morte à antítese e o renascimento à síntese.

Marx inverteu, como sabemos, o sentido original da dialéctica, acreditando demonstrar dessa maneira que o mundo material é que determina a realidade espiritual. Contudo, os fenómenos metapsíquicos dão razão à interpretação dialéctica de Hegel, demonstrando que por trás de todo o fenómeno material oculta-se um ser teleológico, que revela uma presença inteligente e espiritual. Os fenómenos de materialização e desmaterialização julgam o materialismo dialéctico de maneira terminante. Pois se o Espírito Absoluto de Hegel e o Dinamopsiquismo de Geley, em circunstâncias especiais, se materializam e desmaterializam, isso demonstra que a realidade material não é a que impulsiona o processo histórico, mas sim a Ideia ou realidade espiritual.

Chegamos assim à conclusão de que o determinismo histórico está movimentado por uma causalidade espiritual, cujo motor psíquico é a parte fundamental do Ser.

Tratamos, em seguida, de interpretar a lei materialista dialéctica de negação da negação, que, segundo a filosofia espírita, corresponde ao processo de evolução da involução.

Com efeito, quando o materialismo dialéctico afirma que as coisas são processos materiais, que se transformam e se desenvolvem, não faz outra coisa senão mostrar-nos um processo dialéctico espiritual, porque, se as coisas são processos, estes confirmam a tese palingenésica do Ser, quando nos explica que é um factor psíquico o determinante da evolução da involução (no materialismo dialéctico: negação da negação).

Mas antes de prosseguir, façamos algumas breves reflexões sobre esta teoria, chamada negação da negação pela filosofia Materialista dialéctica.

Para o espiritismo, é o conceito de negação que redunda na desordem, no caos, na morte e no nada. De maneira terminante, a negação não é mais do que a base ideológica do existencialismo ateu. Se tudo isto implica o conceito de negação o materialismo dialéctico nunca poderá falar de uma verdadeira negação de negação, por lhe faltar uma ideologia transcendental, que dê sentido e finalidade à existência e ao Universo.

A sua interpretação da história sempre se faz no conceito de negação, já que a sua própria ideologia é uma consequência da negação de toda a teleologia espiritual do homem e do mundo. Nenhuma ideia ou sistema que não aceite o espírito, como o expõe a filosofia espírita, poderá aspirar a uma posição verdadeira ao conceito de negação, visto que este não é mais do que um encontro com o nada. (**)

A negação é uma propriedade do Nada, e uma real negação da negação só poderá efectuar-se sobre o fundamento da vida eterna e da concepção de um homem infinito. Então, destruir negação nas coisas é trabalho do espiritualismo espírita, e não do materialismo dialéctico, assentado sobre a ideia do nada e da morte definitiva do indivíduo, isto é, sobre o conceito de negação, dentro do qual cabem todas as formas ideológicas que se opõem à vida e à evolução palingenésica.

Se, como afirma a dialéctica materialista, todas as coisas são processos, necessariamente a identidade e coesão das mesmas para que se mantenham, devem corresponder a um número psíquico, já que não pode; haver processo se não houver antes harmonia no formal. Consequentemente, a matéria, para estar submetida a processos, deve ser conduzida por algo, e esse algo não é mais do que o Espírito Absoluto de Hegel ou o Dinamopsiquismo de Geley.

O materialismo dialéctico silencia a este respeito. Não explica nada sobre esse factor essencial, que mantém o processo formal das coisas. E é aqui que a realidade do fenómeno metapsíquico se impõe, e por ele fica demonstrado que o Universo é o que Geley chama Dinamopsiquismo Essencial. É este facto que renova a filosofia idealista por meio do perispírito, órgão psíquico do espírito, através do qual o Absoluto de Hegel deixa de ser um puro ideal sem realidade alguma, como dizia Geley ao apreciar a dialéctica hegeliana.

Se todas as coisas são processos, como afirma o materialismo dialéctico, o próprio homem resultará um dinamopsiquismo individual, cuja natureza o revelará como um ser palingenésico. É aqui que se nos apresenta o processo dialéctico de tese, antítese sínteseconcordando admiravelmente com a trilogia espírita de nascer, morrer renascer, verdadeiro fundamento da negação da negação, ampliada pela tese palingenésica de evolução da involução.

/…
(*) Geley, Ensaio de Revista Geral e de Interpretação Sintética do Espiritismo.
(**) Título de um livro de Helmut Kuhn.


Humberto Mariotti (i)O Homem e a Sociedade numa Nova Civilização, Do Materialismo Histórico a uma Dialéctica do Espírito, 1ª PARTE O NÚMENO ESPIRITUAL NOS FENÓMENOS SOCIAIS, Capítulo V – O Significado Espírita do Materialismo Dialéctico 1 de 3, 8º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Alrededores de la ciudad paranóico-crítica: tarde al borde de la historia europea | 1936, Salvador Dali)

sábado, 21 de dezembro de 2019

O Mundo Invisível e a Guerra ~

IV
O Mês de 
Jeanne d’Arc

(Maio de 1915)

A Terra voltou a apresentar os seus encantos após o longo sono do inverno.

Debaixo das minhas janelas, no vasto jardim público, os tufos de flores brilhantes se misturam com as folhagens verdes.

Na calma superfície das águas, cisnes deslizam majestosamente e nos altos ramos as aves canoras, numa espécie de encantamento, fazem intermináveis concertos. Uma suave claridade envolve todas as coisas, mas, ao longe, na linha de combate, a fumaça da peleja cobre o solo e envolve o céu.

Estamos em maio, mês de Jeanne d’Arc, assim denominado porque ele reúne as datas dos mais notáveis acontecimentos de sua vida: dias 7 e 8, libertação de Orléans; dia 24, a sua prisão em Compiègne, e no dia 30, o seu martírio em Rouen.

Nessa época do ano o meu pensamento comovido sempre busca a Virgem Lorena como um modelo de força e beleza moral, porque nela se encontram, na aparência, as qualidades mais antagónicas: energia e sensibilidade, firmeza e delicadeza, idealismo e senso prático. Invoco-lhe o espírito e medito em seu sacrifício.

Nos dolorosos momentos por que passa a França, essa invocação tem carácter geral e grandioso, num apelo supremo de uma nação ameaçada, espezinhada por sanguinário inimigo. É o grito de angústia de um povo que não quer morrer e que suplica o auxílio das forças celestes invisíveis.

O culto de Jeanne d’Arc era exercido, antes da guerra, por numerosos fiéis, porém muitos consideravam os factos de sua vida como acontecimentos vagos, distantes, quase lendários, diminuídos pela distância do tempo.

As tentativas do clero católico para monopolizar a Virgem Lorena levantaram contra ela um partido político completo.

A ideia de se criar uma festa nacional para lhe comemorar a memória jazia há mais de dez anos no arquivo da Câmara e um enxame de críticos meticulosos e malévolos se preocupou com os pormenores de sua história, para contestá-los, denegri-los ou, pelo menos, diminuir-lhe o brilho!

Um Anatole France a apresentava aos nossos contemporâneos como uma mística quase idiota; Thalamas chegava mesmo a injuriá-la.

Gabriel Hanotaux referia-se a ela mais dignamente, porém queria fazê-la passar por instrumento das ordens religiosas mendicantes, o que era pura fantasia.

Assim pois, do messias de nosso país, admirado e glorificado pelo mundo inteiro, os franceses haviam chegado a fazer um tema de polémicas e discórdias.

Hoje a transformação é completa: debaixo da tempestade de ferro e fogo que esmaga a França, na angústia que a sufoca, toda a nação dirige os seus pensamentos para Jeanne e lhe pede socorro. Suplicam-lhe que salve, pela segunda vez, a pátria invadida.

Atendendo a esses apelos, do seio do Espaço onde se encontrava, ela paira sobre as nossas misérias e dores, para atenuá-las e consolá-las. Mais ainda: à frente de um exército invisível, actua na frente de batalha transmitindo aos nossos soldados a chama sagrada que a envolve, impelindo-os ao combate e à vitória!

Há poderosos e bem-aventurados espíritos que a rodeiam, porém a todos ela domina com a sua sublime energia. A filha de Deus tomou para si a nossa causa. Certa de tal auxílio na luta terrível que sustenta, a França não sucumbirá!

Será que se sabe quanto sofrerão esses nobres espíritos em contacto com a Terra? A sua natureza delicada e purificada lhes torna penosa a permanência no nosso mundo inferior.

Necessitam de um esforço permanente de vontade para se manterem na nossa atmosfera saturada de maus pensamentos e fluidos grosseiros, ainda agravada pelas vibrações das violentas paixões que a actual guerra desencadeia.

Juntai a isso o espectáculo das mortandades, dos cadáveres, dos estertores dos moribundos, dos gritos dolorosos dos feridos e da visão das terríveis feridas produzidas pelos explosivos, por todas as máquinas mortais que os exércitos modernos carregam consigo.

Quantas emoções pungentes para conter, para dominar! Na Idade Média, Jeanne presenciou, certamente, cenas dessa espécie, porém em proporções menores! Não obstante, ela reagirá energicamente contra qualquer desfalecimento, porque tudo se torna secundário e desaparece diante do objectivo essencial que é mister alcançar: a libertação da pátria.

A irradiação da força fluídica de Jeanne expande-se sobre todos, até sobre os ingleses, agora nossos companheiros de armas.

Alguns dos nossos soldados, dotados de faculdades psíquicas, a vêem passar no meio da fumaça dos combates, mas todos, intuitivamente, sentem a sua presença e nela depositam a sua suprema esperança. Daí resultam as qualidades heróicas demonstradas, que causam decepção aos alemães e assombro a todos quantos, sem razão aparente, acreditavam na inevitável decadência de nossa raça.

/…


LÉON DENIS, O Mundo Invisível e a Guerra, IV – O Mês de Jeanne d’Arc 1 de 3, 9º fragmento desta obra.
(imagem de contextualização: Tanque de guerra britânico capturado pelos Alemães, durante a Primeira Guerra Mundial)

domingo, 24 de novembro de 2019

pensamento espírita argentino ~

CAPÍTULO I

~~ fundamentos científicos da concepção neo-espírita da vida e da história ~

Que somos? 

(VIII)

As localizações cerebrais não são senão centros que têm ramificações e pontos de contacto em todo o sistema nervoso, sobre os quais, no estado normal, age o espírito, podendo deles prescindir em casos como os que relatamos e em outros mais extraordinários e difíceis de explicar dentro do estreito limite da psicofisiologia, como os fenómenos metapsíquicos, anímicos e espíritas.

As mesmas percepções podem chegar à alma por diferentes vias nervosas, ainda que produzidas por sensações diversas. As sensações tácteis dão ao cego e também ao que não o seja, idênticas percepções de forma e tamanho e até de significado como as percepções visuais e, a vista pode suprir o tacto. As sensações olfactivas estão tão intimamente ligadas às do gosto que em muitíssimos casos podem supri-las; o ouvido é um grande auxiliar da vista e pode informar à alma percepções análogas. A alma é una e indivisível e talvez não esteja longe o dia em que se possa, por exemplo, manusear as cores e ver os sons, como auxiliares dos órgãos de percepção. E esses mesmos órgãos podem ser, em casos anormais, alterados e o sujeito perceber por vias diferentes, como nos casos de transposição dos sentidos, estudados por Lombroso, Petetin e outros.

O primeiro destes sábios narra o facto de uma jovem de 14 anos de idade, filha de um dos homens mais inteligentes da Itália e de mãe sã e robusta, que ao chegar à puberdade sofreu tantos transtornos orgânicos, seguidos de convulsões histéricas, de hiperestesia e de transposição dos sentidos, que ele (Lombroso) foi chamado a assisti-la: enquanto perdia a visão dos olhos, via com o mesmo grau de agudeza com a ponta do nariz e com o lóbulo da orelha esquerda. Igual transposição se havia operado com o olfacto: “o amoníaco, a assa-fétida (i) não lhe produziam no nariz a mais leve reacção, enquanto que outra substância ligeiramente odorífica posta sob o queixo provocava-lhe uma impressão viva e uma mímica característica”... Mais tarde, o olfacto se transportou para o calcanhar e então, quando o odor lhe desagradava, movia a perna da direita para a esquerda e quando lhe era agradável ficava quieta, sorria e respirava com frequência. Em tais condições teve mais tarde fenómenos de lucidez profética: prognosticava com assombrosa exactidão, às vezes com 15 dias ou mais de antecedência, o dia e a hora em que lhe sobreviria o acesso histérico e indicava o metal que o faria cessar e que era insubstituível. Viu de seu leito e a um quilómetro de distância o seu irmão no teatro e predisse a este e a seu pai factos que aconteceriam (e que se verificaram) dois anos depois.

Relacionados com estes factos estão os fenómenos psicométricos e alguns de clarividência (em estado normal ou sonambúlico) em que certos sujeitos sensitivos percebem, vêem, a grandes distâncias e fora das condições visuais ordinárias, mediante o contacto de um objecto com os dedos da mão ou colocando aquele em certas zonas do corpo chamadas hipnógenas, factos ou acontecimentos presentes, passados ou futuros; como igualmente os casos de transmissão de pensamento tomando como meio a mão do transmissor e a do sujeito receptor, fenómeno que temos efectuado centenas de vezes e cujos resultados descartam a hipótese da influência física do operador. Nestes, como nos fenómenos análogos de transposição dos sentidos, não são os olhos que vêem ou, mais exactamente, não se vê por mediação dos olhos e; tais fenómenos contribuem, por si mesmos, para confirmar a tese espiritualista da unidade psíquica, sinestésica, unissensível e uniperceptível que, mesmo nas condições psicofisiológicas normais, possui diferentes formas de percepção, de acordo com a organização sensorial. Em estados supranormais ou mediante faculdades psico-sensitivas excepcionais podem transformar-se umas percepções em outras ou ter o espírito uma percepção psíquica directa, capaz de reduzir os diversos modos de percepção psico-orgânica à unidade perceptiva e perceber factos e acontecimentos que escapam à percepção ordinária.

Referindo-se a esta classe de fenómenos, disse o eminente psicólogo Frederic Myers:

“Poder-se-ia perguntar até que ponto os órgãos terminais especializados participam dessa actividade perceptiva exagerada e a resposta a esta pergunta nos permitiria elucidar o fenómeno, conhecido sob o nome de transposição dos sentidos e que ocupa o termo médio entre a hiperestesia e a telestesia ou clarividência. Já se sabe em que consiste esse fenómeno: é, por assim dizer, a substituição de um órgão dos sentidos por outro, como, por exemplo, a visão que sentem por meio da extremidade dos dedos.

“Por acaso se trata de uma verdadeira sugestão e um órgão é realmente capaz de assumir uma função que não lhe pertence e que é atribuição de outro órgão definido e especializado para esta função? Eu não creio. Segundo o meu sentir, a extremidade dos dedos não constitui, de maneira alguma, nos casos de que se trata, um órgão da visão, como as zonas chamadas hipnógenas não constituem órgãos destinados a transmitir a sugestão hipnótica. Mas aqui trata-se de um estado de telestesia que não implica necessariamente a percepção pelo organismo corporal; unicamente, o espírito que percebe deste modo supranormal se encontra sob a impressão de que percebe através de tal ou qual órgão corporal.”

E acrescenta:

Cada sentido especial é ao mesmo tempo um sentido interno e um sentido externo; implica no trajecto cerebral de uma capacidade desconhecida e em órgãos terminais cuja capacidade se presta mais à mensuração. A relação entre a visão interna, mental, como a percepção psicológica não-sensorial, por sua parte, com a visão ocular, por outro, constitui precisamente um dos pontos cujo exame profundo parece necessário.” (ii)

Por seu lado, diz o célebre antropólogo italiano Cesare Lombroso:

“A verdade é que não se pode dar uma explicação científica (isto é, dentro da psicologia empírica) destes factos, que entram no limiar daquele mundo que todavia deve chamar-se oculto, porque não foi explicado.”

Mas acrescenta em nota à parte:

“Agora, com as noções acerca do duplo, pode-se pretender uma explicação!” (iii)

Esse duplo – chamado corpo astral pelos vedas, teósofos e ocultistas e, perispírito pelos espíritas – que em princípio se considerou mera afirmação religiosa, mais tarde como uma hipótese racional, para explicar certos fenómenos psíquicos, é hoje uma verdade positiva, demonstrada experimentalmente pela verdadeira ciência da alma e que o Espiritismo oferece como um meio de explicação dos fenómenos metapsíquicos, da possibilidade da percepção sem órgãos materiais e das relações do mundo da matéria e o mundo do espírito.

/...
(i) Planta de cheiro nauseante. (N.T.)
(ii) A Personalidade Humana, págs. 146 e 163.
(iii) Hipnotismo e Espiritismo, pág. 16.


Manuel S. PorteiroEspiritismo Dialéctico, CAPÍTULO I Fundamentos científicos da concepção neo-espírita da vida e da história – Que somos? (VIII), 8º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Personajes, Pintura de Josefina Robirosa)

sexta-feira, 27 de setembro de 2019

Corpo fluídico | agénere ou aparição tangível ~


Capítulo Segundo

KARDEC E O CORPO FLUÍDICO (V)

Em reforço do corpo carnal do Cristo, vem o Codificador com os aspectos morais "do mais alto poder". Vejamos:

"Se durante a sua vida Jesus tivesse estado nas condições dos seres fluídicos, não teria experimentado nem a dor nem nenhuma das necessidades do corpo; supor que ele assim era, será retirar-lhe todo o mérito da vida de provações e de sofrimentos que havia escolhido como exemplo de resignação. Se tudo nele eram só aparências, todos os actos de sua vida, o anúncio reiterado de sua morte, a cena dolorosa do Jardim das Oliveiras, a sua oração a Deus para que afastasse o cálice dos seus lábios, a sua paixão, a sua agonia, tudo, até ao seu último grito no momento de entregar o Espírito, não teria sido senão um vão simulacro, para enganar com relação à sua natureza e fazer crer no sacrifício ilusório de sua vida, uma comédia indigna de um homem honesto e simples, quanto mais e por mais forte razão, de um ser também superior; numa palavra, teria abusado da boa fé dos seus contemporâneos e da posteridade. Tais são as consequências lógicas desse sistema, consequências que não são admissíveis, pois resultariam em diminui-lo moralmente, em lugar de o elevar.

"Jesus teve, – conclui Kardec – pois, como todos, um corpo carnal e um corpo fluídico, o que é confirmado pelos fenómenos materiais e pelos fenómenos psíquicos que assinalaram a sua vida."

Ao passar da análise puramente física para a análise das consequências morais que resultariam do corpo fluídico de Jesus, Kardec também muda de tom. Até então frio, ele é ai veemente. Nasce-lhe da pena um como que brado de alerta: a vida de Jesus teria sido apenas "um vão simulacro", se tivesse tido um corpo fluídico! Não se pode admitir isso, sob pena de "diminui-lo moralmente". A grande força de Jesus – crê Kardec –, está na fusão da sabedoria e da prática, do conhecimento e do exemplo, do crer e fazer. Assim, pois, acreditar no seu corpo fluídico "será retirar-lhe todo o mérito da vida de privações e de sofrimentos que havia escolhido como exemplo de resignação". "Meu Pai, disse Jesus, se possível, afaste de mim esse cálice". Ora, essa frase não teria sentido para o Codificador caso fosse Cristo um agénere, assim como essa outra: "Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste", dita no momento de sua morte; e como inúmeras mais. A possibilidade de que Jesus seja diminuído moralmente assusta Kardec ao ponto de fazê-lo escrever com veemência: "uma comédia indigna de um homem honesto e simples!" (...) "Tais são as consequências lógicas desse ensino", fala forte, compreendendo que o Jesus agénere "teria abusado da boa fé dos seus contemporâneos e da posteridade", fingindo situações e sofrimentos, pois "não teria experimentado nem a dor nem nenhuma das necessidades do corpo".

No pensamento de Kardec, as coisas passam-se de maneira simples: houve um Cristo agénere, aquele que "ressuscitou" depois da morte e apareceu a Maria Madalena no sepulcro e aos dois discípulos na estrada de Emaús e não foi logo reconhecido por eles, precisando recorrer a detalhes para ser descoberto. Esse o agénere perfeito, de curta duração, que não podia ser morto, apresentando-se na sua realidade de depois da morte.

Kardec, porém, não pára aí. Ei-lo seguro na sua posição contrária ao corpo fluídico:

"As aparições de Jesus depois da sua morte são narradas por todos os evangelistas com detalhes circunstanciados que não permitem duvidar da realidade do facto. Aliás, elas se explicam perfeitamente pelas leis fluídicas e pelas propriedades do perispírito, e nada apresentam de anómalo com os fenómenos do mesmo género, dos quais a História antiga e contemporânea oferece numerosos exemplos, sem exceptuar a tangibilidade. Se se observam as circunstâncias que acompanharam as suas diversas aparições, reconhecem-se nelas todos os caracteres de um ser fluídico. Aparece inopinadamente e desaparece da mesma forma; é visto por uns e por outros sob a aparência que não o tornam reconhecido, nem mesmo pelos seus discípulos; mostra-se em lugares fechados, onde um corpo carnal não penetraria; a sua linguagem não tem a vivacidade de um ser corporal; tem o tom breve e sentencioso, particular aos Espíritos que se manifestam dessa maneira; todas as suas atitudes, numa palavra, têm qualquer coisa que não é do mundo terrestre. A sua apresentação causa ao mesmo tempo surpresa e pavor; os seus discípulos, ao vê-lo, não lhe falam com a mesma liberdade; sentem que já não é o homem.

"Jesus mostrou-se, pois, – afirma Kardec – com o seu corpo perispirital, o que explica não ter sido visto por aqueles a quem não desejava mostrar-se; se estivesse no seu corpo carnal, teria sido visto por todos, como quando era vivo. Desde que os seus discípulos ignoravam a causa primária do fenómeno das aparições, não se apercebiam dessas particularidades, as quais provavelmente não notavam; viam Jesus e o tocavam, o que para eles deveria ser o seu corpo ressuscitado."

Os detalhes nesse particular do Cristo desencarnado, apresentando-se aos discípulos na condição de agénere, são relacionados por Kardec com muita clareza. É a voz que soa diferente, é a linguagem que não tem vivacidade, é o tom breve e sentencioso, é a surpresa e o pavor de sua aparição até em lugares fechados. Tudo, enfim, que um agénere mostra nas suas manifestações.

O outro Cristo, aquele que viveu durante trinta e três anos até desencarnar na cruz, era de carne, esteve convicto disso o Codificador.

Compreendem-se, assim, os motivos que levaram Kardec a não avalizar a obra "Os Quatro Evangelhos" nem permitir a presença de Roustaing e da médium Emilie Collignon na "Revista Espírita" depois de 1866. Os motivos são exactamente estes: a base dos "Quatro Evangelhos" é o corpo fluídico de Jesus, no dizer do próprio Codificador; ora, Kardec concluiu que o corpo fluídico era falso, logo "Os Quatro Evangelhos" ficaram sem razão de ser ou, como diria ele, o edifício ruiu. Junte-se a isso o factor moral consequente do corpo fluídico, talvez o ponto que mais chamou à atenção de Kardec. É, pois, certo que Kardec não aceitou a obra roustainguista e não viu em Roustaing, como também na médium Collignon, pelo que fizeram em "Os Quatro Evangelhos", os seus muito importantes colaboradores, ficando reduzida a mera opinião individual dos Espíritos que a assinaram, ''a Revelação da Revelação". Só isso.

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Wilson GarciaO Corpo Fluídico, Capítulo Segundo – KARDEC E O CORPO FLUÍDICO 5 de 5, 7º fragmento desta obra.
(imagem de contextualização: Sem título, pintura de Josefina Robirosa)