~~~~~ A Auvergne. Vercingétorix, Gergovie e Alésia (II)
Numa obra recente chamada L'Initiation de Vercingétorix, (i) o Sr. André Lebey forneceu-nos detalhes muito interessantes
sobre a educação religiosa e política do jovem chefe arvernense. Inicialmente,
ele apresentou-nos muitas cenas vivas e coloridas nas quais os nobres chamados
“colares de ouro”, responsáveis pela morte trágica de Celtil, se entregaram a
esse género de intriga que pôs a perder a Gália, zelando com um ódio ciumento pelo progresso do jovem
varão e temendo represálias. Depois, é a viagem de Vercingétorix, que atravessou as vastas solidões silvestres
que separam as tribos, visitando a floresta sagrada dos carnutos, onde ele
participa da grande cerimónia anual, presidida pelo arquidruida e pela grande sacerdotisa da Ilha de
Sein; e a sua visita a Carnac, onde ele cumpre outros ritos. Ali, nas horas do
crepúsculo, ele escuta o canto dos bardos, afirmando o Deus supremo:
“Eu creio em um Deus único, eterno, que não se conhece,
que nunca se conhecerá, indubitavelmente. Eu creio naquele que é, naquele que
será, visto que é o mesmo, naquele que se revela e existiu sempre, visto que é
o mesmo ainda. O caminho que leva à sua incógnita começa no sacrifício
voluntário.”
Sob a direcção de um druida, guia tutelar e familiar, ele vai obter nos
santuários os conhecimentos dessa grande doutrina, a propósito da qual Dom Martin pode dizer que “ela não foi tomada
emprestada de nenhum outro povo”. Sem dúvida, nos seus relatos é preciso
levar em conta a fantasia, mas os principais factos repousam numa base
histórica. O que há de mais notável nessa obra são as páginas
consagradas à conversa solene e secreta dos dois druidas sobre a praia bretã,
em frente das ilhas sagradas. Um deles, Divitiac, é admirador e aliado dos
romanos; o outro, Macarven, preceptor de Vercingétorix, somente tem em vista o futuro e a grandeza
da Gália, o desenvolvimento de seu génio livre, independente de toda a
ingerência estrangeira.
Divitiac tinha voltado de uma viagem à cidade Eterna, deslumbrado pela glória política e pelo
esplendor monumental de Roma. Ele sonha com uma aliança que julga necessária para
completar o poderio da Gália e assegurar a sua função no mundo.
Macarven lembra ao seu interlocutor a corrupção, o
cepticismo dos romanos, a sua rapacidade, a sua sede de dominação e, sobretudo,
a astúcia e os ardis com os quais eles estão acostumados. Confiante na religião
e na prática que ama, ele deposita toda a sua esperança numa Gália
independente. Disse ele a Divitiac:
“A minha fé é mais clarividente do que a tua. Para vencer
completamente, seria melhor que ela extinguisse as armas manuais, em nome de
sua superioridade! O triunfo passageiro da matéria sobre o espírito não
pode anular a vida do espírito; ela a consagra ainda mais e a faz ressuscitar
eternamente acima da vitória momentânea do inimigo. Ao contrário,
aceitando, mesmo por astúcia, o conquistador que a domina, ela se humilha pouco
a pouco, ela se entrega. A derrota nobre valeria mais pela sua resistência
legítima do que a vitória brutal do número e da força, unicamente. Eu
somente confio na estrada perpétua, obstinada da consciência. Porque ela é
direita, superior, decisiva entre todos os outros meandros, ela segue mais
adiante. Deixá-la, abdicar dela e se perder, talvez morrer, e da morte da qual
não se levanta. Essa morte engole tudo, é tão pesada que arrasta a alma
esmagada sob o peso de sua nulidade.” (P. 163)
Prosseguindo a sua viagem, Vercingétorix vai consultar as druidisas da Ilha de
Sein.
“Tu vieste – lhe dizem elas – nos interrogar sobre o enigma dos
mundos. Nós e os nossos sacerdotes te respondemos. Tu chegaste, como nós,
ao conhecimento da migração das almas e das leis da vida universal. Agora
uma outra tarefa te será imposta; é preciso, doravante, pensar em Roma. Se tudo
o que viste do império gaulês te tem feito amá-lo, se tu estás ligado à
nossa religião, forte e doce, natural e divina, onde o mal inevitável da vida
se esclarece e se resgata pelo sacrifício, depois atinge ao sublime verdadeiro
pelo culto equilibrado do espírito; se tu te dás conta de que na cidade
fria, sobre a qual vigia o Capitólio, apesar da doçura do clima e da beleza dos
montes Apeninos, vencido, tu regressarás para morrer no ar salubre
da Gergovie, a lição viva do Puy majestoso, a profundeza calmante de suas
florestas, então prepara-te desde agora! Prepara-te para salvar o teu país
e a sua religião, única no mundo, a tua nação de águas claras, de corações
disputadores, mas bons e quentes. Crê em mim, crê nas minhas irmãs, crê
nos nossos sacerdotes; esta virtude particular do nosso solo, onde a raça
céltica atinge a sua mais justa expansão, não existe em outra parte.”
Mais tarde, a grande druidisa conduz o chefe arverne sobre o
promontório que domina o mar de terror, em frente da ilha sagrada. Nesse
tumulto de vagas, que imprime às suas palavras uma espécie de solenidade
fatídica, ela lhe lançou estes dizeres em tom imperioso:
“Eleito por todos, tu serás rei e tu nos pertences. Sob
este gládio cintilante, acima do abismo, símbolo da vontade, além de todas as
agitações humanas, jura dedicar todos os minutos da vida, a tua vida, a tua
morte, tudo o que compõe o teu corpo perecível, como também tudo o que prepara
a tua alma imortal para o cumprimento da libertação.
Tu estás, aqui, no fim do mundo. Se o teu juramento é
sincero, os deuses que velam em torno de nós e nas ilhas, nos confins do
santuário de todos os santuários, te atenderão!” (ii)
E no vento e na tempestade, sob o ruído das ondas
barulhentas, sob o gládio ensanguentado, Vercingétorix jurou!
/…
(i) Editor Albin Michel, rua Huyghens, 22, Paris.
(ii) Ver L’Initiation de Vercingétorix, André Lebey, pp. 191, 201, 205.
LÉON DENIS, O Génio Céltico e o Mundo Invisível,
Primeira Parte Os Países Célticos, Capítulo V – A
Auvergne. Vercingétorix, Gergovie e Alésia 2 de 3, 18º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: A estátua monumental de Vercingétorix, por Aimé
Millet em Alise-Sainte-Reine, Côte-d'Or, région Bourgogne, France)
