domingo, 28 de dezembro de 2025

literatura do além-túmulo ~


Capítulo VIII
 (II)

Resta-me tomar em consideração, uma última obra literária, recebida pela mediunidade há algum tempo, que despertou, na Inglaterra, imenso interesse, assim como suscitou vivas discussões em revistas metapsíquicas, espíritas, religiosas e mesmo em jornais políticos, de forma tal que a primeira edição se esgotou em cinco meses. A obra, que tem o título de Os Escritos de Cléofas, é apresentada como uma “crónica sacra” complementar dos “Actos dos Apóstolos”, que chegaram até nós mutilados em algumas partes, em consequência das perseguições de que foram vítimas os primeiros cristãos.

Os Escritos de Cléofas teriam sido transmitidos directamente (ou, para melhor dizer, “inspirados”) pelo discípulo deste nome, um dos dois ao qual o Cristo apareceu no caminho de Emaús, três dias após a sua morte, e com o qual se sentara para comer na cidade homónima de Emaús.

médium, por intermédio do qual essa notável obra foi ditada, é a srta. Geraldine Cummins, filha do prof. Ashley Cummins, de Cork, Irlanda, doutor em medicina.”

srta. Cummins é uma escritora elegante, autora de um romance e duas comédias escritas em colaboração com terceiros; é, ao mesmo tempo, hábil jogadora de lawn-tenis.

Cito isto com o fim único de mostrar o perfeito equilíbrio de seu corpo e do seu espírito. Em 1923 ela começou a exercitar-se na escrita automática com a sua amiga srta. Gibbes, e em 1925 obtiveram, repentinamente, os primeiros ditados relativos à história do primeiro século da igreja cristã.

A entidade que os ditava assinava “O Mensageiro” e a sua escrita mediúnica se processava com a médium em estado de meio-transe.

O lápis corria muito rapidamente sobre o papel; 1.400 a 1.500 palavras eram ditadas, sem interrupção, numa hora. O ditado, uma vez terminado, era imediatamente retirado, na ignorância do seu conteúdo, com o fim de se evitarem interferências possíveis de sua subconsciência.

Essa medida de precaução não impedia, entretanto, que o escrito continuasse, invariavelmente, no ponto preciso em que fora interrompido. As pessoas que assistiam ao ditado mediúnico não exerciam nenhuma influência sobre ele. A médium acolhia, amavelmente, todos os que desejavam vê-la psicografar e daí as sessões se realizarem, constantemente, na presença de médicos, padres católicos, pastores protestantes, teólogos, historiadores, jornalistas, assim como na de alguns membros das duas sociedades de pesquisas psíquicas: a inglesa e a americana.

A sensação experimentada pela médium, durante o ditado, era a de uma pessoa que sonha, sem ter qualquer influência sobre o desenvolvimento das fantasias sonhadas. Além desta, ela experimentava a impressão de que o seu cérebro era empregue por outra individualidade que dele se servia, de modo análogo ao telegrafista com o seu aparelho ou ao dactilógrafo com a sua máquina de escrever. (*)

(*) Nota de publicação: Pequeno excerto do início do Capítulo, repetido, para melhor contextualização.

Eis pormenores de aparência insignificante e que são, todavia, muito importantes para as pesquisas acerca da natureza da personalidade mediúnica que transmitiu Os Escritos.

Escreve a srta. Gibbes:

“Em diferentes ocasiões, o “Mensageiro” afirmara que “Cléofas” se valia de numerosas crónicas da época. Seria, então, interessante a descoberta de alguma prova tendente a confirmar essa asserção do “Mensageiro”. Estávamos embaraçados com o caso, quando, nos primeiros tempos da transmissão das “mensagens apostólicas”, uma dessas, ora inclusa no capítulo IV, começou, contra o que era hábito, na “primeira pessoa”. A mensagem dizia: “Estive longamente com Pedro e ouvi-lhe atentamente todas as palavras. Ele tinha o poder de transmitir a outros a faculdade das visões e dos sonhos, por intermédio do poder radioso de sua palavra”. Quinze meses depois, quando se preparava a publicação da primeira série de Os Escritos, pediram-se explicações à personalidade comunicante a respeito da frase que acabo de citar. Foi-nos respondido: “É preciso que saibas que, quando estas palavras foram ditadas, a nossa intenção era a de traduzir para a vossa língua, palavra por palavra, uma antiga crónica daquela época, transmitindo-a ao mundo por intermédio desta mão. O nosso intento, porém, se modificou desde que descobrimos que os corpos espirituais das duas senhoras, de que nos servimos, continham poderes suficientes para receber de nós o ditado dos acontecimentos contidos em várias crónicas. Nessas condições, as palavras da introdução, que ditamos há vários meses, não devem ser entendidas como tendo relação connosco, mas com o autor das crónicas de que tiramos as presentes informações que são constituídas de imagens que “Cléofas” colhia na grande “Árvore das Recordações” para transmiti-las em seguida a nós, seus mensageiros, encarregados de transformá-las em termos acessíveis aos homens de vossa geração. De qualquer maneira, seria conveniente suprimir no texto as palavras de introdução, a fim de evitar toda a confusão possível entre as pessoas que lerem essas crónicas.”

A srta. Gibbes continua, dizendo:

“As palavras da introdução foram então suprimidas do texto publicado. Saliento que a explicação acima era absolutamente inesperada por todos nós. Aliás, a julgar pelo imenso material de factos que foi, em seguida, ditado à srta. Cummins, podemos reconhecer o bom fundamento da afirmação supra, segundo a qual se mudará de intenção desde que se verificou a capacidade mediúnica do “instrumento” que se empregava, isto é, que se decidiu ditar à médium uma história dos tempos apostólicos, infinitamente mais longa e mais completa da que antes se havia combinado.” (Light, 1929, pág. 152).

No que concerne aos fins a que se propuseram os espíritos comunicantes, ditando as crónicas em questão, eis o que eles dizem a respeito:

“A nossa intenção é a de semear, no coração dos homens de vossa geração, o gérmen da fé no Divino Mestre, de modo que essa fé possa reflorescer. Esperamos que o coração dos homens de hoje receba a nossa semente! Entre eles, alguns há que julgam que o Cristo está morto! Absolutamente. Isto não é verdade. Ele vive mais do que nunca e reviverá nos corações e nos espíritos das gerações futuras com mais esplendor do que antes!” (Light, 1929, pág. 147).

Tais são as suas intenções, tais as suas esperanças. Todavia, curioso e interessante é saber, a esse respeito, a opinião de um outro espírito-guia da srta. Cummins, ao qual esta última se dirigiu para ter informações referentes ao “Mensageiro” que ditava as crónicas sacras. O espírito-guia respondeu:

“Desde há muito que uma falange de espíritos envidava esforços para descobrir um sensitivo capaz de receber, através do mecanismo de seu cérebro, a história das origens do cristianismo. Os membros desse grupo pensavam que não poderia haver expediente melhor para encher o horrível vácuo espiritual que existe nas almas da actual geração, vácuo horrível quando é observado do mundo espiritual. Cléofas e os seus auxiliares se propuseram, então, enviar aos humanos o remédio de que tinham necessidade, revelando-lhes a história do período apostólico. Na minha opinião, eles não consideraram, suficientemente, que os horizontes mentais da humanidade se modificaram bastante depois da época em que viveram na Terra. Não perceberam que, na presente sociedade humana, não há quase lugar para a fé, pois a humanidade quer atingir o espiritual através do material.” (Light, 1928, pág. 149).

Resulta daí que o espírito-guia da srta. Cummins duvida do sucesso da nobre tentativa de Cléofas e dos seus coadjutores, que se propuseram transmitir aos humanos crónicas autênticas dos tempos apostólicos, na esperança de salvar, assim, a presente humanidade, reconduzindo-a à fé dos cristãos primitivos no seu Mestre. Muitos dos meus leitores compartilham, sem dúvida, da opinião do espírito-guia da srta. Cummins, mas isto não tem importância alguma para o nosso ponto de vista e, unicamente, serve para confirmar uma verdade conhecida desde há muito, isto é, que ninguém se torna omnisciente porque desencarnou, mas que o espírito fica, intelectualmente, no ponto em que estava por ocasião da morte. Não tardam esses seres em assimilar grande número de conhecimentos relativos ao meio espiritual em que se encontram, mas não se despojam, senão muito lentamente, das concepções intelectuais que possuíam e só vagamente entrevêem as verdades espirituais a respeito das quais, assim no além como no mundo dos vivos, cada um tem o dever de exercer livremente o seu discernimento. Tal facto dá lugar, como na Terra, a várias opiniões mais ou menos em desacordo entre si.

Com isto, espero ter citado e comentado, suficientemente, o caso em questão, para dele fazer sobressair o grande valor teórico a favor da interpretação espírita dos factos. O caso é, aliás, semelhante ao de Patience Worth e não lhe é, de modo algum, inferior quanto à natureza maravilhosa do texto obtido mediunicamenteA diferença entre os dois casos é de natureza secundária e consiste em que nas comunicações de Patience Worth se encontram dados – como a sua conversa constante em um dialecto arcaico – que podem servir indirectamente, mas eficazmente, para provar a independência intelectual e, em certo ponto de vista, a própria identificação intelectual da entidade comunicante, ao passo que, no caso de Cléofas, não se vêem aparecer dados desta natureza.

Em todo o caso, isso não apresenta uma importância teórica apreciável, porque, nos dois casos, a eficácia demonstrativa dos factos nada tem que ver com a questão de identificação pessoal, para se concentrar, unicamente, na natureza intrínseca do material psicográfico obtido, cuja proveniência é inexplicável perante toda a hipótese naturalista. Com efeito, mesmo no caso de Cléofas, as hipóteses da telepatia, da criptomnesia, da psicometria, não chegam, de maneira alguma, a considerar o conjunto dos factos, sobretudo se considerando-se não se tratar de indicações isoladas ou de acontecimentos fragmentários susceptíveis de serem atribuídos às emergências da subconsciência da médium (criptomnesia) ou bem ao facto de a médium tê-las captado nas subconsciências dos assistentes ou dos ausentes (clarividência telepática).

Não se trata de “visões psicométricas” em relação com um objecto apresentado ao médium sensitivo e, por consequência, circunscritas pelas “influências” existentes em estado latente no próprio objecto, mas, ao contrário, trata-se de crónicas orgânicas, isto é, de uma narração ordenada de acontecimentos, com numerosas noções geográficas, topográficas, históricas, filológicas, ignoradas da médium e das quais se verificou, em seguida, a autenticidade.

Trata-se, finalmente, em grande parte, de episódios que, referidos obscuramente nos “Actos dos Apóstolos”, agora, ao contrário, são narrados minuciosamente em Os Escritos de Cléofas, o que torna, pela primeira vez, inteligível o texto escriturístico.

Em suma, trata-se de uma obra histórica ordenada, completa, vital, que já se compõe de três grossos volumes e ainda não está terminada. Não é certamente na subconsciência da médium que se deverá buscar a génese de um trabalho que apresenta uma importância real, histórica e religiosa, no qual se encontram dados, indicações, minúcias, que ninguém poderia focalizar sem ser especializado nas ciências histórica, geográfica, teológica e filológica.

Nestas condições, só resta uma coisa a fazer: aceitar, ainda esta vez, em nome da lógica e do bom senso, as explicações fornecidas pelas personalidades mediúnicas que ditaram a obra em questão, isto é, concordar que essas personalidades são espíritos de defuntos que relatam os acontecimentos dos quais foram testemunhas ou que se produziram na época e na região em que viveram.

/…

Ernesto Bozzano, Literatura do Além-túmulo  Capítulo VIII (2 de 2) 12º fragmento desta obra.
(imagem de contextualização: Les Fleurs du Lac | 1900, tempera no painel de Edgard Maxence)

sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

belo maio | bela como os lírios ~


IV

A mediunidade de Jeanne d’Arc; o que eram as suas vozes; fenómenos análogos, antigos e modernos


De pé, banhada em pranto, escuta atentamente

Alguma voz do céu, dolente.

                          Paul Allard

Os fenómenos de visão, de audição, de premonição, que marcam a vida de Jeanne d'Arc deram lugar às mais diversas interpretações. Entre os historiadores, uns não viram neles mais do que casos de alucinação; outros chegaram a falar de histeria ou neurose. Alguns lhe atribuíram carácter sobrenatural e miraculoso.

O fim capital desta obra é analisar tais fenómenos, demonstrar que são reais, que obedecem a leis por muito tempo ignoradas, mas cuja existência se revela, a cada dia, de modo mais imponente e mais preciso.

À medida que se dilata o conhecimento do Universo e do ser, a noção do sobrenatural recua e se apaga. Sabe-se hoje que a Natureza é una; porém, que na sua imensidade encerra domínios, formas de vida, que durante largo tempo nos escaparam aos sentidos. Sendo estes, como são, extremamente limitados, não nos deixam perceber senão as faces mais grosseiras e elementares do Universo e da vida. A sua pobreza e insuficiência se manifestaram sobretudo a partir da invenção dos poderosos instrumentos de óptica, o telescópio e o microscópio, que alargaram em todas as direcções o campo de nossas percepções visuais. Que sabíamos dos infinitamente pequenos, antes da construção dos aparelhos de ampliação? Que sabíamos das inúmeras existências que pululam e se agitam em derredor de nós e em nós mesmos?

Entretanto, isso constitui apenas os baixos da Natureza e, por assim dizer, o substractum da vida. Para o alto sucedem-se e se escalonam planos sobre os quais se graduam existências cada vez mais subtis, etéreas, inteligentes, com um carácter ainda humano; depois, em certas alturas, angélicas, pertencentes sempre, tanto pelo exterior, como pela essência, aos estados imponderáveis da matériaestados que, sob muitos aspectos, a Ciência hoje reconhece, como, por exemplo, na radioactividade dos corpos, nos raios de Röntgen, em todo o conjunto das experiências realizadas sobre a matéria radiante.

Além dos visíveis e tangíveis, que nos são familiares, sabemos agora que a matéria também comporta múltiplos e vários estados invisíveis e impalpáveis, que ela pouco a pouco se apura, se transforma em força e luz, para tornar-se o éter cósmico dos físicos. Em todos esses estados, debaixo de todos esses aspectos, continua sendo substância em que se tecem inúmeros organismos, formas de viver de uma inimaginável tenuidade. Num largo oceano de matéria subtil, intensa a vida palpita por sobre e em torno de nós. Para lá do círculo apertado das nossas sensações, cavam-se abismos, desdobra-se um vasto mundo desconhecido, povoado de forças e de seres que não percebemos, porém que, todavia, participam de nossa existência, de nossas alegrias e sofrimentos, e que, dentro de determinados limites, nos podem influenciar e socorrer. Nesse mundo incomensurável é que uma nova ciência se esforça por penetrar.

Numa conferência que fez, há anos, no Instituto Geral Politécnico, o Doutor Duclaux, director do Instituto Pasteur, se exprimia nos seguintes termos: “Esse mundo, povoado de influências que experimentamos sem as conhecer, penetrado de um quid divinum que adivinhamos sem lhe percebermos as minúcias, é mais interessante do que este em que até agora se confinou o nosso pensamento. Tratemos de abri-lo às nossas pesquisas: há nele, por fazerem-se, infindáveis descobertas, que aproveitarão à Humanidade.”

Oh! maravilha! nós mesmos pertencemos, por uma parte do nosso ser, a mais importante, a esse mundo invisível que dia a dia se desvenda aos observadores atentos. Existe em todo o ser humano uma forma fluídica, um corpo imperceptível, indestrutível, imagem fiel do corpo físico, do qual este último é apenas o revestimento transitório, o estojo grosseiro, dispondo de sentidos próprios, mais poderosos do que os do invólucro material, que não passam de enfraquecido prolongamento dos primeiros. (i)

(i) A existência do duplo eu, ou fantasma dos vivos, está firmada por uma infinidade de factos e de testemunhos. Essa dupla personalidade pode separar-se do envoltório carnal durante o sono, quer naturalmente, quer provocado, e manifestar-se à distância. Os casos de telepatia, os fenómenos de desdobramento, de exteriorização, de aparição de vivos em pontos afastados do lugar em que repousam, relatados tantas vezes por F. MyersC. Flammarion, professor C. Richet, Drs. Dariex e Maxwell, etc., são a demonstração experimental mais evidente daquela existência. Os anais da Sociedade de Pesquisas Psíquicas de Londres, constituída pelos mais eminentes sábios da Inglaterra, se mostram repletos de factos desse género. Ver, para maiores minudências: Léon DenisDepois da Morte (edição de 1909, “O Perispírito, ou corpo fluídico”, cap. XXI, págs. 226 e segs.); No Invisível (“O Espírito e a sua forma”, cap. III, págs. 31 e segs.); G. DelanneLes fantômes des vivants.

No corpo fluídico está a verdadeira sede das nossas faculdades, da nossa consciência, do que os crentes de todas as eras chamaram almaA alma não é uma entidade metafísica, mas, sim, um centro imperecível de força e de vida, inseparável da sua forma subtilíssima. Preexiste ao nosso nascimento, bem como à nossa morte, não tem efeito sobre eles. Vem a encontrar-se, no além-túmulo, na plenitude das suas aquisições intelectuais e morais. Tem por destino continuar, através do tempo e do espaço, a evolver para estados sempre melhores, sempre mais iluminados pela luz da justiça, da verdade e da beleza eterna. O ser, indefinidamente perfectível, colhe aumentados, quando no estado psíquico, os frutos do trabalho, dos sacrifícios e, das provações de todas as suas existências.

Os que viveram entre nós, e continuam a sua evolução no Espaço, não se desinteressam dos nossos sofrimentos e das nossas lágrimas. Dos páramos superiores da vida universal manam continuamente sobre a Terra correntes de força e de inspiração. Vêm daí as centelhas inesperadas do génio, os fortes sopros que passam sobre as multidões, nos momentos decisivos; daí também o amparo e o conforto para os que vergam ao peso do fardo da existência. Misterioso laço une o visível ao invisível. Relações de diversa ordem se podem estabelecer com o Além, mediante o auxílio de certas pessoas especialmente dotadas, nas quais os sentidos profundos, que jazem adormecidos em todo o ser humano, são capazes de despertar e entrar em acção desde a vida terrena. A esses auxiliares é que damos o nome de médiuns. (ii)

(ii) Ver: Léon DenisDepois da Morte, edição de 1959, capítulo II, e No Invisível, caps. IV e V.

No tempo de Jeanne d'Arc essas coisas não eram compreensíveis. As noções sobre o Universo e sobre a verdadeira natureza do ser permaneciam ainda confusas e, em muitos pontos, incompletas, ou erróneas. Entretanto, caminhando, há séculos, de conquista em conquista, mau grado às suas hesitações e incertezas, o espírito humano já hoje começa a levantar o voo. O pensamento do homem se eleva, acabamos de vê-lo, acima do mundo físico e, mergulha nas vastas regiões do mundo psíquico, onde principia a entrever o segredo das coisas, a chave de todos os mistérios, a solução dos grandes problemas da vida, da morte e do destino.

Não esquecemos ainda a controvérsia de que estes estudos foram objecto, a princípio, nem as críticas acerbas que ferem os que, corajosamente, persistem em semelhantes pesquisas, para manter relações com o invisível. Mas, não zombaram também, até no seio das sociedades sábias, de muitas descobertas que, mais tarde, se impuseram como outras tantas refulgentes verdades? O mesmo se dará com a existência dos Espíritos. Um após outro, os homens de ciência são obrigados a admiti-la e, frequentemente, por efeito de experiências destinadas a demonstrar-lhes a falta de fundamento, Sir W. Crookes, o célebre químico inglês, que pelos seus compatriotas é igualado a Newton, pertence a esse número. Citemos também Russell Wallace e Oliver LodgeLombroso, na Itália; os doutores Paul Gibier e Dariex, na França; na Rússia, o Conselheiro de Estado Aksakof ; na Alemanha, o barão du Prel e o astrónomo Zöllner(iii)

(iii) Conhecem-se as experiências do ilustre físico Sir W. Crookes, que, durante três anos, obteve em sua casa materializações do Espírito de Katie King, em condições de rigorosa fiscalização. Crookes, falando dessas manifestações, declarava: “Não digo que isto é possível; digo: isto é um facto.”

Pretendeu-se que ele se retratasse. Entretanto, W. Stead escrevia ao New York American; “Londres, 7 de fevereiro de 1909. Estive com Sir W. Crookes, no Ghost Club (Clube dos Fantasmas), onde fora jantar, e ele me autoriza a dizer o seguinte: “Depois das minhas experiências acerca do Espiritismo, começadas há trinta anos, nenhuma razão encontro para modificar a minha opinião de outrora”.

Oliver Lodge, reitor da Universidade de Birmingham, membro da Academia Real, escreveu: “Fui levado pessoalmente à certeza da existência futura por provas assentes em bases puramente científicas.”

Frederic Myers, o professor de Cambridge, que o Congresso Oficial e Internacional de Psicologia, de Paris, em 1900, elegera seu presidente honorário, no magnífico livro A Personalidade Humana, chega à conclusão de que do além-túmulo nos vêm vozes e mensagens. Falando do médium Mrs. Thompson, escreve: “Creio que a maior parte dessas mensagens vêm de Espíritos que se servem temporariamente do organismo dos médiuns para no-las transmitir.”

O célebre professor Lombroso, de Turim, declara na Lettura: “Os casos de habitações em que, durante anos, se reproduzem aparições ou ruídos, observados na ausência de médiuns, coincidindo com a narração de mortes trágicas, depõem a favor da acção dos defuntos.” – “Trata-se amiúde de casas desabitadas, onde tais fenómenos se produzem às vezes durante muitas gerações e mesmo durante séculos.” (Ver: Annales des Sciences Psychiques, fevereiro de 1908.)

Compreende-se a importância de tais testemunhos, que poderíamos multiplicar, se o quadro desta obra no-lo permitisse.

Todo o homem sério, que se conserva a igual distância de uma credulidade cega e de uma não menos cega incredulidade, é forçado a reconhecer que as manifestações de que aqui se trata ocorreram em todos os tempos. Encontrá-las-eis em todas as páginas da História, nos livros sagrados de todos os povos, assim entre os videntes da Índia, do Egipto, da Grécia e de Roma, como entre os médiuns de nossos dias. Os profetas da Judeia, os apóstolos cristãos, as druidisas da Gália, os inspirados das Cevenas, na época dos Camisards, tiraram as suas revelações da mesma fonte que a nossa boa virgem lorena.

mediunidade sempre existiu, pois que o homem sempre foi espírito e, como espírito, manteve em todas as épocas uma brecha aberta sobre o mundo inacessível aos nossos sentidos ordinários.

Constantes, permanentes, tais manifestações, em todos os meios, se dão sob todas as formas, das mais comuns às mais grosseiras, como as das mesas falantes, dos transportes de objectos sem contacto, das casas assombradas, até aos mais delicadas e sublimes, como o êxtase ou as altas inspirações, tudo conforme à elevação das inteligências que intervêm.

/...

“Próximo da casa de Jeanne d'Arc passava uma vereda que, atravessando tufos de groselheiras, subia o outeiro a cujo cimo, coberto de mata, era dado o nome de Bois Chesnu. A meia encosta, debaixo de grande faia isolada, borbotava uma fonte, objecto de culto tradicional. Nas suas águas claras, desde tempos imemoráveis, buscavam a cura os enfermos que a febre atormentava... Seres misteriosos, anteriores entre nós ao cristianismo e que os camponeses nunca assentiram em confundir com os espíritos infernais da legenda cristã, os génios das águas, das pedras e dos bosques, as senhoras fadasfrequentavam a cristalina fonte e a faia secular, que se chamava o "Belo Maio". Ao entrar a primavera, vinham as donzelas dançar em baixo da árvore de Maio, “bela como os lírios” e pendurar-lhe nos galhos, em honra das fadas, grinaldas que desapareciam durante a noite, segundo era voz geral”. (*)

                                     Henri Martin – Histoire de France (*), t. VI, páginas 138 e 193.

Léon Denis, Jeanne d’Arc Médium, Primeira Parte – Vida e mediunidade de Jeanne d'Arc, IV A mediunidade de Jeanne d’Arc; o que eram as suas vozes; fenómenos análogos, antigos e modernos (1 de 6), 6º fragmento desta obra.
(imagem de contextualização: L'Annonciation, 1901, pintura de Edgard Maxence)

quinta-feira, 6 de novembro de 2025

agonia das religiões ~


Deus | Espírito e Matéria

Para melhor se entender a expressão Deus, em espírito e matéria, que usei no capítulo anterior, – e melhor se entender também o problema da experiência de Deus no tempo – julgo necessário tratar dos princípios da cosmogonia espírita, na qual se integra a teoria da génese e a formação do espírito. O contra-senso da afirmação bíblica de que Deus criou o mundo do nada, que tanto trabalho deu aos teólogos, é explicado na revelação espírita pela teoria da Trindade Universal. Deus, o Ser Absoluto, é a fonte de toda a Criação. Existindo essa fonte solitária, é logicamente necessário admitir-se um meio em que ela existia. Esse meio, que seria o espaço vazio, foi considerado o nada. Para tratar do Absoluto num plano relativo, como o nosso, é preciso usar expressões relativas.

A concepção espírita do mundo não admite a existência do nada. O Universo é pleno – é uma plenitude – não havendo nele nenhuma possibilidade de vácuo. Essa teoria espírita da plenitude está hoje a ser confirmada pela pesquisa científica do Cosmos. As regiões siderais que poderíamos julgar vazias mostram-se como campos de forças, carregadas de energias que escapam aos nossos sentidos. Esse pré-universo energético seria o que Buda definiu como o mundo sempre existente, que nunca foi criado. Pitágoras, na sua filosofia matemática, considerou Deus como o número 1 que desencadeou a década. O UM, número primeiro, existia imóvel e solitário no Inefável (naquilo que para nós seria o nada) e nesse caso o nada seria a imobilidade absoluta. Houve em certo momento cósmico, não se pode saber como nem porquê, um estremecimento do número 1, que assim produziu o 2 e a seguir os demais números até ao 10. Completando-se a década, tivemos o Todo, a Criação se fizera por si mesma, o Universo surgira e com ele o tempo. É claro que não dispomos de recursos para investigar as origens primeiras e, essas teorias não passam de tentativas de explicação lógica, destinadas a proporcionar-nos uma base alegórica ou hipotética para uma possível concepção do mistério da Criação.

Espiritismo sustenta a possibilidade de conhecermos a verdade a respeito, quando houvermos desenvolvido as potencialidades espirituais que nos elevarão acima da condição humana. Enquanto não chegarmos lá, essas hipóteses devem servir para mostrar-nos que dispomos de capacidade para ir além dos limites do pensamento dialéctico, além do conhecimento indutivo baseado no jogo dos contrastes.

Assim sendo, não podemos aceitar a alegoria bíblica da Criação à letra, como verdade revelada, nem contestá-la orgulhosamente com a arrogância materialista. Na posição do crente temos a ingenuidade e na posição do materialista temos a arrogância do homem, esse pedacinho de fermento pensante, como dizia o Lobo do Mar de Jack London. O espiritualismo simplório e o materialismo atrevido são os dois pólos da estupidez humana. O bom-senso, que é a regra de ouro do Espiritismo, nos livra da estupidez e oferece-nos a possibilidade de chegar à sabedoria sem muito barulho e disputas inúteis.

Partindo do pressuposto de que o mundo deve ter uma origem e aceitando a ideia de que foi criado por Deus – pois assim o afirmam todos os Espíritos Superiores que se referem a este assunto e que revelam uma sabedoria superior à nossa –, Espiritismo admite que a fonte inicial é uma inteligência cósmica. Mas porque uma inteligência e não apenas um centro de forças casualmente aglutinadas no caos primitivo? Porque o Universo se mostra organizado inteligentemente em todas as suas dimensões, até onde podemos observá-lo. Seria ilógico, absurdo, supormos que essa inteligência da estrutura universal, que se manifesta em minúcias ainda inacessíveis à pesquisa científica, desde as partículas atómicas até aos genes biológicos e aos seus códigos admiráveis, seja o resultado de um simples acaso. Nenhuma cabeça bem-pensante poderia admitir isso. A teoria espírita – teoria e não hipótese, pois que já provou a sua validade através de todas as pesquisas possíveis – pode ser resumida neste axioma doutrinário: Não há efeito inteligente sem causa inteligente e, a grandeza do efeito corresponde à grandeza da causa.

Colocando assim o problema, a sua equação torna-se clara. O Espiritismo elabora-a em termos dialécticos: a fonte inicial, Deus, existindo no meio do inefável, constituído de matéria dispersa no espaço, emite o seu pensamento criador que aglutina e estrutura a matéria. Temos assim a Trindade Universal que as religiões apresentam de maneira antropomórfica. Essa trindade não é formada de pessoas, mas de substâncias regidas por uma possível Inteligência, constituindo-se assim: Deus, Espírito e Matéria.

O espírito que a constitui não é uma entidade definida, mas o pensamento de Deus que se expande no Cosmos sobre a forma de substância. Essa substância espiritual penetra o oceano de matéria rarefeita, dispersa e, aglutina as suas partículas, estruturando-as para a formação das coisas e dos seres. Da tese espiritual e da antítese material resulta a síntese do real, do mundo criado por um poder inteligente.

Qual a razão de ser, o objectivo, a finalidade e o sentido da Criação? Espiritismo admite que não podemos conhecer tudo isso no nosso actual estágio de desenvolvimento, mas podemos, através da nossa inteligência humana, indagar, perquirir, pesquisar e chegar a resultados logicamente possíveis. Os dados científicos da Geologia, por exemplo, mostram-nos a Terra como o resultado de um longo processo de formação, no qual é evidente a intenção de atingir um tipo de perfeição em todas as coisas e todos os seres. As formas imprecisas e grotescas das primeiras idades do planeta se vão aprimorando ao longo do tempo, numa sucessão nítida de fases de elaboração caprichosa. Os dados da Antropologia revelam-nos o aperfeiçoamento do homem nas civilizações sucessivas, a partir das selvas. Os dados da Psicologia desvendam-nos os anseios da alma humana, na busca incessante de transcendência, de superação do seu condicionamento orgânico-material. Os dados da Estética revelam-nos o anseio de belezaperfeição e equilíbrio que rege o desenvolvimento individual e colectivo, o indivíduo e a espécie.

Gustave Geley, no seu livro Do Inconsciente ao Consciente, propõe-nos uma visão dialéctica do mundo em que as coisas se transformam em seres e estes avançam em direcção à consciência. É a mesma visão da teoria dialéctica de HegelOliver Lodge considera o homem actual como um processo em desenvolvimento. O Existencialismo, nas suas várias escolas, encara o homem como um projecto, um vector que se lança na existência em busca da transcendência. Para Sartre, o homem frustra-se nessa busca e se nadifica na morte, se reduz ao nada. Para Heidegger, o homem realiza-se no trajecto existencial e se completa na morte. Para Jaspers, o homem consegue transcender-se em dois sentidos: o horizontal, na relação social, e o vertical, na busca de Deus. Para Léon Denis, todo o processo de transformação se explica por esta frase genial: A alma dorme na pedra, sonha no vegetal, agita-se no animal e acorda no homem. Para Kardec, a transcendência humana leva-nos ao plano da angelitude, pois os anjos nada mais são do que espíritos que superaram as condições inferiores da humanidade.

Temos assim o Universo, com a multiplicidade dos seus mundos rolantes no espaço sideral, dos seus sóis e das suas galáxias, como um fluxo permanente de forças em transformação incessante, objectivando a formação dos seres e a elevação destes a condições divinas. Só a hipótese de Sartre admite a inutilidade como finalidade universal.

Os Espíritos Superiores, nas suas comunicações, desmentem e rejeitam essa hipótese negativa, sustentando a natureza teleológica do Universo. Consideram a Criação como um gigantesco processo que só pode ser definido corno o fiat na sua fase inicial, quando a Mente Suprema emite o seu pensamento para unir essa emanação do seu espírito à matéria dispersa. Depois desse instante criador desencadeia-se o tempo e é nele que o processo criador vai desenvolver-se lentamente através dos milénios. E a superioridade desses Espíritos não é avaliada por medidas ou métodos místicos, mas por verificações racionais. Os Espíritos Superiores não ensinam apenas através de ideias, mas também de factos. Provam, através da produção dos fenómenos paranormais, que possuem uma ciência muito superior à nossa, um conhecimento do espírito e da matéria que estamos longe de atingir e uma compreensão de Deus que supera em muito as nossas interpretações antropomórficas da Inteligência Criadora. Além disso, as suas previsões se confirmam de maneira rigorosa, demonstrando que possuem recursos de futurologia muito mais avançados e seguros que os nossos. As suas proposições são ainda relacionadas com os nossos conhecimentos, completando-se na medida em que o nosso adiantamento permita que nos falem a respeito sem provocar dúvidas ou confusões na nossa mente.

A relação de Deus com o Universo não é apresentada em termos de mistério, mas de realidade verificável. Na Terra, o homem representa o ponto culminante do processo evolutivo. A criação do homem à imagem e semelhança de Deus explica-se em termos espirituais. Porque o homem é o único ser terreno que possui mente criadora, pensamento produtivo e contínuo, psiquismo refinado e complexo, capacidade de percepção e de intuição que lhe permitem penetrar na essência das coisas, ultrapassando a aparência ilusória. Feito assim, como um reflexo da divindade, o homem liga-se a Deus não apenas pelos laços do acto criador, mas também por afinidade psíquica e espiritual. É um herdeiro de Deus e co-herdeiro de Cristo, como escreveu Paulo, que se prepara para entrar na herança do futuro.

A relação de Deus com o homem começa, portanto, muito antes que ele se defina como criatura humana. Desde o momento em que o pensamento de Deus se une à matéria para modelá-la e, nas fases subsequentes, em que espírito e matéria se fundem nas formas substanciais de que tratou Aristóteles, a relação de Deus com o homem desenvolve-se em progressão constante. Quando se estrutura a consciência humana no ser em evolução, a marca de Deus ali está presente, na lei de adoração que é o sentimento inato de sua filiação divina e se manifestará no sentimento religioso, base de todas as experiências religiosas da Humanidade. Temos de dividir o conceito da experiência de Deus, em que tanto se apoiam as religiões formalistas, em dois tipos bem definidos de experiência: a de Deus, que começa no fiat, como elemento ontogenético (elemento constitutivo da própria génese do homem) e a religiosa, que corresponde às tentativas de uma tomada de consciência de Deus através de formulações religiosas por meio de rituais, instituição de igrejas, sistemática litúrgica e sacramental, organização clerical, ordenações e elaboração dogmática. Confundir a experiência genética de Deus com a experiência formal da vivência religiosa é característica do pensamento superficial, que facilmente se acomoda no jogo aparencial das instituições humanas. Deus, espírito e matéria formam o triângulo fundamental de toda a realidade. A omnipresença de Deus não implica o mistério de uma pessoa sobrenatural que se dispersa nas coisas, mas a participação do pensamento criador de Deus em tudo, desde a formação do átomo até à formação da consciência. Compreendendo que o espírito e a matéria são os dois elementos estruturais da realidade, compreendemos que Deus esteja presente em todas as partículas do Universo, como o poder criador, omnisciente, controlador e mantenedor de todo o equilíbrio universal. Deus penetra o mundo e está nele, como a seiva no vegetal, mas não se reduz a ele, pois permanece inalterável como a fonte de que tudo emanou.

A Ciência actual está a chegar rapidamente a essa constatação. Dizia o físico nuclear Arthur Compton, no seu ensaio sobre o lugar do homem no Universo, que descobrimos a energia por trás da matéria, mas já começamos a perceber que por trás da energia existe algo mais, que parece ser o pensamento. A unidade, a coerência, a perfeição dessa concepção espírita do mundo e do homem passam despercebidos no tumultuar das teorias absurdas que, como escreveu Charles Richetatravancam o caminho da nossa Ciência. Mas parece já próximo o momento em que o caminho se tornará livre.

Não há lugar, nessa concepção admirável, para o equívoco da contradição Espiritualismo-Materialismo em que até agora nos debatemos. Espírito e matéria aparecem sempre unidos, interligados e interactuantes, na dialéctica da Criação. E a negação de Deus, como observou Descartes, é tão absurda como pretendermos tirar o Sol do Sistema Solar.

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José Herculano Pires, Agonia das Religiões / Capítulo 5 – Deus, Espírito e Matéria, 6º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Paraíso Perdido, estudo do Anjo, lápis e giz de Alexandre Cabanel).

domingo, 13 de julho de 2025

a liberdade é também um princípio estético fundamental ~


uma possibilidade | humana

As grandes fases da evolução humana caracterizam-se pelo predomínio da liberdade. Mas a sequência histórica de cada uma dessas fases assinala o retorno à escravidão. Basta isso para nos mostrar que a liberdade é impossível no destino humano. Os tempos primitivos mostram-nos o homem atrelado ao clã e à horda. O seu instinto gregário é um impositivo da sua fragilidade em face da natureza carregada de ameaças e perigos. No clã, na horda ou na tribo ele se vê obrigado, para garantir a sua sobrevivência e a da prole, a organizar as primeiras estruturas sociais e a estabelecer ligações ou alianças com outros grupos. Os mais fortes dominam cada grupo e se constituem na garantia da liberdade do grupo. Se não houvesse outras exigências além da garantia da sobrevivência, o possível da liberdade humana teria morrido ao nascer. Mas o anseio de transcendência, determinado pelo sentimento inato da subjectividade do Ser, coloca ao lado da força física do Cacique o poder espiritual do Pagé. E na proporção em que o grupo cresce e penetra na historicidade dos factos, que gera a tradição e a mitologia das façanhas e dos espantos, a experiência e a prudência impõem-se através dos conselhos tribais. Equilibra-se o poder da força bruta com o poder da razão, dando nascimento aos Manes e deuses tutelares. A realidade confusa do mundo estrutura-se em dois planos: o das coisas e seres concretos e o do imaginário imprevisível. As forças cósmicas, transformadas em figuras antropomórficas, vigiam do alto do céu e do fundo das matas a aventura do homem na Terra. A multiplicidade de poderes em acção garante a liberdade individual nas condições dialécticas da existência. Está esboçado o panorama dos sonhos de liberdade, em que as aspirações de justiça marcarão o roteiro das civilizações. Bastam essas aspirações, sempre em choque com as pretensões atrevidas da força bruta, para mostrar que a consciência humana se fundamenta no pressuposto da liberdade.

As civilizações agrárias e pastoris, florescendo no seio da Natureza, estabelecem a sintonia dos ritmos telúricos com os ritmos do processo existencial. O homem percebe que a rigidez do seu condicionamento ao chão, e consequentemente ao meio, não o priva da liberdade de pensamento e acção. Descobre que agir sobre o meio é modificá-lo, ao mesmo tempo em que se modifica a si mesmo nas dimensões da temporalidade. Essa descoberta ampara e estimula os seus anseios de liberdade, mostrando-lhe que ele possui a jurisdição de si mesmo. Dessa descoberta nasce o sentimento de responsabilidade que vai marcar ao mesmo tempo os limites do seu poder, do seu dever e das suas possibilidades de ascendência. Nas grandes civilizações orientais, de estrutura massiva, a exigência de ampliação da sua responsabilidade a dimensões abstractas leva-o a recorrer à teocracia, que gera as investiduras divinas dos reis e príncipes, condição humana que lhe parece insuficiente para a direcção do Estado. O gigantismo das civilizações teocráticas obriga-o a abdicar de sua jurisdição individual e entregar-se ao poder supremo dos deuses. Este poder, por sua própria natureza abstracta, projecta-se nas estruturas legais que possam abranger a multiplicidade dos aspectos da ordem instituída. Em consequência, o poder divino acrescido ao homem, por ele mesmo, leva-o a sufocar a liberdade individual. A sociedade regride às condições da estrutura tribal, com o predomínio da força bruta que engaja cada indivíduo à engrenagem gigantesca do Estado, segundo a aguda observação de Denis de Rougemont. O homem não é mais um indivíduo, mas uma arruela ou um pino da estrutura mecânica, regida pelo poder dos deuses através dos seus mandatários divinos. O cacique tribal transformou-se no Rei Ungido que representa a Divindade e o Pagé mágico que se multiplicou nos sacerdotes que confabulam com Deus e controlam as actividades dos súbditos. Nasce das cinzas dos pastores e agricultores ingénuos, há muito soterrados nos campos, o Leviatã de Hobbes. O modelo dos Estados sagrados e totalitários constituiu-se dos três poderes que a Revolução Francesa terá de enfrentar para restabelecer a liberdade sob a inspiração do Contrato Social de Rousseau.

É no antigo Império Persa que vamos assistir à morte das civilizações teocráticas, quando um novo poder, nascido das guerras de conquista, o poder militar, se imporá pela força das armas sobre o poder teocrático. Da divisão dos poderes na Pérsia nascerão na Grécia os Estados antípodas de Esparta e Atenas, o primeiro rigidamente totalitário e militar, esmagando os anseios da liberdade individual, e o segundo, ainda teocrático e escravagista, mas tocado pelo fogo de Prometeu, ao sopro revivificador da Filosofia, libertando o indivíduo das garras do Leviatã e abrindo perspectivas para o desenvolvimento do pensamento livre e, portanto, da cultura. Mas a Esparta projecta-se em Roma e gera o Império dos Césares que determinará um retrocesso histórico. O cidadão romano é o novo tipo de homem, engajado à estrutura estatal, que esmagara a Grécia e se embriagará com o sangue generoso dos seus filósofos. A Roma camponesa não conseguira asfixiar em si mesma, ao transformar-se no Leviatã, os princípios de justiça que a nortearam nos primórdios do seu desenvolvimento. Esses princípios levarão a velha Loba ao afrouxamento da sua estrutura, nos tempos de fastígio, e permitirá o restabelecimento da liberdade individual na mais corrosiva de suas formas, a da libertinagem. Dois factores contraditórios a levarão à queda: a mensagem cristã provinda da civilização agrária e pastoril da Palestina e a voracidade das hordas bárbaras do Norte. A fusão desses factores gerou o milénio medieval, ressurreição dos Estados Teocráticos na Europa devastada. A liberdade individual foi novamente esmagada pelo Império da Igreja, mas o fermento do Evangelho levedou lentamente, ao rogo das guerras e das fogueiras inquisitórias, a massa dos povos bárbaros e acendeu na Renascença, com novo ímpeto e maior ardor, os anseios de liberdade. Graças a isso, as fases de grandeza espiritual de Atenas filosófica e estética, da palestina profética, puderam ressurgir das cinzas para um novo e poderoso surto da evolução humana. O homem renascentista não nasceu engajado a uma estrutura estatal. Descendia, embora por vias tortuosas, dos israelitas discutidores, dos atenienses filosofantes e dos romanos da República, tendo por modelos e guias o racionalismo suicida de Abelardo e os sonhos de liberdade de Descartes Rousseau.

Nem mesmo o contragolpe de Bonaparte conseguiu sufocar as aspirações libertárias da França, que repercutiram no mundo e floresceram na América. A hecatombe nazi-fascista ameaçaria novamente os povos e o desenvolvimento do chamado complexo industrial militar frustraria as esperanças da liberdade do pós-guerra. Mas os triunfos da força revertem na negação de si mesmos, ante o desenvolvimento cultural, firmado nos princípios humanistas dos novos tempos. Porque o dilema que hoje nos desafia na Estrada de Tebas é irreversível: ou deciframos o enigma da esfinge nuclear ou ela nos devorará. Temos de compreender que o avanço científico é uma conquista da civilização e não da barbárie, um repto do homem a si mesmo, para que ele confirme a sua natureza espiritual ou a negue, entregando-se à inconsciência das feras. A violência desencadeada no mundo, dos nossos dias, e impunemente aplicada em nome de princípios superiores, tem o seu limite fatalmente marcado pelo genocídio dos cogumelos atómicos. Nenhum poder é concedido ao homem sem o preço marcado na sua própria consciência. O preço da violência é a morte e, neste caso, a destruição total da Humanidade. A chamada guerra dos botões é uma reticência trágica para todos os que desenvolveram o poder do espírito e com ele penetraram nos segredos da matéria. Há um ensino de Jesus que devemos lembrar nesta hora, porque agora ele se torna claro e objectivo: “Todos os pecados serão perdoados ao homem, menos o pecado contra o espírito.” Temos pecado ignominiosamente contra o espírito através de guerras e matanças, atentados brutais, perseguições e torturas, assassinatos covardes de prisioneiros inermes, toda uma série hedionda de manifestações de bestialidade, enlouquecidos pela arrogância da força bruta. Negamos a liberdade de pensamento, que é o selo da dignidade humana, e com as armas defensivas das nações partimos para a agressão interna, transformando cada nação num sistema fechado de aniquilamento dos seus próprios filhos, na violência desmedida contra os direitos do espírito. Aviltamos o mundo e aviltamo-nos, desde os campos de concentração nazi-fascista até aos campos de trabalho forçado e morte lenta do sistema comunista, até às mortes programadas pelos computadores das chamadas nações democráticas e as agressões genocidas das grandes potências contra pequenas e heróicas nações indefesas. Tocamos agora a barreira do nosso próprio poder liberticida. O desafio é simples: carregamos os botões da destruição total ou retomamos a condição humana. Pagamos o preço fatal do pecado contra o espírito ou o resgataremos de joelhos sobre a infinidade de covas em que sepultamos as vítimas da nossa arrogância, com o desprezo da prepotência e os rituais bárbaros da intimidação colectiva.

Nunca os bárbaros foram tão bárbaros como na pele do homem do Século XX. Nunca o poder das armas esmagou e silenciou populações inermes em todo o mundo, na mais trágica demonstração de covardia de todos os tempos. Mas os dragões minúsculos e invisíveis dos átomos agora esperam os mandatários da violência para triturá-los com os seus dentes nucleares, na mais refinada forma de igualitarismo democrático, de nivelação total de carrascos e vítimas, sob o signo da morte global. Onde os covardes acharão coragem para morrer como homens?

Mas mesmo que cheguemos a essa escatologia trágica, os sonhos de liberdade não serão liquidados. A Terra devastada e envenenada pelas emanações atómicas continuará a girar nos espaços siderais. Os resíduos da infâmia desaparecerão de sua face calcinada. O seu poder de recuperação e renovação não será extinto, porque se alimenta nas fontes cósmicas. Germinarão de novo as plantas, os animais reconstruirão a sua fertilidade e uma nova raça humana a povoará, para que os desígnios de Deus se cumpram após a falência dos homens. Então ela não será mais um planeta andrajoso, coberto de ruínas, um túmulo de indignidade humana, mas um monumento vivo e radiante à dignidade dos que, numa raça de víboras, souberam resistir até ao último instante. Talvez nesse tempo os monstros que devoraram o planeta no delírio da arrogância possam despertar, em algum lugar do Infinito, para a consciência de sua brutalidade. Da situação miserável em que caíram, com as suas mandíbulas de fera, apropriadas à condição que preferiram, mastigando ossos e destroços, talvez consigam vislumbrar – num céu escuro e opaco – as tímidas cintilações das estrelas longínquas, apavoradas com a visão das suas monstruosidades. Só assim poderão renascer para novas existências, como os "luzbéis" arrependidos de um mito bíblico jamais escrito.

Cada aspecto de um tema requer linguagem apropriada para o seu desenvolvimento. Essa linguagem não é estudada, não é preparada de antemão, pois a sua natureza é genésica; ela brota das entranhas do próprio tema pela necessidade vital de expressão adequada. Não traçamos esse panorama assombroso com os recursos da imaginação. Ele não é uma criação fantasiosa, é um dado real que surge da situação desesperante do mundo. O impacto de sua percepção aturde primeiro o observador que teve a temeridade de encará-lo. Depois esse impacto se transmite ao público para despertá-lo de uma apatia forçada, reerguendo-lhe as energias anestesiadas pelo medo e restabelecendo-lhe a capacidade de pensar e analisar. A morte da liberdade é a morte do homem. Porque o homem nasce da liberdade e é liberdade. A sua carne e o seu espírito são a vitória da liberdade imolada. Nas metamorfoses genésicas ele passa de um reino da natureza para outro. Desenvolve o seu poder estruturador na pedra e nela permanece em estado cataléptico até ao momento de projectar-se nas estruturações vegetais, em que desenvolve a sua sensibilidade e se transforma na doação de que falava Hegel, abrindo-se em ramagens, flores e frutos. Pouco a pouco aglutina as primeiras formações animais, como nos mostram as pesquisas sobre a evolução dos reinos naturais. Desenvolve então a motilidade – nada, voa, anda, desligado da matriz terrena – e as potencialidades da inteligência. Como animal ele está ainda envolto numa pele densa e forte, coberta de pelos ou escamas, de invólucros protectores para a conquista das suas experiências vitais. Mas no homem a carne se refina e se apura, a pele se torna fina e flexível, a sensibilidade se aguça, a mente se abre na delicada estrutura cerebral como uma flor que desabrocha, o espírito imolado recobra a sua natureza, que é a liberdade.

Todo esse imenso e complexo processo criador atinge a sua frutificação nas conquistas da inteligência humana, semelhante a Deus, dotada de poder criador. E é essa obra-prima que ele mesmo avilta e esmaga quando se entrega aos resíduos das fases anteriores da evolução criadora, segundo BergsonQuando as mãos animalescas da insensatez reduzem tudo isso a um cadáver sangrento e sem vida, pela fria decisão de um tribunal dogmático, arbitrariamente em nome de Deus, da Pátria ou da Sociedade, o homem peca contra o espírito, o que vale dizer: contra a sua própria natureza de Ser espiritual. É verdade que não destruiu o homem nem a vida, mas aniquilou um trabalho milenar dos poderes criadores do espírito. Por outro lado, atentou contra a dignidade humana e o direito à vida, ao reajuste dos seus possíveis desajustamentos sociais e culturais, ao progresso que ainda poderia realizar no desenvolvimento das suas potencialidades espirituais. Além disso, cada acto dessa natureza é um incentivo à violência, à brutalidade, ao crime, aos desrespeitos aviltantes ao supremo direito do homem, o direito à liberdade.

Não há sofismas, por mais aparentemente brilhantes, por mais aprovados e institucionalizados nas falíveis convenções humanas, que possam justificar esse acto contrário aos desígnios de Deus inscritos na consciência humana.

A tudo isso devemos acrescentar as dolorosas consequências do crime na vida dos familiares do condenado. Quantas dores e lágrimas, que de suplícios e humilhações, desesperos e angústias esmagarão criaturas inocentes que jamais aceitarão essa pretensa justiça produzida nas retortas escusas das convenções humanas, manchadas por interesses inferiores, por ambições vorazes e pretensões orgulhosas de infalibilidade do falível julgamento humano. As sociedades e civilizações que se defendem sacrificando as suas próprias vítimas, os injustiçados pelos desníveis sócio-económicos de estruturas forjadas pelas leis da selva, são duplamente criminosas. A queda do homem na sociedade, que Rousseau definiu apoiado nas suas próprias experiências de vítima dando forma social ao mito bíblico da queda, é uma realidade flagrante em todo o mundo. Só há um meio de redenção das sociedades criminosas: o abandono dos métodos de coação violenta e a adopção de meios humanos de recuperação e resgate dos indivíduos transviados.

O princípio ético de preservação da liberdade exige a reformulação social e cultural do mundo. Por isso, René Hubert recomenda uma pedagogia estética que corresponda ao sentido profundo do acto de amor do processo educacional. Só pelo desenvolvimento da consciência estética, síntese consciencial que liberta o homem da arrogância e da brutalidade, aprimorando-lhe a sensibilidade estética – como Kant já reconhecera – poderemos estabelecer na Terra uma civilização de justiça e harmonia, condizente com as aspirações mais profundas e generalizadas da espécie humana. A liberdade é também um princípio estético fundamental, como Schiller demonstrou nos seus estudos de estética. Sem liberdade não há criação artística válida nem ética verdadeira.
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José Herculano Pires, Os Sonhos de Liberdade, – Uma Possibilidade Humana, 1º fragmento desta obra.
(imagem de contextualização: Somos as aves de fogo por sobre os campos celestes, pintura em acrílico de Costa Brites

quinta-feira, 19 de junho de 2025

o sentido da vida ~


síntese final (*)

Podemos, já agora, chegar ao fim do nosso trabalho, tentando elaborar uma síntese final do Espiritismo, nos seguintes princípios gerais:

1) Deus é a inteligência suprema do Universo, causa primária de todas as coisas e, o homem é a individualização do princípio inteligente universal, reflectindo a imagem do Criador no seio da criação;

2) O Universo é um processo geral de evolução, em que todas as coisas e todos os seres caminham do menor para o maior, do mal para o bem, das trevas para a luz, do caos para a ordem, do inconsciente para o consciente, através de leis imutáveis, que a tudo presidem e relacionam, tanto no plano material quanto no moral e espiritual;

3) O homem é a resultante de longa elaboração do princípio inteligente, no seio da matéria através das formas orgânicas, mas ainda não chegou ao seu fim, continuando essa elaboração a processar-se no tempo e no espaço, em direcção a um ideal de perfeição, imanente no próprio Universo;

4) Há seres inferiores e superiores ao homem, pertencentes à escala humana e, dos quais podemos ver alguns exemplos na própria Terra, entre as raças primitivas e os indivíduos geniais, destacando-se entre eles a figura ímpar do Cristo, como modelo perfeito da mais alta expressão humana conhecida no planeta;

5) O homem, graças à sua natureza espiritual, pode aceder ao conhecimento do chamado Universo supranormal ou hiperfísico, entrando em relação directa ou indirecta com os seres imateriais, inclusive os próprios homens libertados do organismo físico pelo processo comum da morte.

Rumo às Estrelas

Assim, como afirma Dennis Bradley, não estamos parados na Terra, fixados, como dolorosos bonecos movidos por cordões invisíveis, num pequenino ponto do Universo, a face material do planeta em que decorrem as nossas dores e angústias passageiras. Não somos galés da fatalidade, nem simples fogos-de-artifício que se acendem e apagam, ininterruptamente, no breve intervalo entre o berço e o túmulo. Não somos também o absurdo joguete de uma realidade universal “nominalista”, que, através das nossas individualidades múltiplas e sem sentido, procuraria a consciência de si mesma. Além da concepção estratificada dos dogmas de fé e além da suposição incoerentemente transcendental da ciência materialista, o Espiritismo leva-nos à convicção racional de que somos espíritos em evolução através do tempo e do espaço, partículas de um todo que é a Humanidade universal e, caminhamos da Terra em direcção às estrelas.

“Na casa de meu pai há muitas moradas”, afirmou o Cristo aos seus discípulos. No Universo infinito há inumeráveis mundos habitados. E o destino do homem não é o simples mergulho de uma gota d’água no oceano, mas o encontro consciente de uma realidade superior, de que nos dão notícia os que, como o Buda e o Cristo, atingiram os cumes da consciência liberta da prisão da forma.

Vinde a mim, todos os que andais em trabalho e vos achais carregados e, eu vos aliviarei, repete o Espiritismo aos homens de hoje. Porque os seus ensinamentos dão segurança ao espírito atribulado, consolam os aflitos e desesperados e, abrem à Humanidade sem rumo da era científica, ameaçada de auto-destruição, as portas largas e luminosas de uma compreensão mais humana da vida e do mundo.

Que o contradigam os negativistas, os que não crêem nem podem crer nessa nova e mais ampla visão universal. Mas, quando quiserem acusar-nos de visionários, de sonhadores inconsequentes, de amantes do maravilhoso, que verifiquem primeiro as suas próprias convicções, as bases frágeis em que assentam, já não dizemos os seus sonhos, mas os seus pesadelos. E, quando quiserem negar a evidência dos factos, em que baseamos solidamente a nossa crença, que realizem pesquisas e investigações mais profundas, mais sistemáticas, mais constantes, mais sérias, mais científicas do que as realizadas pelos que nos deram a incomparável bagagem da bibliografia metapsíquica e espírita. Não nos podem contentar, já agora, as simples palavras e as suposições dos que se dizem entendidos. Mais alto do que os argumentos falam os factos. E os factos aí estão, na frente de todos, como um desafio permanente.

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José Herculano Pires, O Sentido da Vida (*) / Síntese Final; Rumo às Estrelas, 18º fragmento e o último desta obra.
(imagem de contextualização: Cristo na casa de Marta e Maria (1654-1655), óleo sobre tela de Johannes Vermeer)