sábado, 13 de fevereiro de 2021

O peregrino sobre o mar de névoa ~


Natureza Moral da Terapia Espírita ~ 
(III de III) 

A natureza moral da terapêutica espírita decorre da moral de Jesus, pura e natural, desprovida dos aparatos, rituais e ordenações antinaturais forjadas pelos teólogos. Por isso a terapia espírita, como a de Jesus, não se funda em práticas sacrificiais, em exorcismos demoníacos, em condenações da função genésica do homem e da mulher, mas na liberdade regida pelos princípios básicos da consciência humana, onde – e somente nela – estão inscritas as verdadeiras leis morais da humanidade. 

Os actos naturais, exigidos pela própria continuidade da espécie humana, capitulados como pecados veniais e capitais nas tabelas de preços das indulgências, que provocaram a revolta de Lutero, não são considerados como crimes contra a Divindade. Crimes são os abusos e as perversões desses actos, que nivelam o homem aos animais. Mas a educação é o antídoto desses desvios – a educação natural de Rousseau, desenvolvida nas suas técnicas por Pestalozzi e pelo seu discípulo e sucessor Allan Kardec. Pestalozzi era deísta e universalista, educador por excelência, o homo faber da educação nos séculos XVIII e XIX, mas faltava-lhe a vocação pedagógica, que sobrava a Kardec. Em Kardec havia o doublé de filósofo e cientista, as duas vocações necessárias ao fazer pedagógico, que implica a reflexão global sobre a educação e a complementação experimental da pesquisa científica. Mergulhado nesses dois planos da realidade educativa, Kardec ansiava pela descoberta da essência do homem, da sua natureza última e do seu destino. Entendia, como declarou tantas vezes, que sem esse conhecimento não podíamos conhecer realmente o educando e dar-lhe, por uma educação adequada, o pleno desenvolvimento das suas potencialidades. 

Entregou-se primeiro às pesquisas do magnetismo (i), que lhe revelava um novo aspecto da natureza humana e, mais tarde, perante a insistência de amigos, ao estudo e à pesquisa dos fenómenos paranormais, que na época explodiam por toda a parte. Foi esse o caminho que o levou ao Espiritismo, num verdadeiro acto de amor, para usarmos a expressão de Hubert

Emparelhou-se casualmente com a revolução teológica de Kierkegaard, que fundava na Dinamarca, sem querer, a Filosofia Existencial. A sua tendência platónica levou-o a sonhar com a República de Platão em termos universais, através da educação integral do homem, no desenvolvimento de toda a sua perfectibilidade possível, como queria Kant e como querem ainda hoje os neokantianos do realismo crítico. Essa a relação sensível existente entre a pedagogia de Hubert e Kerchensteiner com a Pedagogia Espírita entranhada na obra kardeciana. O princípio grego da unidade orgânica do Universo decorre de uma visão lógica superior. A Psicologia Infantil mostra-nos que a percepção da criança nas suas primeiras fases do desenvolvimento é fragmentária. O mesmo acontece com os povos primitivos que se isolam no seu torrão e na tribo com a arrogância de únicos habitantes do mundo. Essa incapacidade natural de uma concepção ampla gera o orgulho do exclusivismo racista, da xenofobia, das cidades e das civilizações muradas do geocentrismo e do antropocentrismo. Só o desenvolvimento da civilização, à maneira do desenvolvimento orgânico e da sociabilidade na criança, abre perspectivas para a mente fechada. Os gregos passaram também por esse processo, mas, auxiliados pela sua posição geográfica e por uma capacidade de abstracção mental superior, mostraram-se mais avançados, conseguindo imaginar o mundo como uma unidade orgânica e viva, como vemos na sua teoria do ilosoísmo (ii)

Do outro lado do mundo estavam os celtas, que foram capazes de imaginar o universo hipostásico dos círculos superpostos de Anunf, o círculo infernal; Abred, o círculo das reencarnações; Gwinfid, o círculo divino ou Morada de Deus. Bastaria esses dois exemplos para mostrar a necessidade das migrações entre os mundos habitados no cosmos segundo o princípio espírita. 

O aparecimento do indivíduo em Atenas não decorreu do comércio do Mar Egeu, mas do único milagre grego que se pode admitir: a avançada capacidade grega de abstracção. 

Sócrates, que partilhou da leviandade dos sofistas, abandonou-os ao perceber o vazio das suas teorias e fundou a Filosofia Moral. O moralismo socrático preparou, à distância da corriola rabínica dos sofistas judeus o advento do Cristianismo. Kardec reconheceu essa função precursora de Sócrates e Platão e comparou o estágio evolutivo dos gregos ao dos celtas, que Aristóteles considerou o único povo filósofo do mundo. Note-se bem: um povo filósofo, que os romanos conquistaram para se apoderarem da sua sabedoria. Esse apanhado sucinto e fragmentário dos mundos grego e celta mostra a razão da superioridade da moral espírita, que Kardec desenvolveu na França do iluminismo e da liberdade. 

Curar e educar são funções conjugadas do homem na luta pela sua transcendência. Por isso, Allan Kardec as reuniu nas suas primeiras actividades em Paris, tendo exercido medicina, como assinala André Moreil, confirmando as informações de Henry Sausse, primeiro biógrafo de Kardec e contemporâneo do mestre. Moreil menciona o período em que Kardec exerceu medicina em Paris. Ficou assim anulada a dúvida que se levantou sobre as suas actividades médicas. Por outro lado, é pacífico que ele leccionou ciências médicas em Paris. Era uma inteligência omnímoda e se empenhava com afinco na decifração dos mistérios do homem. A sua maior realização foi a criação da Ciência Espírita. Ela lhe custou muito caro, pois teve de enfrentar sozinho uma batalha sem tréguas com todas as forças culturais, religiosas, políticas e sociais do seu tempo. O seu senso e a sua moralidade comprovam-se actualmente na volumosa obra que deixou como o alicerce inabalável da Ciência e da Filosofia Espírita. 

/… 

(i) mais tarde chamado, hipnotismo... 
(ii) pré socrática, materialista ou ilosoísta... 


José Herculano Pires, Ciência Espírita e as suas implicações terapêuticas, 3 Natureza Moral da Terapia Espírita (III deIII), 10º fragmento desta obra. 
(imagem de contextualização: O peregrino sobre o mar de névoa, pintura de Caspar David Friedrich)

sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

pensamento e vontade ~


Ideoplastia ~ 

O vocábulo ideoplastia foi criado pelo Dr. Durand de Gros em 1860, para designar os principais caracteres da sugestibilidade. 

Mais tarde, em 1864, o Dr. Ochorowicz o empregou para designar os efeitos da sugestão e da auto-sugestão, quando ela faculta a realização fisiológica de uma ideia, como se dá nos casos da estigmatização. 

Finalmente, o Professor Charles Richet o propôs, quando das suas experiências com as senhoritas Linda Gazzera e Eva C. (1912-1914), cujas experiências demonstraram, de modo nítido e incontestável, a realidade da materialização de semblantes humanos, que eram, por sua vez, reproduções objectivadas e plásticas de retratos e desenhos vistos pelos médiuns. 

Claro é que, desses factos, dever-se-ia logicamente inferir que a matéria viva exteriorizada é plasmada pela ideia

E aí está a exacta significação do termo ideoplastia, aplicado aos fenómenos de materialização mediúnica

E a substância viva, exteriorizada e amorfa, sobre a qual se exercem as ideias forças, inerentes à subconsciência do médium, foi designada por ectoplasma, pelo mesmo Professor Richet. 

Em homenagem à verdade histórica, devo consignar que as materializações ideoplásticas já eram conhecidas de há meio século e despertaram de modo especial a atenção dos investigadores. 

Quanto à substância ectoplásmica, essa era já conhecida dos alquimistas do século XVII, assim como de Emanuel Swedenborg

Efectivamente, o Dr. N. B. Wolfe fala longamente de materializações ideoplásticas, na sua obra: Starting Facts in Modern Spiritualism (1869). 

De substância ectoplásmica falam dois grandes alquimistas, quais Paracelso, que a denominou Mysterium Magnum, e Tomas Vaogan, que a definiu por Matéria Prima

Este último tinha-a provocado pela transudação do corpo de sua esposa. 

Quanto a Swedenborg, parece que a experimentou consigo mesmo, visto que, na sua primeira visão iniciática, nos fala de “uma espécie de vapor que lhe saía de todos os poros, um vapor d'água bastante visível, que descia até roçar no tapete”. 

Ainda que de ideoplastia não se falasse senão mais tarde, depois de alguns anos, ela estava realmente subentendida, desde a época em que se obtiveram os primeiros fenómenos de materialização, visto que os fantasmas materializados apareciam envoltos em véus, o que demonstra que o pensamento e a vontade são capazes de plasmar a matéria, criando tecidos. 

Pouco importa que fossem o pensamento e vontade agentes atribuídos a mortos ou a vivos, sendo que, em ambos os casos, se tratava, a despeito de tudo, de uma forma plástica inerente à ideia. 

Na ordem das manifestações naturais, sejam fisiológicas ou patológicas, sempre se conheceram categorias de fenómenos que deveriam fazer pressagiar a existência de propriedades plásticas e organizadoras no pensamento e na vontade subconscientes. 

Assim, por exemplo, no caso do “mimetismo” de algumas espécies animais e, nos de “novi” e estigmas, da espécie humana. 

Limitar-me-ei, nesse sentido, a transcrever uma página do Dr. Gustave Geley, na qual se encontram ligeiramente resumidas essas manifestações. 

No seu livro Do Inconsciente ao Consciente, escreve ele na pág. 63: 

“Os fenómenos de estigmatização, de modificações tróficas cutâneas por sugestão, não passam de fenómenos elementares de ideoplastia, infinitamente mais simples, posto que da mesma ordem, que os fenómenos de materialização. 

As curas ditas miraculosas são fruto da mesma ideoplastia, orientada por sugestão ou auto-sugestão, num sentido favorável às reparações orgânicas e concentrando em dado tempo, nesse sentido, toda a potencialidade do dinamismo vital. 

É preciso notar que a força ideoplástica subconsciente, reparadora, é muito mais activa nos animais inferiores do que no homem e, isto indubitavelmente porque, neste último, a função cerebral avassala e desvia, a seu proveito, a maior parte da força vital

Não há nenhum milagre no retorno acidental à organização humana, de acções dinâmicas e ideoplásticas, que constituem regra na base da escala animal. 

Os fenómenos de mimetismo, tão uniformemente frequentes nos animais quanto misteriosos no seu mecanismo, também se podem explicar pela ideoplastia do subconsciente. 

O instinto provocaria, nesse caso, simplesmente a ideoplastia num sentido favorável e, os efeitos desta última seriam, a seguir, facilitados e fixados pelos factores de selecção e adaptação.” 

Por fim, é oportuno acentuar que, se a hipótese ideoplástica se impôs de modo definitivo em virtude das experiências com os médiuns a que nos temos referido, ela já era prevista por intuição científica de diversos investigadores, tais como HartmannAksakofDu Prel e Albert de Rochas

Os três primeiros abordaram-na como “hipótese de trabalho” apenas, ao passo que o último já a expende baseado nas suas próprias experiências com Eusapia Palladino

Assim é que, diz ele: 

“Outras experiências ... tendem a provar que a matéria fluídica exteriorizada pode modelar-se sob a influência de uma vontade muito poderosa, tal como a argila nas mãos do escultor. 

Podemos presumir que Eusápia, depois de passar por diversos centros espíritas, concebeu na sua imaginação um John King, de expressão bem definida e, não só lhe toma a personalidade verbal, como também consegue imprimir-lhe formas orgânicas, quando produz à distancia, sobre argila, impressões de cabeças humanas, a exemplo do que sucedeu em Itália. 

Nem outra origem teria tido o fole visto pelo Sr. de Gramont, sendo que não é mais difícil representar um objecto qualquer, do que representar um membro do corpo humano. 

Mas, se nada nos prova que John existia também nada nos foi provado em contrário. 

De resto, assim pensando, não somos únicos no mundo. 

Outras pessoas que conheço, absolutamente fidedignas e, que relatam factos que se não podem explicar senão com o auxílio da posse temporária do corpo fluídico exteriorizado, exercida por uma entidade inteligente, de origem desconhecida

Tais as materializações de corpos humanos integrais observadas por Crookes com a srta. Florence Cook, por James Tissot com Eglington, por Aksakof com a Senhora d' Esperance.” (Anais das Ciências Psíquicas, 1897, págs. 25-26) 

Pode ver-se, assim, que desde 1896 o Albert de Rochas não só tivera a intuição da hipótese ideoplástica, como também a circunscrevera a justos limites, sabiamente advertindo que, se devemos admitir a existência de fenómenos que permitem atribuir ao pensamento subconsciente do médium uma energia plástica e organizadora, demonstrado estão, igualmente, que outros fenómenos há, cuja explicação se torna impossível, desde que se não admita a intervenção de um pensamento organizador, estranho ao médium e aos assistentes. 

Hoje, mais que nunca, esta é a verdadeira e única solução do enigma significativamente complexo. 

À proporção que avançamos na investigação dos múltiplos ramos que constituem as doutrinas metapsíquicas, vemos ressaltar, de mais a mais, a grande verdade do princípio segundo o qual Animismo e Espiritismo são complementares recíprocos, tendo ambos uma causa única: o espírito humano, que encarnado produz fenómenos anímicos e desencarnado determina fenómenos espíritas. 

Isto é tão verdadeiro que, quando se pretende contestar uma ou outra das modalidades que perfazem o problema em equação, torna-se literalmente impossível explicar o conjunto dos factos

Posto isto, preliminarmente, prossigo no meu propósito, não sem prevenir os meus leitores de que pretendo fornecer-lhes uma simples e sumaríssima exposição dos fenómenos ideoplásticos, sendo que o tema é muito vasto para ser devidamente desenvolvido numa hora de síntese geral, como esta. 

Por outro lado, trata-se de investigações tão recentes e tão largamente discutidas nos tratados e revistas especializados no assunto, que todos os metapsiquistas as conhecem. 

Relativamente à natureza do ectoplasma, reporto-me às passagens essenciais da descrição que dele faz o Dr. Geley, nos seguintes termos: 

“O processus da materialização pode ser resumido da seguinte forma: Do corpo do médium transpira e exterioriza-se uma substância amorfa ou polimorfa, que toma representações diversas, ordinariamente de órgãos mais ou menos completos. 

Substância móvel, ora ela evolui lentamente, sobe, desce, resvala sobre o médium nas espáduas, peito, joelhos, em movimentos coleantes que lembram um réptil, ora por bruscas quão rápidas evoluções, aparecendo e desaparecendo como relâmpagos... 

Essa substância apresenta grande sensibilidade, aliada a uma espécie de instinto, comparável ao instinto de conservação dos invertebrados. 

É qual se tivesse a perfeita desconfiança de um animal sem defesa, ou cuja única defesa consiste em reentrar no corpo do médium, que lhe deu origem. 

Assim é que teme os contactos, sempre pronta a ocultar-se e reabsorver-se. 

A sua tendência para organizar-se é imediata e irresistível, pois não permanece muito tempo no seu estado original. 

Frequentemente, essa organização é tão rápida que não deixa ver a substância primordial. 

Outras vezes, são vistas simultaneamente a substância amorfa e representações mais ou menos completas, englobadas na sua massa, como seja um dedo, entre franjas de substância. 

Outras vezes são cabeças e, os rostos que na substância aparecem envoltos.” (Do Inconsciente ao Consciente, págs. 53-58). 

/… 


Ernesto BozzanoPensamento e Vontade – Ideoplastia (1 de 3), 9º fragmento desta obra.
(imagem de contextualização: A Female Saint_1941, pintura de Edgard Maxence)

quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

Alfred Russel Wallace e o Sobrenatural ~


A Teoria
Espiritualista ~ 
(II de II) 

Esta hipótese da existência do espírito, tanto no homem quanto fora dele e, a sua possível e efectiva intercomunicação deve ser julgada exactamente da mesma forma que nós julgamos qualquer outra hipótese – pela natureza e variedade dos factos que ela inclui e considera e, pela ausência de qualquer outro modo de explicar tão grande variedade de factos. Contudo, a realidade dos factos é uma coisa e a qualidade da hipótese é outra. Encontrar uma falha na hipótese não é a mesma coisa que falsificar os factos. Eu sustento que os factos foram provados, da única forma que tais factos podem ser provados: pelo testemunho concorrente de observadores honestos, imparciais e cuidadosos. A maioria dos quais podem ser testados por qualquer pesquisador sério. Eles foram sustentados perante a provação do ridículo e também de um rígido escrutínio de 46 anos, durante o qual os seus adeptos foram crescendo sustentadamente, ano após ano, faziam parte deles homens de toda a ordem e de todos os lugares, de todo o tipo de mentalidade, de todo o grau de talento. Enquanto isso, nem um indivíduo sequer que seriamente se tenha devotado a um completo exame desses factos negou a sua realidade. Estas são características de uma nova verdade, não de uma ilusão ou impostura. Os factos, portanto, estão provados. 

Antes de começar a considerar a natureza da doutrina que o espiritualismo revela, eu desejaria dizer umas poucas palavras sobre um trabalho, feito por um escritor filosófico, no qual os factos do espiritualismo são em grande parte admitidos, mas explicados por uma hipótese diferente da que venho expondo. O senhor Charles Bray, autor de Filosofa da necessidade, Educação dos sentimentos etc., publicou um pequeno volume cujo título é Sobre a força, os seus correlatos mentais e morais; e sobre o que se considera estar sob todos os fenómenos; com especulação sobre o espiritualismo e outras condições anormais da mente. A segunda metade do trabalho é inteiramente dedicada a uma consideração dos factos do espiritualismo moderno e a uma tentativa de explicá-los com princípios filosóficos. O senhor Bray nos diz que testemunhou pessoalmente uns poucos fenómenos, o suficiente para convencê-lo de que eles poderiam ser verdadeiros. Ele parece ter muita confiança mais no surpreendente testemunho dos factos por homens considerados inteligentes e, os próprios factos seriam de uma natureza tal que não poderiam ser menosprezados. Indubitavelmente, ele tem sido conduzido a este quadro mental, menos céptico do que é usual em escritores filosóficos, pela sua familiaridade com casos de clarividência, um dos factos apresenta-o da seguinte forma: 

Eu ouvi falar de uma jovem em estado mesmérico que descreve minuciosamente tudo o que é visto por uma pessoa com a qual ela esteve em contacto e, em alguns casos mais do que foi visto ou poderia ser visto, com as iniciais gravadas num relógio que não estivesse aberto e também descreve pessoas e cenas à distância, as quais posteriormente descobri que estavam correctamente descritas, além da possibilidade de dúvida. (Grifos do senhor Bray.) 

Julgando a partir das palavras mencionadas no livro, o senhor Bray parece ter uma familiaridade limitada para com a literatura espiritualista, o que é lamentável, já que ele possui uma escassa experiência pessoal dos fenómenos e dificilmente se encontra numa posição que lhe permita formar uma hipótese satisfatória. Ele considera, contudo, que elaborou um processo que "irá explicar como tais factos são genuínos", embora ele admita que não fez a pesquisa que iria levá-lo a descobrir quais os factos que eram genuínos e quais os que eram devidos a fraude ou à auto-ilusão. A sua teoria não é de todo fácil de ser apresentada em poucas palavras. Ele afirma que a força que produz os fenómenos do espiritualismo, é uma emanação de todas as mentes, que com o médium aumentam a sua densidade de forma a permitir aos outros presentes que entrem em comunhão com ele e, a inteligência nova para todas as pessoas presentes é a de algum cérebro à distância agindo por meio desta fonte sobre a mente do médium ou dos outros do círculo. (p. 107) 

Novamente, ele fala de "uma atmosfera mental ou de pensamentos que resultam da actividade intelectual, mas destituída de consciência até que seja reflectida nas nossas próprias organizações" (p. 98). Parece-me que esta teoria opera sob a grande objecção de ser ininteligível. Como é que nós iremos entender uma "emanação de todos os cérebros", uma "atmosfera de pensamentos", produzindo força e movimento, sob formas visíveis e tangíveis, comunicações inteligentes por meio de sons e movimentos e todos os outros variados fenómenos imperfeitamente esboçados nessas páginas? Como é que esta "atmosfera de pensamentos inconsciente" forma uma mão-que-exerce-força tangível, visível, que pode carregar flores, escrever ou tocar melodias completas num instrumento? Isto explica os mais simples, embora maravilhosos, fenómenos de clarividência? Vamos tomar um dos casos mais autênticos observados pelo doutor Gregory. Inscrições encerradas em cascas de noz são compradas numa loja e o clarividente as lê com precisão. Seguramente devemos admitir que neste caso nenhuma mente humana conhece a noz particular na qual cada inscrição está inserida. Como é que esta teoria de uma "emanação de todos os cérebros", ou que o clarividente, por meio desta emanação agiu conforme "alguma mente à distância", explica a leitura destas inscrições? Se esta ‘emanação’ tem o poder de ler por si mesma e comunicar ao clarividente, como podemos negar a sua personalidade e no que difere daquilo a que chamamos de espírito? Se a teoria do ‘espírito’ é, como diz o professor De Morgan, ‘dificilmente ponderável’, não é a teoria das ‘emanações mentais’ ainda mais? 

Eu proponho, portanto, que a hipótese do senhor Bray não é defensável e que nada além da suposição de mentes pessoais, existindo sem um corpo humano e apenas sob certas condições capazes de agir sobre nós e sobre a matéria, seja capaz de explicar a totalidade dos fenómenos. E esta suposição possui, eu sustento, a vantagem de serem ambas as coisas, inteligíveis e filosoficamente prováveis. 

É, contudo, muito satisfatório encontrar um escritor na posição do senhor Bray reconhecendo o assunto como um todo, como algo que possui tanta veracidade de forma a exigir uma elaborada teoria para explicar os fenómenos. Isto por si só é uma prova da natureza convincente das evidências para aqueles factos que os nossos homens de ciência se recusam a pesquisar por considerarem um absurdo a priori e uma impossibilidade. O surgimento do livro do senhor Bray talvez indique que uma mudança está a acontecer na opinião pública sobre o assunto da clarividência e do espiritualismo e, isso deve prestar um bom serviço ao atrair a atenção dos pensadores para uma classe de fenómenos que, acima de todos os demais, parecem levar-nos a uma solução parcial do mais difícil de todos os problemas: a origem da consciência e da natureza da mente. 

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Alfred Russel Wallace, O Aspecto Científico Sobrenatural, VIII – A Teoria Espiritualista (II de II), 6º fragmento desta obra. 
(imagem de contextualização: L’âme de la forêt | 1898, tempera e folha de ouro sobre painel, detalhe, de Edgard Maxence

sábado, 12 de dezembro de 2020

O Génio Céltico e o Mundo Invisível ~


A Irlanda 
(III de III) 

Através da história dramática dessa ilha que soube, pelos seus próprios meios e sem nenhum auxílio externo, reconquistar a sua independência, reencontrar-se, sob a pena dos seus escritores, esse mesmo gosto dos mistérios do Além, do sentido encoberto das coisas, desse sentimento profundo do oculto que caracteriza esta raça. 

Sob os véus do Cristianismo aparece a alma primitiva dos antigos celtas. Ela vibra na poesia gaélica como nas cordas das harpas de Ossian. O mundo invisível é, para os seus bardos, uma realidade viva e, se lhes acontece, algumas vezes, atribuir-lhe nomes e formas fantasiosas, eles não reconhecem menos, sob os seus aspectos diversos e inconstantes, a sobrevivência e a imortalidade da alma humana. 

Portanto, nos nossos dias, o sentimento do oculto tomou, na Irlanda, nuances mais nítidas e mais precisas. Ele se revestiu de uma forma experimental, tornando-se uma ciência, um método que tem as suas regras e as suas leis. Neste país, como em todo o ocidente, os fenómenos do Além são agora observados, estudados por técnicos conhecedores dos processos de laboratório e que prosseguem essas experiências num rigoroso espírito de controlo com uma atenção escrupulosa. 

Os resultados obtidos pelo professor Crawford, de Belfast, com a Srta. Goligher tiveram grande repercussão. Mas a obra mais importante sobre esses fenómenos é, certamente, a de Sir William Barrett, professor da Universidade de Dublin, membro da Academia Real de Ciências e um dos fundadores da “Sociedade de Pesquisas Psíquicas de Londres”, da qual foi presidente honorário. O seu livro No Limiar do Invisível, traduzido para o francês (e para o português), publicado em 1923, é um dos mais notáveis que têm sido escritos sobre este vasto assunto. Ele resume, de forma clara e em grande profundidade de vistas, os frutos de meio século de observações e experiências. 

Recomendamos a sua leitura e dele nos limitaremos a citar as belas conclusões: 

“A mudança mais radical do pensamento, desde a era cristã, será, provavelmente, a aceitação, pela ciência, da imanência do mundo espiritual. A fé cessará de hesitar ao se esforçar em conceber a vida do invisível, a morte se despojará do terror que inspira aos próprios corações cristãos, os milagres parecerão apenas relíquias supersticiosas de um tempo bárbaro. Pelo contrário, se, como eu acredito, a telepatia é indiscutível, se os seres da criação se impressionam reciprocamente sem a voz nem a palavra, o Espírito Infinito, cuja sombra nos cobre, será, sem dúvida, revelado, no correr dos séculos, aos corações humanos capazes de entendê-lo. 

Para algumas almas privilegiadas foram dadas a intuição, a clarividência, a palavra inspirada, mas todos nós, às vezes, percebemos uma voz dentro de nós mesmos, débil eco dessa vida mais ampla que a humanidade expressa lentamente, porém, seguramente, à medida que os séculos passam. Mesmo para aqueles que estudarão esses fenómenos apenas sob o ponto de vista científico, o benefício será imenso, fazendo-lhes mais evidente a solidariedade humana, a imanência do invisível, a soberania do pensamento e do espírito, noutras palavras, a unidade transcendental e a continuidade da vida. 

Não estamos separados do Cosmo nem perdidos nele: a luz dos sóis e das estrelas alcança-nos, a força misteriosa da gravitação une as diferentes partes do Universo num todo orgânico; a mais pequena molécula e a mais distante trajectória estão sujeitas ao mesmo meio. Mas acima e além desses vínculos materiais, está a solidariedade do espírito. Do mesmo modo que a significação essencial e a unidade de um favo de mel não estão na cera dos alvéolos, mas na vida e no propósito dos seus construtores, do mesmo modo o verdadeiro sentido da natureza não está no mundo material, mas no espírito que lhe dá a sua interpretação, que suporta e une, que vai além e cria o mundo fenomenal através do qual cada um de nós passa um momento.” 

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LÉON DENIS, O Génio Céltico e o Mundo Invisível, Primeira Parte OS PAÍSES CÉLTICOS, CAPÍTULO II – A Irlanda (III de III), 10º fragmento desta obra) 
(imagem de contextualização: A Apoteose dos heróis franceses que morreram pelo seu país durante a guerra da Liberdade, OssianDesaixKléberMarceauHocheChampionnet, pintura de Anne-Louis Girodet-Trioson)

quarta-feira, 4 de novembro de 2020

O Espiritismo na Arte ~


Parte III 

Senso artístico. Constituição e evolução.  
(março de 1922)

Em que consiste o senso artístico? 

O estudo atento da alma nos mostra que tudo na natureza – os sons, os perfumes, os raios de luz, as cores – encontra em nós as suas correspondências, as suas analogias e, que as suas radiações se fundem e se harmonizam às profundezas do ser, na medida da nossa evolução. É isso o que constitui o senso artístico, a compreensão do belo sob todas as formas. 

A evolução desse senso íntimo, a faculdade de expressá-lo, desenvolvem-se nas almas de vidas em vidas e terminam por produzir o talento, o génio. Nos aspectos superiores da arte, o artista encontra a alta concepção da beleza eterna; ele compreende que a sua fonte única está em Deus. Do infinito, essa fonte se lança sobre todos os seres e os penetra de acordo com o seu grau de receptividade. 

Raios de luz e cores, sons e perfumes, estão ligados por um encadeamento, uma espécie de escala da qual cada nota representa uma soma particular de vibrações e que constituem, no seu conjunto, uma unidade perfeita. Se a ela se juntam as formas e as linhas, essa unidade se tornará a lei geral do belo e, a arte, nas suas múltiplas manifestações, terá por objectivo reproduzi-las. 

O estudo da arte e as suas realizações nos impregnam, pouco a pouco, de esplendores do Universo. Inicialmente insensível e inconsciente no homem primitivo, esse trabalho acaba consciente, acentua-se, revela-se sob formas crescentes para se tornar como que um reflexo da beleza suprema. 

Porém, na Terra, a arte ainda é apenas um balbucio. Nos outros mundos e, principalmente no espaço, dizem-nos os nossos guias, ela produz maravilhas perto das quais as mais belas obras humanas pareceriam muito pobres e quase infantis. Chegada a essas alturas, a arte torna-se a forma mais sublime do culto prestado à divindade

Até aqui o artista se inspirou nas coisas do mundo visível ou tangível; dele ouviu as vozes, as harmonias; estudou-lhe as formas, as cores e com elas conseguiu impregnar as suas obras. Assim, o artista criou uma comunhão mais íntima entre o homem e a natureza. Graças a ele, as coisas obscuras e mudas tomaram a alma e as suas vagas aspirações, as suas queixas, as suas dores encontraram expressões que, tornando-as mais vivas, as aproximavam de nós, ao mesmo tempo que a alma humana se tornava mais sensível ao contacto da vida exterior. 

Assim, a arte entregou à vida do globo o sentido profundo que lhe faltava. Por meio da arte, as forças cegas da natureza penetraram em nós e adquiriram como que um reflexo da nossa consciência e dos nossos sentimentos. A alma humana foi em direcção às coisas e a sua influência lhes deu um modo mais intenso de vida e de sensações; por intermédio dessa comunhão a alma da Terra se elevou ao conhecimento de si mesma, do seu papel e do seu grande destino. 

Agora, como se pode ver pelas lições de o Esteta, é todo um outro mundo que se abre, é toda uma vida ignorada que surge, mais rica, mais abundante, mais variada do que tudo o que conhecemos até aqui e, a arte vai encontrar nesse meio desconhecido de fontes inesgotáveis de inspiração e de poesia, formas insuspeitáveis do pensamento e da vida. 

Desde agora, o domínio da matéria subtil e dos fluidos foi aberto, revelando-se sob aspectos prestigiosos, oferecendo ao homem meios de estudo e de observação que se estendem ao infinito ao campo das suas pesquisas e dos seus conhecimentos científicos. As aparições de espíritos nos familiarizaram com todas essas formas de existência extraterrestre, desde as materializações mais densas e mais grosseiras, até às manifestações da mais ideal e mais radiosa vida. 

Nas nossas conversas regulares com os espíritos-guias, obtemos indicações sobre a vida no espaço, sobre a grandiosidade de formas e de cores, sobre as suas suaves e poderosas harmonias, que abrem ao músico, ao pintor, ao escultor, caminhos múltiplos e inexplorados. 

Aqueles que possuem faculdades medianímicas irão percebê-los directamente e, com eles, todos os recursos da arte serão enriquecidos. O vasto mundo dos espíritos torna-se acessível aos nossos sentidos, pelos espectáculos e ensinamentos que ele nos reserva. As forças intelectuais da humanidade serão centuplicadas e, o seu génio artístico criará obras que superarão tudo o que os séculos realizaram. 

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LÉON DENIS, O Espiritismo na Arte, Parte III – Senso artístico: constituição e evolução, 10º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: A Virgem dos Rochedos Versão do Louvre (primeira versão) 1483–1486, detalhe (a mão da virgem por cima da mão do anjo Uriel), pintura de Leonardo da Vinci)

terça-feira, 20 de outubro de 2020

literatura do além-túmulo ~


Capítulo III ~

Tendo eu falado de um caso passado em Itália, direi algumas palavras sobre um outro, recente, que aconteceu a um grupo a efectuar experiências na Lombardia, onde se manifestou uma entidade que afirmava ser o espírito de um escritor falecido muito jovem, havia poucos anos. 

Fora ele, em vida, autor genial de novelas com traços característicos de estilo, de forma de imaginação difícil de imitar. Ora, aconteceu que a entidade em questão, a título de prova de identificação pessoal, ditou vários contos absolutamente conformes aos que escrevia quando vivo. 

Esses documentos mediúnicos foram publicados. A pessoa que promoveu essa iniciativa enviou-me um exemplar da obra e eu fiquei surpreendido com a semelhança incontestável da técnica literária e da imaginação criadora existentes entre os contos escritos durante a sua vida e os ditados pela entidade comunicante. 

Propus-me, então, a analisar, a fundo, o caso em apreço, da presente monografia. Infelizmente, os pais do falecido moço opuseram-se à divulgação da obra, o editor teve de retirá-la de circulação o que me desautorizou a falar dela. 

Isso é tanto mais deplorável quando se trata de documentos mediúnicos donde sobressairiam detalhes mais instrutivos e sugestivos pouco vulgares na maior parte dos escritos desta espécie. 

O que me consola um pouco é pensar que, como nenhuma vontade humana pode impedir o defunto de continuar a manifestar-se, ditando produções literárias com o fito de demonstrar a sua sobrevivência, outras provas virão juntar-se às primeiras e o caso de identificação do autor terá cada vez mais valor, esperando-se o dia em que for levantado o veto injustificado pela vontade daqueles que o impuseram, ou por qualquer outro motivo. 

Capítulo IV 

Nada querendo omitir na enumeração dos casos especiais de que me ocupo neste estudo, devo ainda aflorar o tão conhecido episódio relativo ao romance de Charles DickensEdwin Drood, que ficou inacabado por ocasião do seu falecimento e, que o espírito do romancista teria, ele próprio, terminado post mortem, por intermédio do médium T. P. James, jovem operário mecânico dos Estados Unidos da América, sem cultura literária de espécie alguma. 

O caso deu-se em 1873 e parece-me incontestável e autêntico. As condições nas quais se desenrolou esta série de sessões são muito interessantes e também bastante conhecidas, sobretudo devido à obra de Aksakof, não havendo, portanto, necessidade de recordá-las. A origem supranormal da obra mediúnica em questão foi, alternativamente, afirmada e contestada por numerosos comentadores que o fizeram, empregando, igualmente e com a mesma eficácia, a análise comparada das duas partes – a autêntica e a póstuma – do romance em questão. Os que são favoráveis à solução puramente consciente do enigma tratam, sobretudo, de salientar e comentar os defeitos e as incoerências de natureza geral. Assim, por exemplo, a sra. Fairbanks faz notar que se encontrou, nos papéis póstumos de Charles Dickens, uma cena que este autor escrevera, com antecedência, para a segunda parte do seu romance; ora, esta cena foi ignorada no ditado mediúnico. A sra. Vessel nota, por sua vez, que, lendo essa segunda parte póstuma do romance em apreço, encontrou, pela primeira vez, Dickens monótono e pesado. Ao contrário, os que sustentam a proveniência, autenticamente espírita do ditado mediúnico, não deixam de ter bons argumentos para o fazerem valer. Estes fazem notar que a narração é retomada no ponto exacto em que Dickens a interrompera, ao morrer. 

Isto se dá com tal naturalidade que a crítica mais sagaz não seria capaz de assinalar o ponto de transição. 

Fazem da mesma maneira sobressair detalhes de forma, de estilo, de construção, de ortografia, realmente eloquentes no sentido afirmativo. Assim, por exemplo, a palavra traveller (viajante) está constantemente escrita com “L” duplo, como se escreve na Inglaterra, enquanto que nos Estados Unidos da América se escreve com um único “L”. A palavra coal (carvão) está invariavelmente escrita com um “s” final, à maneira dos ingleses e, não segundo o costume dos americanos. Finalmente, passa-se, no ditado mediúnico, do tempo passado ao presente, sobretudo nas cenas movimentadas, hábito característico de Dickens, pouco vulgar noutros romancistas. 

Sir Conan Doyle, analisando, por sua vez, este caso, num artigo publicado na Fortnightly Review (dezembro de 1927), salienta outras analogias do mesmo género, começando pelos títulos dos capítulos, que guardam, constantemente, na obra mediúnica, a impressão original dos títulos caros a Dickens. Ele cita, além disso, duas passagens descritivas, extraídas do ditado mediúnico, as quais põe em confronto com duas passagens do mesmo género, tiradas da parte autêntica do romance, sem indicar os textos a que pertenciam os diferentes trechos e convida os críticos a distinguirem as autênticas das mediúnicas. Sir Arthur declara que a coisa não está longe de ser conseguida, dada a identidade do estilo e da forma, assim como a sua beleza literária, sinal do mesmo temperamento artístico. 

Apesar disso, sir Arthur também reconhece que o verdadeiro Dickens teria provavelmente feito agir, de modo diferente, certos personagens do romance, porém observa: 

“Parece-me, entretanto, que não se deveria insistir muito neste ponto, pretender que um Dickens, entorpecido pela mediação com o médium James, deva ficar, mentalmente, tão ágil quanto um Dickens, senhor absoluto de si próprio. É preciso, logicamente, admitir este tipo de constrangimento.” 

Noto, por minha parte, que esta última consideração está conforme ao que já fiz observar a propósito dos ditados mediúnicos de Francesco Scaramuzza

Não obstante, Conan Doyle conclui dizendo que, no romance póstumo em questão, “se está bem longe ainda de ficar autorizado a afirmar a existência de uma inspiração real da parte do grande romancista”. 

É nesse sentido que concluiremos também, isto é, que, se os processos da análise comparada, ainda desta vez, são, no seu conjunto, mais favoráveis à hipótese mediúnica do que à contrária, esta circunstância não autoriza, entretanto, a formação de juízos precisos a tal respeito. Deve-se, antes, reconhecer que o caso Dickens ainda não pode ser registado entre os que servem para fazer pender a balança das probabilidades a favor da interpretação espírita dos factos. 

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Ernesto Bozzano, Literatura do Além-túmulo  Capítulo III e IV, 4º fragmento da obra. 
(imagem de contextualização: Les Fleurs du Lac | 1900, tempera no painel de Edgard Maxence)

quarta-feira, 30 de setembro de 2020

~ nas garras do pensamento crítico


Interpretação do homem ~ 

O homem, segundo o materialismo, seja ele mecanicista dialéctico, é um animal pensante. Para Marx, e portanto para o dialéctico, é ainda o resultado da acção simultânea do trabalho, sobre ele e a natureza. Agindo sobre o meio em que vive, trabalhando-o, ele se modifica a si mesmo. Essa concepção materialista do homem não se enquadraria na doutrina de nenhuma das religiões corporificadas em igrejas. O Espiritismo, entretanto, não a contradiz. Apenas a amplia, ensinando que o princípio inteligente, no homem como no animal, independe do corpo. E por isso é condenado e combatido, ao mesmo tempo e por todos os lados, pelos religiosos e pelos materialistas. 

No capítulo III de O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec, encontramos esta definição: “O trabalho é lei da natureza, por isso que constitui uma necessidade e, a civilização obriga o homem a trabalhar mais porque lhe aumenta as necessidades e os gozos.” Logo mais adiante: “Sem o trabalho, o homem permaneceria sempre na infância, quanto à inteligência.” 

A lei de causa e efeito é o princípio fundamental da doutrina, a evolução constitui a sua própria essência. Por outro lado, o Espiritismo não se estruturou através de formulações hipotéticas. Todo o seu edifício doutrinário assenta na observação e na experimentação. Charles Richet, que condenava a “credulidade excessiva” de Kardec, já o notara, no Traité. Dialéctico por natureza, em essência e pelos métodos que emprega, o Espiritismo, se bem estudado, revela-se o legítimo e natural herdeiro do título a que se candidata o materialismo dialéctico: a síntese do conhecimento. 

Realmente, o Espiritismo, diante dos mundos em litígio do materialismo e do espiritualismo, não peca por exclusão, não comete o pecado proudhoniano ou marxista da escolha. Na sua estrutura encontraremos aquelas duas concepções, não apenas conjugadas ou ajustadas, mas superadas na transfiguração de um novo corpo – a síntese –, em que a ciência, a filosofia e a religião, as três províncias antagónicas do conhecimento, aparecem encadeadas no verdadeiro “processus” da mais pura dialéctica, uma resultando da outra. 

No Anti-DühringEngels lembra as origens do marxismo e expõe a doutrina como a sequência lógica destas fases: a filosofia, a economia-política e o socialismo. No Espiritismo, a sequência tresdobra-se na ciência, na filosofia e na religião. Partindo da observação e da análise dos fenómenos materiais, de natureza supranormal, criamos a filosofia do ser e, atingimos, logo a seguir, a religião. Esta, porém, não se traduz na organização de uma nova igreja, de um novo culto, de um novo “suborno da divindade”. Nem se traduz no antropomorfismo socialista, erguido no altar da produção. Mas é, ao mesmo tempo, a comunhão de bens, de corações e de espíritos, pela qual todos ansiamos, espiritualistas e materialistas, para a construção do mundo melhor amanhã. 

Porque o homem, para o Espiritismo, não é apenas “o último anel da vida animal na terra” (in A Génese, Kardec), nem o produto quase exclusivo da acção simultânea do trabalho; mas também aquele ser que se mostra nos fenómenos de materialização, de aparição, de visão, de voz directa, de incorporação, de psicografia ou de tiptologia, para demonstrar “aos que ficaram” que ele não se extinguiu com a morte e, que o seu conteúdo moral continua a viver e a desenvolver-se indefinidamente, da multiplicidade das formas, sem prejuízo da identidade substancial. 

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José Herculano Pires, Espiritismo Dialéctico, Interpretação do homem, 10º fragmento desta obra. 
(imagem de contextualização: Vi o caçador levantar o arco-íris, pintura em acrílico de Costa Brites)